Pavão Enfeitado

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 16 nov 2019

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Por Nando da Costa Lima

Até os anos 1980, o termo “bem casada” era dirigido a casais que tivessem dinheiro sobrando ou se o noivo fosse “dotô”. Todo mundo tinha uma ponta de inveja do casal mais elegante da cidade: Dona Eufalazia e Seu Demétrio eram tudo que muitos queriam ser, e eram até imitados por outros casais. Muitos diziam que os dois eram almas gêmeas… Eram ricos, e enquanto ele tava ganhando dinheiro, ela fazia caridade para os necessitados. Era uma válvula de escape para a madame. O marido era ciumentíssimo, e onde ela ia, tinha que levar a sobrinha. Quando não estava visitando os desafortunados, tava pendurada no telefone querendo saber de tudo que se passava. E era chic falar que Dona Eufalazia tinha ligado…

— Jozilda, você deu duas gotas de Benzocreol pra Juninho? Ele tá muito amarelo, as caseiras devem tá fazendo festa no bucho do bichin.

— Eu já dei, ele botou tudo pra fora. E eu tentei várias vezes: era dar e ele vomitava. A dotora até falou que Teo tá assim porque intoxicou com o Benzocreol que algum ignorante ensinou dar.

— Eu não acredito que Demétrio teve a coragem de mandar você levar o filho pra uma dotora que dá injeção em cachorro só por causa de umas vermezinhas.

— Não é assim também não, Dona Eufalazia. A Dr.ª é veterinária e tem um curso técnico de enfermagem, todo mundo confia nela. E sempre que o caso é sério, ela mesmo encaminha pro hospital de Conquista.

— É assim mesmo. Depois que tenta curar e intoxica o cidadão, liga pros médicos de Conquista… Quem é que não conhece a história dessa cascavel de quatro ventas? Nem casar consegue! Também, quem é que suporta aquela ignorância? Acorda e vai dormir xingando. Só se for “dotora”… É cada uma!

— Fala baixo, Dona Eufalazia. A Dr.ª tá perto, tá vendo a temperatura de Junior.

— Eu tô falando alto de propósito, eu quero que ela escute que se acontecer alguma coisa coisa com essa criança ela vai logo em seguida pedir desculpas na porta do Céu, depois ela toma o destino dela!

— Cruz credo, Dona Eufalazia. A senhora acha que só de examinar a dotora pode matar um? Isto é pecado, fazer mau juízo de quem vai ajudar. Deus castiga!

— E você acha que Deus vai ficar do lado de quem? De mim ou daquela praga que eu tive o desprazer de ser amiga?.. Até hoje eu me arrependo de ter andado com aquela égua.

— Não fala assim não, Dona Eufalazia. A dotora tem vontade voltar a ser sua amiga.

— Só se for em outra encarnação…

— Mas por que tanto ódio?

— Foi aquela vigarista que me apresentou ao meu marido. Se eu tô casada com aquele traste é por culpa dela. Ô ódio! Aquela magrela um dia ainda me paga, foi ela quem enfeitou o pavão.

— Mas não foi a senhora que se apaixonou por tio Demétrio?

— Apaixonei pela história que essa égua metida a dotora inventou. Desenhou um príncipe pra mim, e eu caí que nem besta. Se arrependimento matasse…

— Ué, Dona Eufalazia, foi a senhora que quis casar.

— Casei enganada. Demétrio era noivo dessa jararaca dotora. De tanto ela falar bem dele, eu acabei apaixonando.

— Mas aí foi a senhora que fez errado, traiu a melhor amiga. Eu vi até o poema que ele fez comparando a dotora com o Jardim das Borboletas, a coisa mais linda!

— Só se for comparado com a parte em que ficavam as onças: fedia tudo.

— A senhora não tem jeito, Dona Eufalazia. Bem que seu filho me falou.

— O que Marculino lhe falou?

— Falou nada não. Só disse que quando a senhora não gosta de uma pessoa, sai debaixo.

— E é assim mesmo, foi essa fulana que me fez casar com esse merda que só pensa em ganhar dinheiro.

— Mas Dona Eufalazia, a senhora é a mulher mais rica da cidade, seu marido faz todas as vontades da senhora. Até uma casa no formato de piano ele mandou construir, sem falar do carrão, que troca todo ano. Enquanto isso, a pobre da dotora já casou mais de dez vezes. Isso sem falar dos namoros e noivados. E o pior é que não sossega, já rodou o mundo todo e não conseguiu um amor sincero como o da senhora e Seu Demétrio. A cidade toda inveja!

— Inveja quem tem sou eu. Só conheço até Salvador. Aquela perua já rodou o mundo umas dez vezes, sem falar do tanto de homem que ela namorou enquanto eu tô aqui com Demétrio parecendo jogo de time ruim, só dá empate. Não sei pra quê tanta riqueza. Se pelo menos Demétrio fosse morredor. Mas na família dele os homens vivem mais de cem anos. E ele não bebe, não fuma nem fode. Vai viver 120. Tô lascada! Enquanto ela namora mundo afora, eu tô aqui receitando Benzocreol pro filho dos outros e vendo a vida passar… É nisso que dar ter o olho grande. Tchau, querida. Vou ter que desligar. Demétrio acabou de chegar… Mais uma noite de tédio. Ô ódio!

            E do outro lado a amiga pensou: “Tem gente que não se contenta com nada”. Mas hoje em dia não existe mais esse tipo de martírio.

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