Ristorante Pedaço de Mar

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 10 fev 2018

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Por Nando da Costa Lima

Quando chegaram, pareciam uma tropa… Mas só era o coroné Climério com a família de sua noiva, que a convite dele vieram provar a melhor buchada do Brasil. Tava fazendo aquele agrado ao sogro porque este foi o último a concordar com o casório, achava que Climério não era o homem certo pra sua filha. Os convidados eram tão simples que mal comeram, mas Climério comeu por todos e ainda pediu sobremesa. E foi essa a causa de tudo. Eles estavam no restaurante e dormitório que margeava a Rio Bahia e que era vizinho da fazenda de Climério.
Na saída, ele já sentiu a barriga roncando, e quando foi montar no seu burro de confiança, sentiu uma pontada aguda e deu um peido de responsabilidade, daqueles que melam cueca, calça e sela. O burro chegou a refugar, mas o coitado tava amarrado e teve que se acomodar. Climério voltou de vez, nem chegou a se sentar na sela, voltou no mesmo ritmo e já desceu do burrão esculhambando com o cozinheiro e todo mundo que trabalhava naquela merda de restaurante. A comida tava tão velha que em menos de vinte minutos ele já tava naquele estado, nem o burro tava suportando o cheiro, quase tirou o cabresto! Mas ele como cliente do recém inaugurado cliente do recém inaugurado restaurante “Pedaço do Mar” nem sei porque aquele nome, naquele fim de mundo que só chovia de dois em dois anos, caatingão brabo. Quando ficava marrom o jeito era se picar pra Sompa. Mas foi nesse cenário que o coroné Climério se borrou todo na frente do restaurante, quem tava no local, viu. Foi por isso que o coroné já entrou porta adentro do restaurante com um 38 em cada mão, ia mandar o “miseravi” que fez ele passar aquele vexame pro inferno. Não tava nem aí, ia disparar os dois revólveres na cara do filho da puta que lhe serviu aquela comida estragada. E quem conhecia Climerão sabia que ele não falava pras paredes.

O cozinheiro e o dono do restaurante estavam fudidos, era um revólver pra cada um. A turma do “deixa disso” e os que gostam de botar fogo entraram correndo atrás do coronel cagado e retado, já tava fedendo defunto… Climério atravessou a sala em que ficavam as mesas, chutou umas duas, deu um tiro pra cima e entrou na cozinha babando e perguntando quem era o cozinheiro. Tinha três pessoas, ninguém queria entregar ninguém. Foi aí que o Coroné envermelhou e ficou mais retado. Deu um tiro no pé de um dos três e perguntou aos berros: “Quem foi o corno que serviu aquela comida?”.

Aí foi o jeito o conzinheiro, que também era o dono do restaurante, se entregar: “Fui eu quem preparou a comida, coroné. Mas pelo amor de Deus, me perdoe. Além do mais, a carne que o senhor comeu foi comprada no açougue do senhor. A nota tá até aqui, é de hoje!”. Aí foi o jeito o coroné Climério descarregar as duas armas naquele safado. Além de quase matar um homem de respeito de caganeira, ainda queria desmerecer seu açougue que nos 30 anos de existência nunca recebeu uma queixa.

A cidade toda concordou com o desfecho e nunca mais se falou no assunto. O advogado do coroné nem teve muito trabalho, tava claro que tinha sido legítima defesa.

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