Liberdade Incondicional

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Publicado por Editor | Colocado em Cultura | Data: 31 maio 2013

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 Por Nando da Costa Lima

 Nando C. LimaEram seis horas da tarde quando o grupo de artistas e intelectuais chegou à casa de Beltrão da Silva, o artista mais festejado da cidade. Ele era completo, pintava, esculpia, entalhava, desenhava e fazia tricô. O pessoal estava ali para conhecer a ultima criação do genial conterrâneo. Ele fazia questão da opinião dos entendidos em primeira mão. Como lá, quem não era artista era crítico de arte, acabava tendo que mostrar suas criações pra cidade toda. Beltrão não estava em casa, mas o pessoal se achava de casa e entrou assim mesmo (artista tem dessa coisas). Numa das salas estava o trabalho, só podia ser aquela beleza de escultura moderna, nada mais parecido com Beltrão que aquela maravilha de escultura…O primeiro a interpretar a obra foi Marileide, psicóloga, e pintora erótica.”É a encarnação da liberdade, nunca ninguém caracterizou tão bem a sensação de estar livre, está absolutamente divino”. Aristarco, poeta, crítico de arte e médico nas horas vagas, concordou e completou -“Pra mim é a oitava maravilha do mundo, além de nos dar a sensação de liberdade, leva-nos a sentir que não existem barreiras intransponíveis, realmente genial”. Genivaldo Star, escritor, pintor e “entendido”, aumentou a seção de elogios -“MA-RA-VI-LHA”, coisa do outro mundo, Beltrão mostra nesse trabalho LIN-DER-RIMO a extinção dos preconceitos sexuais”-. Adelaide Maria, socióloga, decoradora e feminista discordou -“Pois eu acho que ele,está mostrando o excesso de preconceito da sociedade em relação aos homossexuais, um trabalho fortíssimo!” Onorino, que além de tarado era arquiteto, contradisse as duas interpretações -“Não é nada disso, esta obra apenas nos faz sentir o valor do “cabaço” na atual sociedade de consumo, é um protesto do artista, quase me leva ao orgasmo!” Foram dezenas de críticas construtivas em torno da escultura, todo mundo . falava uma coisa diferente, mas todos concordavam num ponto: era a obra prima do irreverente Beltrão, aquela manifestação de talento jamais seria superada, um toque de génio! Gostaram tanto que resolveram festejar mesmo sem a presença do autor e dono da casa. A birita correu solta…. todo artista bebe bem. Quando Beltrão chegou, o pessoal estava a mil por hora, já tinham até batizado a obra-prima, denominaram-na “LIBERDADE INCONDICIONAL”. Apesar de desconfiado, Beltrão até que ficou satisfeito com tanta tietagem. Só não estava entendendo porque uma cabeça de touro moldada em gesso, encomenda de uma churrascaria, foi batizada de Liberdade Incondicional. O mistério aumentou quando ele foi até o quarto e viu que nem o pano que cobria a escultura tinha sido retirado, tava na cara que tinha algo de errado… Só depois de muita conversa que ele notou o engano do pessoal. A obra de arte que eles tanto elogiavam não tinha nada a ver com a cabeça de touro, eles se referiam a uma gaiola velha e quebrada que ele havia pendurado na parede da copa até ter tempo de jogar no lixo. Aí foi o jeito assumir a gaiola velha e jogar a cabeça de touro fora.

   Hoje,”Liberdade Incondicional” faz parte do acervo do Museu Municipal (a peça mais cobiçada). E Beltrão da Silva ficou rico vendendo gaiola velha para os novos ricos da terra. Na cidade, socialite que se preza tem de ter uma gaiola velha pendurada num lugar de destaque da sala.

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