Inflexíveis, ou, sabe de nada inocente

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 24 jun 2014

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Por Valdir Gomes Barbosa
Valdir Gomes BarbosaHoje, véspera de São João fui pessoalmente a uma agencia do BRADESCO, nesta quente terra do frio, onde opero há décadas. Sou correntista da qual me refiro nestes considerandos e tenho também conta inativa em outra, que já foi sede do antigo BANEB de Vitória da Conquista.

Recebo meus proventos, na condição de funcionário público, desde os tempos do extinto banco estatal, adquirido pelo Banco Brasileiro de Descontos nas citadas casas bancárias há quase quarenta anos. Apesar de haver transferido meu domicílio para Salvador, onde estou em definitivo com a família desde 2008, decidi continuar com minhas transações bancárias aqui.

Mesmo porque, assim sabem os leitores, tenho esta cidade como minha segunda urbe, aliás, Salvador, meu berço querido, minha terra natal divide com Conquista meu coração. Grandes realizações, incontáveis conquistas alcancei por cá; trata-se do torrão abençoado de muitos dos meus filhos e enteados; de diletos amigos; de maravilhosas companheiras que tive, cada qual no seu tempo; manjedoura da minha querida esposa Roberta, com quem me amalgamei, já se vão quase quinze anos, ao que parece de forma indivisível, até quando vida tiver.

Mas, o certo é que hoje pela manhã precisei fazer uma transferência de numerário para outra instituição de crédito. Por equivoco, em um digito, retornaram para minha conta valores que havia repassado a credor, na semana finda e, cientificado disto corri para reparar o erro. Munido do meu cartão de debito, com o qual opero em qualquer caixa mediante utilização das senhas de acesso, me pus na fila dos idosos.

A lentidão e deficiência do atendimento faz jus ao seu nominar: fila para idosos, deficientes, pessoas com necessidades especiais, senhoras gestantes, com crianças e lactentes, que deveria ser completada com a locução: e outros sofredores. Engrossei o murmúrio dos descontentes postados uns atrás dos outros e assisti, alguns mais combalidos, se lançarem num sofá que aos poucos foi ficando pequeno, para os que aguardavam sua hora.

Observei o trabalho vagaroso da jovem caixa, moça de belos traços, que vez por outra se ausentava da ilha onde atendia, para promover alguma diligencia, imagino indispensável ao seu mister, entretanto, enervando neste hiato a todos quantos aguardavam sua vez de ser atendidos.

Algumas vezes tinha sua atividade interrompida por colega que cobrava algo e apenas lhe observei ágil, quando provou de guloseima ofertada por uma cliente, sobre a qual fez um entusiasmado elogio, ainda de boca cheia. Certo é que fiquei durante cerca de quarenta minutos esperando, até quando ouvi o que me parecia redentor: “o próximo”.

Fiz-lhe ciente do quanto pretendia e entreguei o cartão conforme enfocado. Chegou a colocar o mesmo na máquina, para que digitasse os números, contudo, de repente, exigiu minha identidade. Confesso que não costumo trazê-la comigo, vez que, via de regra deixo todos os documentos numa carteira guardada no carro. Faço-o sempre, mesmo em Salvador e ainda mais aqui, onde apesar do traço cosmopolita que assume a cidade, quase todos se conhecem.

Contestei, arguindo que estava na agência onde tenho conta, em pessoa, utilizando meu cartão expedido pelo banco, arrazoando ainda que fora daqui, sobretudo em Salvador, quando opero em circunstancias idênticas, nunca me exigiram a identidade, no que absolutamente não minto.

Contestou dizendo que teria de assinar um recibo, portanto, carecia da minha identidade, no que retruquei rearguindo a questão de me achar na agencia onde sou correntista, o que lhe permitiria conferir minha assinatura, no banco de dados respectivo.

Tudo em vão. Do alto de sua falsa autoridade, própria dos inexperientes que não conseguem usar o bom senso, me despachou impiedosamente, como fez o Chile, ao mandar de volta para casa os Espanhóis. Imaginei, não sou Espanhol, me cabe recurso e subi as escadas bufando, em busca da gerente de minha conta.

