A madrinha

0

Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 15 set 2018

Tags:, ,

Por Nando da Costa Lima

Tem muito tempo…, o povo ainda chamava sutiã de califon. Dona Rogaciana das Dores estava tricotando uma capa de rifle para guardar a “papo-amarelo” do finado marido quando a sobrinha correu porta adentro aos prantos. Silvelina era a sobrinha preferida de dona Das Dores, por ela a velha fazia qualquer coisa… O motivo do choro a velha já sabia: é que a sobrinha já tava passando dos “trintas” e nada de casamento. Ela era muito exigente, homem pra ela tinha que ser alto, “dotô” e “pão” (“pão” era o “gato” de hoje). Ela tava se derretendo no choro, como acontecia em todo aniversário. Era mais um ano sem casório! Foi o jeito dona Rogaciana jogar o tricô pro lado, ela não negava nada pra “menina”, e agora a sobrinha achava que só um “rezadô” podia abrir os caminhos dela, tinha certeza que era feitiço. Mesmo sendo uma católica praticante, ela não negou o pedido da sobrinha… “Coitada, as amigas já estão tudo casadas. Também, essa mania de homem alto”. Mesmo assim, a matriarca resolveu fazer a vontade de Silvelina. Mandou chamar logo um afilhado de confiança, aquela consulta tinha que ser sigilosa. Quando o rapaz chegou, pediu “bença” pra madrinha e perguntou:

— Qual é o problema, madrinha?

— É o seguinte, Cleonildo, essa conversa não pode sair daqui. Você conhece Otoniel rezador?

— Conheço, madrinha. A senhora quer que eu jogue ele pra traz ou basta amaciar no cabo de machado e soltar na caatinga???

— Não é nada disso, seu ignorante. Seu Otoniel é tudo como um homem santo, eu quero que você vá buscar ele pra resolver um problema da minha sobrinha… Coisa de mulher!

— Madrinha, madrinha. Esse homem tem fama de “boca preta”, já embuchou mais de vinte. A senhora vai deixar ele passar o ramo em Silvelina, sozinha? Eu acho…

— Pode calar a boca, Cleonildo. Eu tô dando uma ordem, não estou pedindo favor nem opinião.

— Tá bom, madrinha. Eu vou lá no buracão chamar o “rezadô”.

Quando Cleonildo chegou na Baixa do Buracão, ainda era cedo. Tava montado num burro e puxando outro pra trazer o rezador. Seu Otoniel Rezadô tava tomando uma Jurubeba Leão do Norte “camuflada”. O pessoal chama de “camuflada” porque o butequeiro coloca a Jurubeba num copo de vidro e quando aparece alguém que não gosta de biriteiro (patrão, esposa, filho, mãe e, principalmente, cliente), você começa a soprar o copo como se estivesse esfriando um cafezinho. O dono do bar comprou uma garrafa térmica que cabe 2 garrafas, tem biriteiro que usa até um pão de sal na outra mão pro disfarce ficar perfeito.

Cleonildo falou que estava à procura de um “rezadô” famoso que morava por ali. Otoniel deu uma soprada no copo e perguntou do que se tratava. O afilhado foi logo dando o recado.

— Eu tô aqui a mando de madrinha “Dasdô”, da fazenda Lagoa Barrenta. Ela quer que o senhor me acompanhe até lá, tá precisando de seus serviços urgentemente.

Otoniel se interessou, sabia que a viúva era rica e pagava bem! Só tava estranhando ela, uma católica praticante, mandar buscar um rezador. Tava curioso e cismado! Só foi porque sabia que o dinheiro era certo. No caminho da fazenda, Cleonildo abriu o jogo. Contou tudo que estava se passando pro “rezadô”.

— É que tia Silvelina, a sobrinha preferida de madrinha, tá achando que não se casou ainda por causa de feitiço. Já enforcou mais de 50 Santo Antônio e nada! Ela só casa se o homem for alto, tem que ter de 1,70 pra “riba”.

Otoniel notou que Cleonildo gostava de conversar e aproveitou pra indagar mais coisa.

— E esta moça já teve algum namorado?

— Namorado mesmo, não! Teve um dotô que se apaixonou por ela, mas Silvelina não deu nem bola quando soube que o homem era escritor e não era alto.

Não era bem assim. O doutor media 1,60 e, para a época, estava na média. O problema é que ele era escritor e gostava de beber, fora a brutalidade. Toda vez que lançava um livro, falava a frase que já tinha virado jargão: “Quer ler, leia! Se não quiser vai se fuder”. Ele fez inúmeras tentativas, mas em todas foi humilhado pela pretendente. Morreu sem conseguir nada com Silvelina. Ninguém sabe se morreu de amor ou de cachaça. Segundo os colegas de copo, ele enfartou quando viu um exemplar de um de seus livros servindo de papel higiênico num buteco. Dizem que já caiu morto segurando a capa do livro. Só pode ter sido “raiva”!

Depois das revelações de Cleonildo, o rezador já estava com a receita pronta e sabia até quanto deveria cobrar. Quando eles chegaram na fazenda, já era noite. Depois das apresentações, Otoniel quis impressionar a velha e falou sério:

— Tô sentindo o cheiro de desodorante vencido no ambiente, isto é encosto de poeta. Por acaso Silvelina teve algum namoro com poeta ou artista?

Dona “Dasdô” coçou a verruga e falou do “dotô” que era apaixonado pela sobrinha. Mas ele era escritor, não poeta!

— Dá no mesmo, encosto de artista é difícil de tirar. Fica até mais caro, e eu só trabalho à vista antecipado!

Quando dona “Dasdô” falou que dinheiro não era problema, Otoniel logo mandou chamar Silvelina pra ele passar o ramo e receitar. Como a ideia de chamar um rezador foi da própria sobrinha de dona Rogaciana, ela apareceu rapidamente. O rezador mandou ela ajoelhar, colocou a mão na cabeça da moça e ditou a receita de olhos fechados, já mudando a voz:

— Vosmicê pega um vestido branco, veste sem usar “caçola” nem califon. A sinhorinha vai atravessar o cemitério ajoelhada. Vosmicê deve tomar cuidado prumode não acordar as almas. Tem que ser de noite!

Aí Silvelina ficou desesperada, ela tinha pavor a cemitério. À noite, então. Cruz credo! Então o “rezadô” já falou com com voz de galã:

— Você pode ficar sossegadinha que eu vou te acompanhar.

Aí dona das Dores entrou na conversa:

— Quer dizer que o senhor tá pretendendo levar Silvelina pro fundo do cemitério, meia-noite, e sem “caçola”?!

E já quase fora de si, chamou o afilhado aos berros:

— Cleonildo, tá na hora de levar seu Otoniel Rezadô pra casa.

— Tá bom, madrinha. Os burros já estão encilhados, precisa de mais alguma coisa???

— Não esqueça de levar o cabo de machado…

Aí Otoniel Rezadô nem pela porta passou. Pulou a janela, esqueceu até o dinheiro da consulta. Correu sete léguas sem olhar pra trás. Dizem até que mudou de religião… Silvelina permaneceu solteirona e sua tia ficou ainda mais conhecida depois que fez um “rezadô” famoso mudar de profissão.

Os comentários estão encerrados.