Solidão

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 18 jul 2014

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Por Nando da Costa Lima

Nando

 

A vida é tão misteriosa que nem dá para entender se a longevidade é um prêmio ou um castigo… Aquela maldita tosse o perseguia como um caçador obstinado, foram anos de tortura. Não era uma tosse comum, era como se fosse um relógio de parede defeituoso que a cada cinco minutos disparava doze badaladas. Ela já nem mais falava… A tosse compulsiva era o único som que ainda produzia, a juventude e o amor de ambos já tinham dado espaço à tolerância mesmo antes dela ficar doente, apenas se suportavam! Já não havia mais segredos, as virtudes e os defeitos foram postos sobre a mesa naqueles quarenta anos de vida em comum, era tudo a mesma coisa… Quando a doença dela veio quebrar a monotonia daquele relacionamento, como toda novidade, até ressuscitou sua cordialidade, mas à medida que o mau se agravava tornando-a cada vez mais inativa e sobrecarregando seus dias, ia se revoltando com a situação, uma revolta comum a todos que passam a vida fazendo planos para o futuro e finalmente descobrem que a penúria é o grande final. E aquela tosse sequenciada sempre levava seu pensamento, não ao que foi, ao que poderia ter sido Eram noites intermináveis, e não foi só uma nem duas vezes que pensou em acabar com aquilo tudo, seria fácil, nada mais fácil que matar uma inválida por asfixia. Seria mais simples que alimentá-la, um simples travesseiro serviria de arma, tentava convencer-se que naquelas condições a morte seria um bem, nem podia ser considerado criminoso, ela há muito já se transformara num vegetal, era só um monte de ossos em cima duma cama… E aquela tosse nojenta…, não…, ali não era ela… não dava pra ligar a mulher elegante do passado àquele corpo que se mijava como um recém-nascido, não… não era ela, e o simples fato de impedir um corpo descerebrado de viver não podia ser considerado um homicídio.

A ideia de aliviá-la e ao mesmo tempo livrar-se daquele peso com um travesseiro não saía de sua cabeça, estudava todos os detalhes. Seu plano era minucioso, mas a falta de coragem para realiza-lo passou a lhe torturar, talvez até mais que aquela maldita tosse. E sua vida passou a ser como um conflito kafkiano onde ele era a vítima com ares de réu, eram noites tão exaustivas que já havia se habituado ao sono leve da madrugada com um adiamento do juiz. Como vítima só chorava… mas eram os planos do réu que mais o machucavam. Nessa condição imaginava-se o mais miserável dos homens, tão ruim que se dispunha a matar o obstáculo que antes fora apoio. E o seu pensamento a cada dia ligava-se mais àquele corpo mutilado pelo tempo, e a agonia da tosse era o fundo “musical” daquela monótona tragédia a dois.

Quando ela apareceu morta, até os vizinhos que nunca os visitavam acharam que foi um descanso. Sabiam que era um casal de velhos que o tempo naturalmente dilapidava a matéria e encurtava o espaço, só ainda não sabiam do vazio que era a solidão a dois comum aos que envelhecem juntos. No rosto da morta notava-se um sorriso que só ele entendia ser de agradecimento… E ninguém suspeitou de nada!

Os seus dias recomeçaram…, no início aliviado em saber que aquela tosse que o escravizou durante anos não iria lhe incomodar, foram dias de descanso, e no seu semblante era até notado um ar de liberdade… Mas logo o silêncio virou rotina e a solidão era tanta que acordava no meio da noite desejando escutar algum som que indicasse vida naquele imenso apartamento, mesmo um barulho de tosse lhe seria agradável… e enlouqueceu ao sentir que o único som que o ligava ao mundo dos vivos fora por ele abafado… Atirou-se do oitavo andar daquele vazio apartamento antes repleto de filhos, netos, tosses e até felicidade!…

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