Carrascão nem rima com saudade

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 14 jan 2017

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Por Nando da Costa Lima

Ele foi construído pra ser a sede do “Clube dos 50”, uma área que seria usada só pelos sócios. Quem desenhou a planta foi Elomar. Conquista era bem menor. O “Carrascão” ficava numa das partes mais altas da cidade, o que nos proporcionava uma vista linda. Como clube particular quase que não foi usado, foi aí que Robério Flores comprou as partes dos sócios e transformou aquele lugar numa das casas noturnas mais concorridas do interior da Bahia. Ali foi palco de muitos momentos bonitos de várias gerações conquistenses, uma “festa” que passou a fazer parte de nossa vida… Lá se escutavam os últimos lançamentos das músicas nacionais e internacionais, e na época de férias era o ponto de encontro da rapaziada. Aqui ainda não tinha universidade, e todo jovem que quisesse fazer um curso superior tinha que ir pra Salvador, ou pras universidades mineiras e cariocas. Todos se conheciam e isto tornava o ambiente bem mais agradável, era como se fôssemos uma só família. Eu até hoje não consegui entender como cabia tanta gente naquele espaço tão reduzido, e na época ainda podia fumar em ambientes fechados, a fumaça era tanta que ficava difícil você distinguir as pessoas. Depois de alguns whiskys e cuba-libres ficava quase impossível. Ali foi a sala de início de namoros que hoje já tem até netos. Antes de subirmos a serra nos reuníamos no Candelabro de Marivan ou no Poleiro que ficava na praça Barão do Rio Branco. Quem tinha carro levava quem não tinha e os que sobravam dividiam uma corrida de táxi. Mas ninguém ficava sem assinar o ponto no Carrascão. Roberão era um cara carismático e se dava bem com todos. Com jeito se convencia Zé Lopes de deixar você entrar até quando estava duro! Só que tinha dia que não dava pra entrar nem pagando a consumação, a boate superlotada ficava tão cheia que nem dava pra dançar o rock, ficava todo mundo parado, sacudindo o corpo da cintura pra cima. É claro que de vez em quando rolava uma briga (coisa raríssima), mas o espaço era tão pequeno e a amizade tão grande que acabava logo depois que começava. Quando a briga era do lado de fora, Zé Lopes, com seu traje impecavelmente preto apartava e ainda dava uma bronca nos brigões. A técnica dele era simples: bastava ameaçar que se continuasse a briga não entrava tão cedo no “Carrasco” que os valentões abaixavam a bola. O Carrascão era como se fosse um divisor de águas, ele marcou a transição da puberdade para a vida adulta de várias gerações… Depois de passar a primeira noitada no Carrascão, nós conquistenses passávamos a ver Conquista de uma maneira diferente, ele nos tornava ainda mais apaixonados pela terra do frio. Calça Lee, fusca com tala larga, cuba libre, Creedence, Poleiro, toca fita TKR cara preta, Candelabro, Carrascão… saudades. O tempo é foda, de repente tudo foi ontem, um passado que insistimos em guardar. Acho até que é uma maneira que encontramos de chorar sem que ninguém veja. Agora eu sei o que o poeta Erathostenes Menezes sentiu quando comparou uma árvore que fez parte de sua adolescência a ele:

“Buscando a tua sombra A evocar o passado
A ti eu me comparo, – amigo abandonado
Tu já não tens mais vida
eu já não canto mais”

Toda vida é um poema… Palavras que vêm do peito de dentro do coração, um universo restrito bordado de ilusão.

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