Beijinho doce

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 12 jan 2019

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Por Nando da Costa Lima

Tonhão sim era um sanfoneiro retado, tocava qualquer música! Pra animar uma festa não tinha melhor. Só não era mais requisitado por ser muito bonito e charmoso ninguém queria ele perto de suas mulheres, era uma tentação, além de tocar e cantar, ainda era um poeta! Não tinha mulher que não se abria depois de dez minutos de conversa. Quando ia tocar em qualquer festa, os maridos não apartavam das esposas, estas até gostavam, só assim para terem atenção. Tonhão não deixava por menos, gostava de cultivar a imagem de galã. Toda música que tocava fazia questão de dedicar a um “alguém”, e nunca falava o nome desse “alguém”.

      Era um mistério regional…, mas todo mundo achava que era mulher casada, e bem casada! Todas as mulheres saíam das festas sentindo-se este alguém. Em maio, Tonhão foi contratado pra animar uma festa na casa de seu Teotônio Boca de Ouro, ia ser um festão, o homem tinha dinheiro pra jogar fora. Ia matar dois bois erados, fora a feijoada completa para 500 talheres. Ciente de que a feijoada pra ser completa tem de ser acompanhada pela Jurubeba Leão do Norte, comprou logo uma carga. Tudo isso pra comemorar o primeiro ano de casamento com aquela beleza, 30 anos mais nova que ele. Pra você ter uma ideia, tinha até deputado na festa. O sanfoneiro sentiu que aquele era o seu dia, e aproveitando a atenção dispensada, largou logo seu slogan: “Obrigado minhas fãs, amo todas vocês, mas meu coração já pertence a um alguém”.

      Depois disso ele já entrou na sala tocando uma valsa em homenagem ao alguém. Tava tão alegre que exagerou na cachaça, bebeu pra entortar, nunca tinha sido visto naquele estado, só tava aguentando cantar por força do hábito. O romantismo de Tonhão tava tão exagerado que já tinha uns dez querendo quebrar a sanfona e o dono. E se o deputado não fosse um corno letrado já tinha metido a mão na perua da mulher, toda hora que começava uma música ela ensaiava um desmaio. Mas o bicho pegou mesmo quando Dona Marilane, esposa de Teotônio Boca de Ouro entrou na sala. Foi um sucesso, aquela lindeza de minissaia com aquela bunda bem esculpida fez o sanfoneiro engasgar e errar o tom. Aquilo fez o pessoal pensar que era ela o “alguém” de Tonhão, se fosse mesmo a coisa ia feder defunto. Boca de Ouro já tinha despachado quatro só por terem sido ex-namorados de Marilane. Imagine o que não faria com quem mexesse com ela em público. O pessoal já olhou pra Tonhão como se ele fosse um defunto. E ele, movido pela pinga, não parou de fazer pose e cara de mal pra dona da festa, virou outro copo de pinga, cheio! E disse seriamente olhando no fundo dos olhos de Marilane: “Hoje eu revelo quem é o alguém de minha vida!”. Quando acabou de falar, Boca de Ouro, que também já se encontrava bêbado, pulou no meio da sala com um revólver em cada mão, deu um tiro na caixa de sanfona e ameaçou Tonhão: “Se você não cantar ‘Beijinho Doce’ antes de revelar nosso ‘love,’ eu lhe dou um tiro, Mô…” (fazendo biquinho).

      A decepção tomou conta da festa, em poucos minutos a mulherada apagou a imagem de galã que há dez anos ou mais povoava seus sonhos. Todas se achavam o alguém. Os homens também não deixaram de se decepcionar. Teotônio Boca de Ouro era ponto de referência quando se tratava de valentia…, só ficou o trauma!


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