Sistema de saúde pública de Vitória da Conquista – PARTE I

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Publicado por Editor | Colocado em Saúde | Data: 19 nov 2012

Publicado pelo Forum Universitário da UESB

Em matéria de serviço público de saúde Vitória da Conquista é apontada com referência pelo governo do PT que há 16 anos governa a cidade. Mas será que saúde em nossa cidade é tão boa assim? Para por a prova as afirmações do governo não utilizarei dados estatísticos, mas tomarei como base o que presenciei nesta semana.

No dia 04/11 eu recebi uma ligação da minha noiva dizendo que o meu sogro não estava se sentindo bem. Ele estava com a pressão arterial muito elevada e tinha perdido parte dos movimentos do rosto e do lado esquerdo do seu corpo. Pela descrição dela, provavelmente o meu sogro estava tendo um AVC.
A família da minha noiva mora em Poções. É frequente as reclamações da população poçoense no que diz respeito ao único hospital da cidade que atende pelo SUS. Por esse motivo, a família dela queria que o meu sogro viesse imediatamente para Conquista, mas devido à necessidade da urgência no atendimento eu recomendei que eles procurassem primeiro o hospital de Poções.
Meu sogro deu entrada na emergência do Hospital São Lucas em Poções na tarde do mesmo dia. Segundo minha noiva o diagnóstico dado pelo médico de plantão foi de hipertensão arterial e paralisia facial. Esses são sintomas de AVC. Os especialistas recomendam que o paciente com suspeita de AVC seja encaminhado com urgência para a tomografia para que assim sejam diagnosticados os danos sofridos no cérebro, e, a partir daí, dar início ao tratamento. A urgência do diagnóstico no início do tratamento é fundamental para evitar as sequelas causadas pelo AVC.  Mas não foi isso que aconteceu com meu sogro. O médico de plantão no Hospital São Lucas não o encaminhou para uma tomografia. Ele apenas deu uma medicação para controlar a hipertensão e deu alta para o paciente!
Após receber alta do Hospital São Lucas sem ser encaminhado para exames mais precisos e sem nenhuma receita médica indicando medicamentos para o controle da hipertensão, o meu sogro veio para Vitória da Conquista.
Ao chegar a Conquista, levamos o meu sogro ao Hospital São Vicente. Este hospital é um dos mais renomados da cidade, mas que passa em frente mal pode imaginar o apartheid que impera em seu interior. Ao entrarmos no hospital, na parte da frente(que é destinada aos paciente com plano de saúde e/ou dinheiro para pagar pelo atendimento) vemos uma bela fachada, vários laboratórios, portas de vidro temperado e estacionamento privado. Mas isso é na parte da frente, pois nos fundos (próximo ao necrotério) temos a porta de acesso ao atendimento do SUS. Lá as coisas são diferentes, toda a beleza que vemos no exterior é substituída por grades enferrujas, chão sujo e vários pacientes deitados em um banco de madeira gemendo de dor e esperando por atendimento. Nos dirigimos ao balcão e pedimos informações e nos disseram que havia nenhum médico de plantão naquele momento. Procuramos outro hospital.

O segundo hospital que procuramos foi o Hospital UNIMEC. A situação lá não estava muito diferente da dos fundos do Hospital São Vicente. Haviam várias pessoas esperando por atendimento. A diferença é que lá tinham um médico de plantão, mas apesar disso  o hospital não possuía os equipamentos necessários para dar atendimento os meu sogro. O que nos fez procurar o terceiro hospital.

Seguimos para o Hospital Geral de Vitória da Conquista (HGVC), também conhecido como Hospital de Base. Este hospital não é só responsável por atender aos pacientes de Vitória da Conquista, mas pela demanda de várias cidades de região. Chegamos lá no início da noite. Assim como nos outros hospitais, nos deparamos com vários pacientes aguardando para serem atendidos. A recepção estava muito maltratada. Os banheiros estavam imundos, os assentos estavam rasgados e as portas danificadas.

Como a demanda desse hospital é bem maior dos que a dos outros, os pacientes devem passar por uma triagem para ser avaliada a prioridade no atendimento. Meu sogro passou pela triagem e em seguida ele foi encaminhado para o atendimento com o médico plantonista.

Como só é permitido um acompanhante por paciente, eu tive que aguardar do lado de fora, mas passado alguns minutos eu adentrei na parte da emergência onde os pacientes recebiam atendimento. Estava um caos! Os corredores estavam abarrotados de macas com pacientes gemendo e agonizando. Detalhe é que esses pacientes nas macas estavam internados! Isso mesmo, os pacientes internados ficam nos corredores para receberem tratamento! De certa forma isso não foi uma surpresa muito grande, pois há aproximadamente 1 ano atrás eu fui visitar o meu tio avô que estava internado no mesmo hospital e me deparei com a mesma cena. Mas o que eu não sabia era que esses pacientes estavam internados.

Se os pacientes internados ficam em macas nos corredores, onde ficam os que estão recebendo tratamento no pronto-socorro? Ficam todos sentados lado a lado no mesmo assento de madeira! O soro é fica pendurando num clip de papel que é preso a parede com um pedaço de esparadrapo! Quando um novo paciente chega o restante tem que se apertar no banco. Foi nesse banco que o meu sogro foi atendido.

Meu sogro ficou sentado alguns minutos esperando o soro acabar. Só que ele ficou muito mais tempo com o soro vazio esperando o médico reaparecer para ver qual o procedimento que deveria ser tomado após a medicação. Enquanto ele esperava aconteceu o inesperado, faltou energia no hospital! Como é possível faltar energia num hospital responsável por atender toda região sudoeste do estado? E sempre imaginei que hospitais possuíam geradores de energia para essas adversidades.

O que era ruim ficou pior. Como dar atendimento àquela quantidade de pacientes sem energia elétrica no hospital? Se passaram aproximadamente 2 horas e energia não retornou. Nem a energia, nem o médico, muito menos alguém para dar uma explicação ou um posicionamento sobre a fala de energia.

Durante esse tempo no escuro, eu procurei algumas enfermeiras para que a pressão arterial do meu sogro fosse aferida novamente. A resposta que eu tive foi que era impossível aferir a pressão dele no escuro.

Apesar da escuridão, havia várias pessoas circulando por entre as macas nos corredores segurando lanternas e celulares para iluminar o caminho. Eu disse a enfermeira que eu possuía uma lanterna no meu celular e que eu iluminaria o mostrador do tensiômetro. Em tom de extrema arrogância – tom que eu iria ouvir de muitos durante o tempo em que eu passei naquele hospital – ela me disse que não iria fazer isso e que o hospital possuía apenas um tensiômetro que estava numa sala que não possuía luz. Perguntei como era possível um hospital daquele tamanho e responsável por atender a toda região sudoeste só possuir apenas um tensiômetro. Em seguida perguntei o motivo de tanta arrogância. Recebi uma resposta mais arrogante do que a anterior. Segundo ela,  eu a havia tratado ela ignorância (só porque eu achei absurdo um hospital daquele tamanho só ter um tensiômetro). Um segurança do hospital interveio (em favor dela, é claro) e com uma brutalidade absurda me disse que eu estava causando tumulto no hospital. Tudo que eu queria era que o meu sogro recebesse um atendimento decente.

Após esse incidente o médico reapareceu e deu alta para o meu sogro, com a desculpa de que sem energia elétrica não era possível fazer nada por ele. Além disso, o médico nos disse que deveríamos procurar atendimento num hospital particular. Após vários protestos voltamos para casa.

Postado por Forum Universitário Permanente da UESB

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