No tempo do motô

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 07 set 2019

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Por Nando da Costa Lima

João Alemão tava apaixonado, aquela princesa trazida da caatinga pelo juiz mexeu com ele. Também não era pra menos, o simples mecânico duma cidade onde as mulheres bonitas só casavam com fazendeiros ou comerciantes, não podia deixar aquela beleza escapar. Edeusita veio pra trabalhar na casa do juiz, uma casa de respeito! E era mesmo, o Dr. não gostava de vagabundo rondando sua casa. Não foram um nem dois que dormiram engaiolados só por ter dado boa noite a Edeusita em hora imprópria. É que nossa Conquista, nesse tempo, era iluminada pelo “motô” que ficava na Av. São Geraldo. Este só funcionava até as 23:00 h, dessa hora em diante era perigoso rondar a casa do Dr. . Parecia ciúme! Já tinha dois soldados de prontidão só pra prender os possíveis garanhões, isto afastou os rapazes daquela princesa catingueira. O procedimento do juiz fez a imaginação da rapaziada endeusar a beleza da moça. E Edeusita, que era bonitinha, se tornou linda. Sua fama correu longe, até em Itambé já se sabia da sua beleza, mas João era quem mais sonhava com aquele amor impossível. Já tinha sido preso nove vezes, mesmo assim não desistiu.

Foi essa sua persistência que o levou a bolar um plano que entrou na história de nossa Conquista, foi ele o primeiro lobisomem da Terra do Frio. Isto sem contar os que os mentirosos da Rua Grande viam, toda sexta-feira, na Praça do Jenipapo (Praça Vitor Brito). Em 1920 aqui era comum você encontrar alguém que já tivesse lutado com um lobisomem ou com uma “mula-sem-cabeça”, aqui já teve até chuva de piaba, uma prova que nossa gente sempre teve imaginação fértil. Aproveitando disso João arrumou a única maneira de se aproximar de Edeusita sem ser incomodado. Colocava uma lata de querosene na cabeça com aberturas pra respirar e enxergar (um capacete improvisado), jogava o paletó por cima e saía agachado de sua casa até a do juiz. Devido ao capacete tinha até a discussão se se tratava de um lobisomem ou um visitante de outro “praneta”. Esta hipótese de marciano foi rebatida por um dos intelectuais da terra que garantiu que se fosse de outro “praneta” iria pra Sompaulo e não aqui nesse fim de mundo. Esta cena passou a se repetir toda sexta-feira, depois que o motô desligava a cidade ficava às escuras e a cachorrada começava a latir como se tivesse acuando alguma coisa. O pessoal já sabia que se tratava do lobisomem, só se via gente botando tranca nas portas e rezando Ave-Maria e credos de trás para frente, era normal. O lobisomem não incomodava ninguém e aquele medo era como uma diversão numa cidade onde eram raros os acontecimentos. Nesse meio tempo, João tinha conseguido se aproximar de Edeusita, já estavam apaixonados…

Um dia apareceu na cidade Zacarias, tinha tempo que não vinha aqui, andava mais pela roça. Era famoso, com um ferrão na mão, ficava na frente de qualquer touro. Só veio aqui quando ficou sabendo do lobisomem, seu sonho era quebrar um no tapa. Veio pra jogar areia no brinquedo de João… Quando ele soube que Zacarias tava na terra pra pegar o bicho, já ficou nervoso. Sabia que ia dar errado, mesmo assim insistiu. Não dava pra ficar sem ver seu amor conseguido com tanto suor!

 Não era noite de lua, isto fez com que João se sentisse mais seguro pra insistir no encontro. Já tinha atravessado todo o caminho sem dar de cara com Zacarias, tava até tranquilo. Mas quando pulou o muro da casa do Dr. recebeu uma cacetada que não o matou graças à lata de querosene. Tentou correr mas Zacarias era mais ágil e acertou outra cacetada nas costas que o fez cair. Quando viu que a coisa ia ficar pior tirou o paletó do rosto e se identificou. Zacarias reconheceu o mecânico e parou com as pancadas. Depois de passado o susto João insistiu pra que Zacarias não contasse a ninguém, pagou até uma garrafa de vinho Constantino. Mas de nada adiantou, no outro dia a história do lobisomem e da empregada do juiz era a novidade da Rua Grande. No início João andou meio sumido, depois se acostumou e até gostou da popularidade adquirida com aquela história. Edeusita não teve a mesma sorte, não ficava bem pra uma moça naquele tempo se encontrar com um homem às escuras. Teve que partir… Só ficou sua história pra marcar um tempo que, como ela, não pode voltar atrás. Um tempo em que nossa Conquista ainda era iluminada pelo “motô”.

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