Delirium Tremens

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 02 ago 2013

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Por Nando da Costa Lima

Nando C. Lima  Como todo dono de boteco, só tinha uma coisa que Damião gostava mais que aumentar as contas da freguesia e fuxicar, era a birita! Vendia uma e bebia duas, já estava naquele estado em que o tornozelo fica parecendo um pilão. Mas era uma cachaça tranquila, não enchia o saco de ninguém…, a não ser sua mulher que toda noite acordava com ele aos gritos pedindo pra tirar a cobra de cima da cama. Marinalva já estava acostumada, nem abria os olhos, sabia que aquilo não passava de alucinação de pinga. Ela até tentou levá-lo ao médico, mas ele recusou terminantemente, pegaria mal confessar pra um médico que estava tendo alucinação, logo ele um comerciante de bebidas, além do mais seria o fim de linha pra sua fama de bom bebedor, era melhor conviver com a cobra imaginária que suportar as gozações dos amigos. Mesmo assim ela conseguiu uma consulta em casa com uma psicóloga, doutora Monalisa examinou o “bebum” e deduziu “que o paciente em questão teve uma transição desconexa do Id pressionando o Ego e desencadeando uma Cobrafobia crônica, o réptil já havia se instalado no inconsciente do paciente, causando um transtorno bipolar psico-cobrófico, um caso raríssimo.” Ninguém entendeu nada que a doutora falou e a cobra continuou aparecendo, ela até crescia… parar de beber nem pensar! O homem gostava tanto do álcool que passava as horas de folga fazendo experiências etílicas. Pra ele se não existisse álcool, o mundo morria de tristeza. Já imaginou um carnaval sem cachaça?

Depois de anos convivendo com aquela agonia noturna, Marinalva decidiu dar um ultimato pro marido, tinha cansado de carregar aquela “mala”. Daquele dia em diante, ou ele parava de beber, ou ela ia embora. Deu o prazo de 48 horas pra ele se decidir, já estava de saco cheio daquela cobra. Ficaria na casa da mãe até ele resolver. Caso ele se decidisse pela birita, ela mandaria buscar os filhos. Damião nesse dia tomou todas, tava tão carente que pediu ao filho mais velho aos prantos que dormisse ao seu lado para aliviá-lo dos delírios noturnos. E foi graças ao rapaz que o casamento de Damião foi salvo… É que nessa noite, seu filho matou uma cascavel enorme que passeava por cima da cama do pai. Marinalva quase endoidou quando soube, conviveu tanto tempo com aquela cobra pensando que não passava de alucinação de bêbado. Damião ficou tão alegre que triplicou a cachaça e Marinalva tomou gosto pela pinga depois do problema resolvido. Foi nas ondas do marido e largou até o emprego de professora pra dedicar tempo integral ao copo, bebia de igual pra igual com o maridão.

Hoje, três anos depois do ocorrido, nós estamos aqui no velório de Marinalva (que morreu de cirrose hepática) escutando Damião contestar o atestado de óbito e jurar de pé junto que quem matou sua mulher foi uma sucuri com mais de 20 metros, que ultimamente vinha saindo de dentro do guarda-roupa, ele tinha certeza que Marinalva morreu foi de susto, a bicha parecia um dragão, só não tinha asa. Desta vez resolveram chamar um neurologista pra examinar Damião, mas doutor Tolentino se recusou, argumentando que aquilo era problema do IBAMA. Este órgão por sua vez mandou um memorando explicando que não tinha armadilha pra pegar alucinação. E o interessante é que de cada dez amigos de copo presentes no velório, nove já tinham visto a sucuri descrita pelo viúvo…

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