Observei, na chegada, que a figura responsável por me atender não se encontrava no ambiente. Fui em direção à colega sua, que estava sentada numa carteira ao lado daquela, para onde costumeiramente me dirijo. Preservarei o nome de todos os funcionários, mesmo porque não desejo prejudicá-los, cuido apenas de manifestar meu desagrado, no sentido de que a instituição os oriente na direção de prestar melhor seus serviços, na medida em que existem casos e casos, normas e adequações. Sobretudo, a boa vontade de servir, aliada ao bom senso devem preponderar, creio eu.

Fiquei alguns segundos, nem poucos, nem muitos, parado em frente a outra jovem, também bonitinha, que permanecia envolvida com a tela de seu computador. Apenas me deu atenção quando a interpelei perguntando por sua colega, de quem disse gerenciar minha conta. Soube que a moça estava de folga, ao que decidi buscar nela mesma a solução, todavia, novamente, me vi frustrado, posto foram, de maneira idêntica, recrudescentes os argumentos usados pela caixa apreciadora de guloseimas, que me recebeu anteriormente.

Na tentativa de ratificar minhas razões ouvi da bonitinha que nada poderia ser feito. Segundo ela, algum parente meu poderia ter se apossado do cartão que trazia e, de alguma forma, conhecer a senha, destarte, apenas seria atendido, na posse da minha identidade. Frize-se, minha pretensão era fazer uma transferência de numerário, para conta identificada, além disto conversava com funcionária, a responder por outra, que gerencia minha conta. Alegou que apenas sua colega em descanso, por me conhecer, seria capaz de dar a solução.

Ao dizer que “algum parente meu poderia ter se apossado do cartão e tido acesso a minha senha”, não se deu conta de que cometera, no mínimo, uma indelicadeza, ao sugerir que alguém das minhas relações fosse desonesto. Então, meu lado muar eclodiu, desde quando digo com frequência, que fui criado um tempo em colégio de freiras e outro numa estrebaria.

Disse-lhe que se fosse um assaltante seguramente levaria o que quisesse, no mínimo derrubaria parte da agencia, como têm feito com frequência os ladrões de caixas eletrônicos, Bahia afora, sem limites, nos derradeiros tempos. Desconhecendo que na minha ira falava de roubo e não estelionato, situação que compreendo, posto seu conhecimento ordinário não lhe obriga a distinguir roubo de furto, furto de estelionato, me disse com sua cara bonitinha e lavadinha. “Ah!, não levava não, a não ser que apresentasse a identidade”.

Conclui dizendo: Filha, levava sim, saiba que tenho apenas trinta e oito anos de polícia, em seguida lhe dei as costas. Esqueci das subtrações com violência – os roubos – e saí pensando: quantas contas bancarias vêm sendo abertas com documentos falsos, capazes de originar golpes milionários, hoje ainda mais potencializados pelas quadrilhas que usam os sistemas da lógica, para concretizar suas ações criminosas. Seguramente, são jovens bonitinhos, bonitinhas, legalistas, cheios de teorias que recebem e referendam os papeis fraudados. Portanto, fosse eu um delinquente, levava sim.

Apenas poderei cumprir minha obrigação depois dos festejos juninos, já que hoje, ao meio dia e meia, as portas da agencia se fecham e só reabrem na quarta. Não me esquecerei de levar o documento exigido e enfrentarei de novo meus quarenta minutos de fila, ou mais. Ao ser atendido, caso seja pela mesma funcionaria ficarei a olhar para a jovem, ciosa dos seus deveres e pensarei: coitadinha! Depois, faço uma visita a minha gerente, quem sabe, da próxima vez, sua colega sabendo que não sou tão perigoso, seja menos inflexível. E mentalmente direi as minhas atendentes de hoje: Sabe de nada inocente!

Bom São João a todos e que venha o Chile.
Conquista, 23 de junho de 2014
valdir barbosa

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