Entrevista: “É um privilégio presenciar o nascimento de uma criança”

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Publicado por Editor | Colocado em Saúde, Vit. da Conquista | Data: 13 abr 2018

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Reprodução do Siga.News

O 12 de abril é a data que celebra o Dia do Obstetra, profissional que orienta as mulheres num dos momentos mais belos da vida, o nascimento de uma criança. O acompanhamento, claro, vem bem antes mesmo do parto. Afinal, é esta atenção que vai assegurar o desenvolvimento saudável da criança e um trabalho de parto que seja tranquilo para obstetras, para a mãe e para o bebê.

A Drª Thais Meyin Lin, médica obstetra do Hospital Municipal Esaú Matos e professora da Universidade Federal da Bahia/Ufba vem, desde 2012, experimentando a mágica de acompanhar a gestação e participar do nascimento de centenas de crianças. Nesta entrevista ao Siga.News, a médica relata o quão gratificante é trabalhar com a obstetrícia e narrou que, apesar dos encantos, também existem as histórias tristes.

“Mas é gratificante, é um privilégio a gente presenciar um nascimento e é muito bom quando você entrega o neném bem para a mãe. Isso é uma coisa que não tem preço. É um retorno muito gostoso e acaba que a gente tem mais prazer. Aquele meu primeiro contato, aquele meu primeiro desejo de fazer Ginecologia e Obstetrícia, que era puramente porque eu queria uma especialidade clínica e cirúrgica, essas outras coisas acabaram sobrepondo a isso”.

Veja como ficou a entrevista:

Siga.News: Como você decidiu se tornar médica obstetra?
Drª Thais: Na época da graduação, quando eu estava me formando em Medicina, eu cheguei à conclusão de que eu gostaria muito de trabalhar tanto com clínica quanto com cirurgia. Eu gostava de ambos. A ginecologia obstetrícia foi uma possibilidade também disso, a gente pode tanto clinicar, quanto fazer procedimentos. Essa foi a primeira coisa que me atraiu na profissão. Ao longo do tempo, eu fui descobrindo que eu gostava de outras coisas que eu não sabia ainda da profissão.

Siga.News: Que outras coisas seriam essas?
Drª Thais: Eu gosto muito da obstetrícia, eu sou formada em ginecologia e obstetrícia, mas eu tenho uma queda maior por obstetrícia. Eu acho que é uma profissão muito gratificante, é um privilégio a gente presenciar um nascimento e é muito bom quando você entrega o neném bem para a mãe. Isso é uma coisa que não tem preço, é um retorno muito gostoso e acaba que a gente tem mais prazer, aquele meu primeiro contato, aquele meu primeiro desejo de fazer Ginecologia e Obstetrícia, que era puramente porque eu queria uma especialidade clínica e cirúrgica, essas outras coisas acabaram sobrepondo a isso. Esses benefícios de realmente ter esse retorno do paciente, de participar de um momento que é um nascimento, de um momento que é único na vida de uma família e isso é muito bom, é muito gratificante presenciar o nascimento de uma vida.

Siga.News: Quais são os principais desafios que você encontra no seu dia a dia?
Drª Thais: Na obstetrícia em si a gente está vendo um movimento de mudança de algumas condutas na obstetrícia mesmo. A gente tem a medicina baseada em evidências que tem pautado essas mudanças em alguns paradigmas que antes eram tidos como normais ou boas condutas e hoje a gente está vendo que algumas condutas, elas não são mais adequadas e caminhar para isso tem sido difícil. Muitas vezes são condutas que estão enraizadas na cultura do obstetra. Mudar isso é muito difícil, eu acho que tem essa questão realmente das mudanças que tem vindo para melhorar a assistência, mas a gente encontra uma certa resistência da equipe em relação a isso.

Siga.News: Você trabalha com a ideia de parto humanizado? Como você enxerga isso?
Drª Thais: Eu gosto do termo assistência humanizada ao parto e não parto humanizado. A assistência humanizada é quando você tira o foco do profissional de Saúde e põe o foco na mulher e na família. O protagonismo do parto passa a não ser do hospital ou do médico, mas passa a ser da família. Quando você muda esse protagonismo, você permite que a mulher faça escolhas com relação à forma em que ela quer ganhar o seu neném e obviamente dentro de alguns protocolos.

A gente tem pacientes de alto risco que, infelizmente, às vezes não podem escolher a forma com que elas querem que o neném nasça. Mas com pacientes que a gente chama de “risco habitual”, que é a grande maioria das pacientes, a gente consegue dar uma atenção diferenciada. Ela pode escolher a forma em que ela quer ganhar, a posição que ela quer ganhar o neném. Antes, por exemplo, a gente colocava a paciente em jejum no trabalho de parto, hoje ela pode se alimentar no trabalho de parto.

O direito ao acompanhante, direito à doula, aquela mulher que apoia mulher no trabalho de parto, tudo isso é humanização e eu falo que a humanização começa na recepção. A gente tem que ter um recepcionista humanizado, a gente tem que ter uma funcionária de Serviço Social humanizada. A humanização não é só do médico, é da equipe toda, que convive, que vai assistir aquela paciente. A humanização para mim é um conceito muito mais amplo, a gente pode ter uma cesárea humanizada, a gente pode ter um parto normal humanizado, depende da forma que você trata a paciente. Se você trata a paciente com dignidade, você está dando uma atenção humanizada.

Siga.News: Você pode me contar uma história que foi bem marcante na sua carreira como obstetra?
Drª Thais: Eu tenho várias histórias marcantes, eu acho que todo nascimento é marcante. É um privilégio a gente poder presenciar o nascimento de uma criança, o crescimento de uma família, então assim, eu acho que todo nascimento tem sua peculiaridade.

Agora, talvez um caso que me marcou bastante foi de uma paciente que…. Infelizmente foi um desfecho ruim que a gente teve. Eu acho que talvez os desfechos ruins marquem mais a gente do que os desfechos bons. Graças a Deus, a gente convive mais com os desfechos bons, mas realmente os resultados ruins marcam mais.

Foi lá em Belo Horizonte, ainda, onde eu nasci, foi uma paciente que chegou no hospital que eu trabalhava, encaminhada de outros hospitais. Ela foi uma paciente que a gente fala que perambulou por vários serviços antes de chegar no nosso hospital. E ela já chegou praticamente ganhando o neném. E o neném nasceu morto. Ela reconheceu que não foi falha da nossa equipe porque na verdade ela já tinha ido para vários outros hospitais, o neném só acabou nascendo no nosso hospital. Mas foi muito triste, foi no dia do aniversário da minha mãe, sabe… E foi o primeiro óbito de um neném que eu presenciei, então foi uma coisa que me marcou bastante.

 

 

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