LUIZ, O MAIOR BIÓLOGO BRASILEIRO

0

Publicado por Mateus Novais | Colocado em Geral | Data: 02 out 2014

Tags:,

por Ubirajara Brito 

Hildebrando_290x390Não é mais entardecer. O crepúsculo se aproxima do negror da noite eterna; deste momento já vislumbro o outro zero da vida; recebo avisos do fim pelos amigos que vão tombando à minha frente. Há pouco, foi Zé Pedral. Agora, vejo ir-se Luiz Hildebrando, um dos companheiros mais queridos, excepcional inteligência e límpido caráter, dedicados à Ciência e à solidariedade dos humanos.

Na juventude, liderou um grupo de jovens talentosos, entre os quais se encontravam Fernando Henrique, Ruth Cardoso, Zé Vargas, Darci Ribeiro, Maurício Segall, Jean Meyer, Maria Isaura de Queirós, Marinhinha Werebbe, Rogério Cerqueira Leite, Danda Prado, Marlise Meyer, Beatriz Segall,Ely Silva, Erney Camargo e Moisés Nussensweig.

Foi, certamente, o maior biólogo brasileiro do século XX, como atesta sua presença no Instituto Pasteur de París, por onde se aposentou como Diretor de Pesquisas em 1997. A partir de então, veio fixar-se em Rondônia, onde fundou o Instituto de Pesquisas de Parasitologia Tropical, hoje um Centro de Referência de renome internacional. Tive a felicidade de poder ajudá-lo nessa empreitada, no Ministério da Ciência e Tecnologia, conduzido à época por José Israel Vargas.

Luiz foi educador e cronista de mérito. Oscar Niemeyer, ele e eu, em co-autoria, publicamos em 2007, pela Editora Revan, “Universidade de Constantine, Universidade dos Sonhos”, onde apresentamos algumas ideias constantes do Projeto de Reforma do Ensino Superior elaborado sob nossa coordenação para o Governo da República Democrática e Popular da Argélia.

Ao receber por Zé Vargas a notícia de seu falecimento na quarta-feira, enviei a seu filho Luizito, Diretor do Banco Central o e-mail seguinte:

Meu caro Luizito.

Luiz não fará falta apenas a nós, seus amigos. O Brasil deve muito do gozo democrático em que vive ao trabalho de uns poucos, que, como ele,quase no anonimato do exílio,arregimentaram reações, nacionais e estrangeiras, à ditadura que tanto oprimiu o povo brasileiro durante as décadas de 60 e 70 do século passado. Para o seu fervor democrático não existiria descanso, roubando-lhe preciosas horas que poderia dedicar à Ciência, cumprindo vocação e dotes raros e pouco comuns na espécie humana.

Chorei a morte do velho companheiro. E chego até a lamentar viver tanto e ver tombar antes de mim os heróis de nossa luta pelo socialismo,pela liberdade e pela paz.

Paro por aqui, pois a tristeza e saudade me inspiram e me abatem.

Peço-lhe, e aos seus irmãos, conservar em mim a fraternal amizade de Luiz.

Um abraço

do Bira.

TRECHOS DA ENTREVISTA DE LUIZ HILDEBRANDO

À REVISTA ÉPOCA EM DEZEMBRO DE 2012

ÉPOCA – O que o senhor acha do governo Dilma Rousseff?

Luiz Hildebrando – O Partido dos Trabalhadores é muito corporativista, e os sindicalistas estavam aparelhando o Estado. A consequência foram os prejuízos na Petrobras e na Embrapa, por exemplo. A Dilma é uma dona de casa, uma boa gerente. Não é uma estadista. Ela está tentando profissionalizar a hierarquia estatal, substituindo o corporativismo pela meritocracia. Mas não assumiu a vanguarda das mudanças políticas e fiscais vitais no longo prazo nem tratou da melhoria do ensino público. Por enquanto, a única medida do governo foi o estabelecimento das cotas universitárias. Elas trazem melhora momentânea na desigualdade, mas não resolvem.

ÉPOCA – Por que o senhor decidiu trocar as margens do Rio Sena, em Paris, pelas margens do Madeira, em Rondônia?

Luiz Hildebrando – Depois de trabalhar 35 anos no Instituto Pasteur, onde chefiava o Departamento de Biologia Molecular, eu me aposentei em 1997. Tinha 68 anos. A França é diferente do Brasil. Lá, quando um professor se aposenta, não pode manter sua sala na universidade nem orientar estudantes. Tem de ir para casa. Poderia ter me contentado com aquela aposentadoria confortável, mas ainda tinha muito a fazer. Tive a sorte de ser convidado a montar um serviço de pesquisa de malária em Porto Velho. Estou lá há 15 anos. Passo oito meses por ano no Brasil e quatro em Paris, onde ficou minha família. Planejava parar em 2013, mas não vai dar. Tenho muitos projetos em andamento.

ÉPOCA – Quem o senhor enxerga como um futuro estadista?

Luiz Hildebrando – É cedo para afirmar, mas a melhor aposta seria o Eduardo Campos, o governador de Pernambuco. Ele é um político jovem e bem formado. Vem de uma família de esquerda. Faz uma política pragmática, voltada para a solução dos problemas. E é do Nordeste – região que pode ganhar maior representatividade com um nome no Planalto.

Os comentários estão encerrados.