Rei morto, rei posto

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 06 fev 2016

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Por Nando da Costa Lima

Nando

Roduzino Ferrão era um homem distinto, rico e religioso, só tinha um defeito: além das 5 famílias espalhadas pela cidade, tinha mais umas 15 namoradas que nunca se queixaram de nada. A única mulher que dava trabalho ao garanhão era dona Marinalva Ferrão, a oficial. Diz o povo que Roduzino era respeitado só por ser casado com ela, todo mundo tinha medo daquela jararaca. Além de pesar quase duzentos quilos de músculos, era a mãe da ignorância, adorava uma briga. Mesmo sendo “braba” como era, ela não conseguia evitar o descaramento do marido, ele era um retado, era coisa de cinema. De dez mulheres que ele dava em cima, nove ele levava pra cama, era o rei absoluto das mulheres desamparadas. Só ia em velório de homem e já saía do cemitério de braço dado com a viúva.

Um dia Roduzino viu seu reinado ameaçado, é que chegou na cidade um tal de Florisvaldo Silva, pelo que lhe falaram era um sério concorrente, além de não ser casado era poeta. A mulherada frechou em cima, era Flori pra cá, Flori pra lá, Roduzino já tava pra endoidar de ciúmes, pensou até em mandar o rival pro inferno, só não mandou porque ia dar muito na vista, mas devia ter um outro meio de espantar aquele poeta atravessador, era só pensar com calma. Enquanto Roduzino pensava, Florisvaldo gozava das mordomias, por ser poeta, isto aumentava ainda mais a sua popularidade com a mulherada. Já chegava com um verso pronto.

E assim a inimizade entre eles foi selada sem eles se conhecerem, o próprio povo não convidava os dois pra mesma festa, sabia que podia dar coisa ruim, seria o mesmo que colocar dois reprodutores e uma égua no mesmo curral. O tempo ia passando e a cada dia Roduzino perdia mais espaço, até as namoradas mantidas por ele começaram a fazer cú doce, teve um dia que as 15 estavam com dor de cabeça, só sobrou a esposa oficial, mas pra sua surpresa ela também estava com enxaqueca. Foi aí que ele viu que tava perdido e tinha que dar um jeito na situação, começou a arquitetar mil planos para derrotar o inimigo. O pior é que a maré não tava pra ele, como era de família de gente endoidar de ciúmes, pensou até em mandar o rival pro inferno, só não mandou porque ia dar muito na vista, mas devia ter um outro meio de espantar aquele poeta atravessador, era só pensar com calma. Enquanto Roduzino pensava, Florisvaldo gozava das mordomias, por ser poeta, isto aumentava ainda mais a sua popularidade com a mulherada. Já chegava com um verso pronto.

Bem que Roduzino pensou em vários meios para se livrar do impostor, mas acabou fazendo o que não queria: o jeito era se humilhar e pedir à própria mulher pra dar uma surra em público naquele sacana e depois expulsá-lo dali para sempre. Ficava meio chato, mas era o único meio, pra encarar Florisvaldo na mão só Marinalva, ali era uma mulher macho, já bateu até em soldado. E foi com muito jeito que ele planejou o pedido, comprou uma caixa de chocolate e partiu pra casa, encontrou Marinalva deitada, tava de mau humor, mas quando ele a chamou de Nalva e entregou a caixa de chocolate ela se abriu toda, fez até biquinho. Ele não perdeu tempo, aproveitou o momento de fragilidade feminina da esposa e começou o pedido: “Meu amor, eu queria que você me fizesse um favorzinho”. Ela respondeu que faria até mil favores, então ele largou de uma vez: “Eu queria que você pegasse um tal de Florisvaldo poeta e desse uma surra daquelas que eu tomo quando chego em casa bêbado”. Quando ele acabou de falar, Florisvaldo saiu debaixo da cama pelado e perguntou assim pra Marinalva: “Cê não vai fazer isso comigo não, é Nalvinha???”.

Roduzino não suportou, ser destronado até que dava, mas logo aquele poeta safado era demais, caiu fulminado por um infarto. Quanto a Florisvaldo, esse se deu bem, hoje ele é o galo do terreiro, assumiu a mulherada e hoje mesmo vai pra o concorrido velório de Roduzino Ferrão, que por coincidência morreu no mesmo dia do lançamento de seu livro “Poemas para ler no Céu”.

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