No tempo de Piolho e Naldo

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 11 ago 2018

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Por Nando da Costa Lima

Tem gente que é persistente! Pro sujeito viver de futebol no interior da Bahia, no final dos anos 60 pro início da nova década, era um sufoco. Bota sufoco nisso! Eu falo porque sou testemunha, eu vi o Conquista Futebol Clube na sua melhor fase! Nós tínhamos craques que podiam jogar em qualquer grande time do país. É sério! Era um timaço: Wesley, Neves, Ticarlos, Wellington, Naninho, Naldo, Agra, Isac, Piolho, Vitor, Jurandir, Juracy… Piolho e Naldo faziam a festa pra torcida, eles eram habilidosos e jogavam um futebol elegantíssimo, eles faziam a diferença! É claro que toda a equipe era formada por jogadores de alto nível, mas do meio de campo pra frente, se deixasse Piolho chutar, ficava difícil pro goleiro. Foi esse time que contratou o prof. José Maria Areias como treinador. Se naquele tempo a carreira de jogador já era difícil, imaginem a de técnico, era bem pior! Ele tinha que ser treinador, amigo, pai, mãe, psicólogo… Foi Zé que, com muita competência e um grande amor pelo futebol, conseguiu mostrar nossos craques para o Brasil. Não sei como ele conseguiu manter aquele time durante tanto tempo. Todo menino daquela época escalava o timaço de cabeça. E a cidade amava seus craques, os torcedores enchiam o Lomantão… Mas tudo passa! O time foi se desfazendo lentamente: uns pararam de jogar bola, outros mudaram de time. Zé ficou por aqui, ele já tinha se apaixonado pela Conquista “meio civilizada, meio tabaroa” do poeta Laudionor Brasil. Hoje Zé faz parte da história da cidade: um cara muito espirituoso que, com muito jogo de cintura, conseguiu ser um técnico respeitado treinando um time duma pequena cidade do interior baiano.

Enquanto isso, num lugarejo muito longe daqui… pra lá do Guigó, surgia um atleta muito promissor. Aguinaldo “Pé de Foice” já tava ficando marrento depois que fez 13 gols no empate por 17 a 17 num jogo entre casados e solteiros. Estava se sentindo a estrela do trecho: “Se cair na canhota é gôrro”. Não podia entrar num buteco que aparecia um torcedor pra pagar tudo, tava ficando roliço de tanto beber cerveja e comer galinha por conta dos fãs. Quando Aguinaldo foi emprestado pra jogar na seleção do Guigó contra um time da Lagoa, ele arrasou, jogou muita bola! Seu time ganhou de 16×13, ele marcou nove e se consagrou como artilheiro. Foi a glória. Até Jota Menezes, da Rádio Clube, que estava batizando um menino naquelas bandas, aproveitou pra entrevistar o atleta. Todos apostavam no futuro promissor do craque, tanto é que a família resolveu levar o jogador pra fazer um teste no Conquista Futebol Clube, do exigente professor José Maria. Não deu outra!

No dia da apresentação, veio a família toda pro Lomantão, trouxeram até os meninos. Tiveram que fretar duas kombis. Tinha até uma carta de Jota Menezes apadrinhando o homem-gol. O técnico Zé Maria estava nervoso, era aquela história de futebol do interior: salários atrasados, jogadores faltando ao treino… Ele só atendeu o tio de Aguinaldo por causa da carta! Quando o artilheiro foi apresentado ao técnico, Zé apertou a mão do atleta e fez a pergunta de praxe: “Você joga em que posição?”. Aí o craque já respondeu se aquecendo: “Eu bato bem nas dez posições, e quando vou pro gol, não passa nem pênalti”. Aí Zé acabou de “se retar” e, puto da vida, deu uma ordem gritada ao tio do craque Pé de Foice: “Tira esse fenômeno da minha frente, o Conquista não tem condições de pagar um atleta desse nível. Corre com ele pra São Paulo, some daqui…”. E nesse dia nem teve treino.

É isso, Zé! Eu ainda lembro do time passando em frente à casa dos meus pais, indo treinar. Todos a pé! E olha que da sede do time até o Lomantão era uma palhetada boa. Só você tinha um carrinho usado, e ainda apareciam uns torcedores chatos fazendo comentários sem pé nem cabeça: “O técnico ficou muito metido depois que comprou um carro, não dá carona nem pros jogadores”. Era óbvio que você não podia enfiar 22 jogadores e mais o roupeiro Dão Mijão dentro de um fusca, nem com mágica! Mas tem gente que é assim mesmo, tem que ter alguma coisa pra falar, faz parte da vida. E, cá entre nós, meu caro Zé: se não tiver torcida contra, nem vale a pena a gente entrar em campo.

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