À margem da história

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 09 dez 2017

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Por Nando da Costa Lima

O povoado todo esperava a chegada do príncipe, era coisa rara um nobre visitar aquelas para­gens no início do século XIX. O vigário já não se aguentava, ia completar seis horas que não tomava uma, estava sóbrio até aquela hora, porque era o único que tinha formação pra receber uma figura tão ilustre. O príncipe atrasou 3 dias, quando chegou encontrou o pa­dre pisando na bainha da batina, tava tão bêbado que o Vossa Majestade demorou cinco minutos pra sair, quan­do saiu foi acompanhado por uma chuveirada de cuspe que lavou o rosto do visitante. “O bafo indicava que o vigário apreciava bebidas fortes”. Em seguida convidou Vossa Alteza para fazer um bacanal com umas índiazinhas que ele criava — A realeza ficou indignada, recu­sou-se energicamente — O padre ficou meio sem graça, fechou a cara. Mas quando o príncipe, pra mostrar que estava irritado, colocou a mão na cintura e começou a bater o pé, o reverendo animou-se e olhando pra bunda do nobre falou com cara de vitorioso — Se o caso de Vossa Alteza é outro não tem problema, eu também tenho um “indião” só pra pagiar europeu em excursão. Aquilo foi o fim para o nobre visitante, nem quis ficar hospedado na casa daquele tarado, ficou tão nervoso que fez uma carta pro governador esculhanbando com o pa­dre, aqueles não eram modos de receber um estudioso. O príncipe era biólogo, um amante da natureza, estava estudando a fauna, a flora e os costumes dos índios do sudoeste baiano. Como a primeira recepção não foi na­da agradável resolveu seguir viagem antes do tempo e acampar mais adiante. Andaram umas 40 léguas. O no­bre queria distância daquele cachaceiro degenerado, o religioso mais depravado que tinha conhecido na vida. …Leia na íntegra

Os coronéis nunca pecavam

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 02 dez 2017

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Por Nando da Costa Lima

Em memória de Geraldo Sol…, um dos sinônimos de paz.

Década de 20, uma época em que os políticos ainda usavam os “coronéis” para manterem-se no poder. Este conto mostra as esposas de dois coronéis conversando amenidades na varanda de um casarão…

– Pois é comadre, eu não tenho o que queixar do meu marido “Coroné” Balbino. Homem bom tá ali! Católico praticante, segue a bíblia à risca! Até aquela parte que diz que quando alguém bater numa face você deve oferecer a outra, ele cumpriu. Aconteceu logo que a gente casou. Só que o sujeito que fez isto com ele até hoje não pode ver um martelo que chora. Balbino usou da Lei de Talião: olho por olho e dente por dente! Três dias depois mandou seus “camaradas” pegar Manelão e aplicar 20 marretadas em cada mão, não ficou um osso inteiro…

– Matou, comadre?

– Não, só deixou as duas mãos inutilizadas pra nunca mais aquele moleque se meter a besta. Êta homem bom, se fosse um ignorante que não conhecesse as Escrituras, tinha matado…

– E eu não sei comadre, quando meu finado “Coroné” Pacheco morreu ele ficou passando lá em casa toda noite, sempre levava alguma coisa pra afilhada, você lembra? Às vezes até pernoitava pra proteger a gente.

– Como é que eu ia me esquecer comadre?! Aqueles fofoqueiros espalharam no povoado que meu Balbino tava querendo namorar com a comadre. Mas cê viu no que deu… …Leia na íntegra

Viva a Vida

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 29 nov 2017

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Por Valdir Barbosa

Dizem que o tempo passa rápido, na verdade ele, o tempo, não caminha rápido nem devagar, sua dinâmica se basta por si mesma, induvidosamente viaja na velocidade certa, perfeita e acabada. A ansiedade do ser humano é quem responde por estas situações que dão a algo tão justo, uma feição destorcida. Seres capazes de meditar, mergulhar nas nuances escondidas no espírito atemporal vivo em cada uma das criaturas, sabem disto.

Ontem decidi voltar no tempo, da forma como faço vez em quando e mergulhei nas praias dos meus primeiros banhos profissionais. Assim também o fiz na direção da realidade onde plantei uma das sementes amorosas, dentre tantas deste meu viver um tanto alucinado e renasci no relicário das memórias.

Netos, filha e genro amorosos cuidaram de fazer, entre pessoas muito caras, um banquete para mim, então, fui recebido como rei, no canto onde são hoje estes descendentes, tudo quanto não seria capaz de entender assim seriam, desde quando as coisas viajam em progressão, tal qual círculos concêntricos. O cenário aparentemente igual revela uma espiral ascendente imponderável, aos que disto não entendem, capaz de continuar na sua evolução irreversível.

E o dia voou, como voam pássaros detentores da capacidade de seguir, sempre acima das nuvens brancas ilustrando o céu. Nos eflúvios das doses de alegria, misturados entre conversas e sons especiais, sob goles de bebidas finas e iguarias supimpas, as horas passaram dentro do seu tempo exato flutuando na esteira da felicidade que não atrasa nem adianta, tal relógio suíço. …Leia na íntegra

Moranga, Magassapo e Mamoneira

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 25 nov 2017

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Por Nando da Costa Lima

– O senhor entendeu errado, seu Miguidônio, eu não quis falar que o senhor era especialista em puteiro, eu só disse que o senhor sabia tudo sobre os puteiros do passado de Vitória da Conquista.

