O Calvário do Rafael

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 10 dez 2016

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Por Nando da Costa Lima

NandoO Dr. tava se sentindo o dono do mundo, em 1947 com um diploma de medicina, estava realizado. O juramento de Hipócrates ainda estava na ponta da língua. Ele era noivo, a primeira providência de Maria foi apressar o casamento, não podia perder aquele médico em hipótese alguma, foram treze anos de noivado. O Dr. tava tão entusiasmado que só tirava a roupa branca pra fazer as necessidades, tava naquela fase que ninguém podia tossir perto dele sem ter que escutar o diagnóstico. Já tinha retalhado a família toda: era a unha encravada de um, a garganta de outro, todos provaram do seu bisturi. Quando os pacientes de sua casa acabaram, o jeito foi partir para os parentes da noiva. O primeiro escolhido foi Rafael, era um rapaz de mais ou menos quinze anos que caiu de se queixar de uma dor no canal enquanto urinava. O Dr. nem esperou ele terminar de contar os sintomas, grudou-o pelo braço e deu o diagnóstico: “Isto é fimose, nós vamos agora mesmo cortar esse bico de candieiro”. Rafael teve que concordar com a cirurgia mesmo sem querer. Além da noiva do Dr., que era sua prima, sua mãe e mais uma tia fizeram a maior pressão. Se ele recusasse iria ferir os brios do futuro primo.

Pegaram três transportes até chegar ao hospital. A operação foi um sucesso tecnicamente, até o operado ficou impressionado com a rapidez da cirurgia.

A volta para casa foi penosa, dá até pra comparar com o Calvário percorrido por Cristo. É que o Dr., pra falar que era ocupado, quando acabou de dar o último ponto bateu no ombro de Rafael e falou que ele já podia ir embora, quando terminou de falar desapareceu hospital adentro. Não deu tempo nem de explicar que estava sem dinheiro pro transporte. Quando saiu do hospital o efeito da anestesia começou a passar, teve que andar com as pernas abertas uns quatorze quarteirões até encontrar um amigo que lhe emprestasse o dinheiro da passagem. Como estava perto do Elevador, resolveu descer e pegar o ônibus na cidade baixa, ele morava em Itapagipe. Na entrada do elevador quase morre de dor, quando ia passar a borboleta pegou em cima da operação, a dor foi tanta que ele voltou de costas. Depois de ficar uns cinco minutos agachados, resolveu descer pelo Plano Inclinado. Na hora que se acomodou, uma criança que não conseguiu lugar para sentar pulou no seu colo sem cerimônia. Rafael deu um pulo que assustou todo mundo, quando o Plano chegou na parte baixa ele estava desmaiado com o garoto pulando no seu colo. Foi preciso a mãe do menino abaná-lo pra ele voltar a si. Saiu do Plano quase que de quatro, só deu pra chegar no ponto de ônibus, mesmo assim teve que ser carregado pra entrar. No empurra-empurra do ônibus ele teve quatro crises de choro até chegar em Itapagipe. Se o Dr. aparecesse naquela hora ele o partiria ao meio.

Depois de mais de três horas de sofrimento, Rafael conseguiu chegar em casa. A primeira pessoa que ele viu quando entrou foi o Dr., que passou-lhe logo um carão: “Como é que eu lhe opero hoje e você fica até uma hora dessa na rua, nesse tipo de operação o repouso é essencial para a cicatrização”. Se raiva desse choque Rafael teria eletrocutado o Dr. só no olhar, tava tão retado que ficou mudo. O Dr., depois de contar o sucesso na operação para o resto da família, encostou-se no operado e dando-lhe uns tapinhas nas costas falou como se estivesse agradando: “Pois é Rafael, assim que isso cicatrizar nós vamos lá no hospital pra eu examinar sua hemorroida, já tem três meses que eu me formei e até hoje não operei nenhuma”. Quando ele acabou de falar Rafael pulou na cama, colocou a mão no traseiro, encostou-se na parede do quarto e fez uma cara tão assustada que o resto da família teve que pedir pra o Dr. voltar outro dia. Até Maria que era noiva teve que concordar com a ideia.

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