Abrir o olho é facil, dificil mesmo é acordar por dentro

0

Publicado por Editor | Colocado em Cultura | Data: 13 mar 2014

Tags:, , ,

Por Valentina Vaz

“São meros devaneios tolos a me torturar…”

coadorA primeira coisa que faço quando acordo, antes de jogar água gelada no rosto e escovar os dentes, é botar a água do café no fogo. É quase um ritual, um mantra, uns segundinhos a mais pra eu atrasar a rotina e pensar no que eu quiser – Esses dias passados foram tão quentes quanto gelados. Aliás, o ano vai ser assim. Carnaval e dia da mulher coladinhos é quase um choque no coração dos chatos do amor ambulantes, que não param de criar perguntas pro mundo. Que mania de inquietação… – Aí é quando meu café fica pronto. Imagina que delícia, um despertador quentinho e amargo acordando seu corpo por dentro. É, porque a gente não percebe, mas abrir o olho é fácil, difícil mesmo é acordar por dentro. A vida não dá trégua, meu irmão.

Às vezes, não é assim. Não é sempre que eu acordo pensando nas relações subjetivas, quase subliminarmente implícitas, entre a quarta-feira de cinzas e o 8 de março, entre o que quer dizer os dias de esquecimento alucinógenos que a batucada nos da de presente e o porque da realidade, que nos acompanha todos os dias, insistir em separar um dia só pra fazer todo mundo tornar-se defensor das lutas e sensações que nem sequer conhecem. É mais fácil desse jeito: um dia só de comoção do que 365 dias, do que uma vida inteira. E esse ano, que já não bastava nos enlouquecer com a Copa do Mundo e as Eleições, nos embriagou uns diazinhos antes de um dos dias mais polêmicos, lindos e simbólicos que existe.  Eu sei, a relação parece ser subliminar, mas a culpa é da água que demora a ferver, do café que me leva pra onde nem existe: “São meros devaneios tolos a me torturar…”.

Mas, nem sempre é assim. As vezes, as manhãs são mais leves. As vezes, eu não acordo querendo pensar sobre o mundo e nem querendo mudá-lo. Já existem coisas demais aqui dentro de mim, querendo e precisando serem mudadas. Essas coisas ardem. Meu despertador de cafeína as acordam todos os dias. Olhar pra dentro dói, é mais difícil que engolir a quarta-feira de cinzas e estufar o peito pro Dia da Mulher numa sequência quase covarde. Mas, isso é só de vez em quando. Na maioria das vezes, eu acordo querendo ver o dia, fazendo musicoterapia com Marisa Monte na vitrolinha do meu quarto, abrindo o olho como se os dias passados tivessem sido zerados e eu pudesse começar de novo, como se toda manhã fosse 1º de Janeiro, dia de planos e cansaços novos. Cada um consome a droga que tem, aqui em casa não falta cafeína e devaneio matinais. Mas, cuidado, a gente precisa acordar, o carnaval só volta ano que vem. Que os pensamentos não nos levem pra muito longe. Criolo já me disse: “A vida não da trégua, menina”.

Os comentários estão encerrados.