A Cultura da Cobrança

0

Publicado por Editor | Colocado em Cultura, Geral | Data: 11 out 2013

Tags:, , ,

por Valentina Vaz

CulturaDeixa a vida alçar voo

Quanto vale o nosso esforço diário? Quanto é que custa as metas, os planejamentos e os cronogramas que traçamos? E que coragem, não? Determinar previamente a largura dos passos que iremos dar, decidir, sem conhecer todos eles, qual o caminho que vamos seguir… Tenho a impressão de que, essa mania de transformar a vida num calendário é criar inconscientemente um mosquitinho com um zumbido ininterrupto no ouvido da gente. Criamos e alimentamos, sem saber, a cultura da cobrança. Àquela que, todos os dias antes de irmos dormir, nos cobra ser exatamente aquilo que, em algum momento julgamos ser o ideal.

Culturalmente falando, respeitar o relógio nunca foi lá o nosso forte. A pontualidade britânica que insistimos em conferir à nossa trajetória atropela todas as novidades do caminho, os imprevistos de amor e dor e a nossa metamorfose mental. A exigência de obedecer aquilo que um dia nos faria ser alguma coisa além do que éramos, vira frustração no meio da noite. Agora, para um pouquinho pra raciocinar: Como é que ousamos decidir milimetricamente algo que nos foge o controle? Já reparou que, as vezes, quanto mais a gente faz, mais insatisfeitos ficamos? Não tem outra opção, nos frustraremos sempre. Podemos ilusoriamente decidir o que seremos, mas não podemos decidir quando o sinal fecha e quando é que os ventos, os astros e os deuses soprarão a favor.

Drummond, imagino que pensando nessa nossa neurose, disse uma vez que, “a minha vontade é forte, mas a minha disposição em obedecê-la é fraca”. Não se enganem, viver é outra coisa.  Parem de fazer tricô da própria vida, em que os pontos e os espaços são sempre os mesmos. Improvisemos, que ficar com zumbido de mosquito no ouvido, cobrando a gente de coisas que decidimos anos atrás, quando ainda nem fazia esse sol, quando ainda nem tínhamos virado borboleta, é loucura. Deixemos a vida alçar voo.

Os comentários estão encerrados.