– Mas eu sei porque sou um estudioso do assunto, e eu só cheguei a frequentar o Magassapo e a Mamoneira. A Moranga eu só sei que existiu porque meus tios falavam sempre. Tinha um bar de um sujeito que era conhecido por Javanês. Não sei se ele era da ilha de Java, ou se assumiu a cidadania inspirado no conto de Lima Barreto. Ou até se foi um apelido dado pelos frequentadores da Moranga. Isto fica difícil de precisar porque na região do Planalto é pessoal é muito espirituoso. Às vezes já colocam o apelido pra confundir quem chega… Então, para o senhor não achar que eu fui um frequentador assíduo dos puteiros de Conquista, eu vou lhe contar um caso que aconteceu na Moranga. Como você sabe, é como se fosse uma trilogia: Moranga, Magassapo e Mamoneira. Foi numa época do concurso de Miss Brasil, tava sendo a bola da vez. O Cruzeiro, Manchete, todas as revistas da época só noticiavam esse concurso. Isso sem falar do rádio que ia cobrir o evento e transmitir pra todo canto. Nesse clima, Toni Turco, que era amigo do javanês do bar, resolveu quebrar a monotonia criando um concurso de beleza com as mulheres da Moranga. Teve até urna pra escolher a melhor.

– E quem ganhou esse concurso de beleza, Miguidônio?

– Ninguém! A notícia da tal votação pra escolher a “Puta do Ano” se espalhou pela cidade, as senhoras casadas não gostaram nada… E por isso, no dia do concurso do Turco, numa sexta feira, todas marcaram os maridos corpo a corpo. Não davam uma folga, teve até quem inventou uma viagem só pra tirar o marido daquela afronta contra a sociedade.  “Por que eles não vão fazer essas merdas na terra deles? Junta um turco e um javanês pra desmoralizar o concurso de Miss Brasil e fazer as senhoras da cidade passarem um vexame”. Pois é claro que se não fosse pela interferência delas, os maridos marcariam presença no “evento do ano”, que poderia até virar moda… Naquele tempo o povo era muito “raparigueiro”. Segundo meu tio, já tinha uma novilha cedida pelos fazendeiros, e os comerciantes dariam um radinho “consola corno”. Era pro 1º e 2º lugar do concurso. Mas como eu disse, as donas de casa jogaram um balde de água fria na brincadeira, ninguém pôde comparecer devido a “forças ocultas”…. Só quem ganhou foram as meninas da Moranga. É que a novilha do prêmio foi abatida e distribuída entre as moradoras da Moranga. Quanto ao radinho de pilha, este foi o motivo que abalou a amizade dos dois boêmios: o rádio sumiu! Uns dizem que foi o javanês que pegou pra presentear uma amante, outros falam que Toni perdeu o rádio num jogo… Pra você saber a verdade fica difícil. Até o concurso “Miss Puteiro” tem gente que acha que ocorreu no Magassapo.

– Tá bom, seu Miguidônio, o que o sr. Relatou agora já fica registrado e publicado. Isto se for verdade…

– Ô seu jornalistazinho de bosta, você acha que eu ia sair das “Três Janelas” (o último brega de Conquista) pra vir jogar conversa fora pra macho? Tá se fazendo de besta? Todo mundo de Conquista sabe que Miguidônio Madrinheiro nunca mentiu, só conta história com H…

Os heróis da infância

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 18 nov 2017

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Por Nando da Costa Lima

E há algum tempo atrás, lá na escola Jorge Teixeira, o professor Antônio Moura tava retado com a redação de dois alunos. Aquilo era um pecado, ele pediu pra classe redigir um texto de no mínimo 20 linhas falando quem era o seu herói., ou seja, qual a pessoa que mais influía na sua criação. Foi isso que os alunos não captaram. O professor deveria ter falado que este herói tinha que ser gente. Ainda bem que Leonídio tinha feito uma redação falando que o herói dele era o Super-Homem, quando estava em Conquista, e o Zorro na fazenda. Senão eu ia ficar de castigo sozinho. Sem contar a palmatória, que com certeza seria usada!

A sala toda foi dispensada, só ficou eu e Leonídio. Mas ele tava mais tranquilo, seu pai deu uma vaca leiteira pro professor. Mesmo assim, isso não ia valer muito, Moura tava muito retado. Primeiro deu um sermão de mais de uma hora, falou que a gente devia tomar vergonha na cara, como é que dois jovens vindos de famílias boas não se lembram de falar do pai ou de qualquer outro parente que se destacou como profissional.

– Você, Leonídio, eu até entendo. Você interpretou mal o tema. Quando eu falei “herói” eu não tava falando de super-herói de revista em quadrinhos. Por acaso o Super-Homem já lhe deu algum presente? Já pagou a sua mensalidade escolar? Já fez alguma feira na sua casa? Eu tenho certeza de que ele nunca fez isto para ninguém, e se ele realmente existisse, só ia fazer favor pra americano. Quanto a você, Altamirando, além do castigo você vai ter que escrever mil vezes a frase “Briga de galo foi proibido por Getúlio Vargas”.

Eu ainda tentei argumentar dizendo que tinha visto um criador de galos falar que Getúlio proibiu as rinhas só porque sabia que, dos seus adversários políticos nordestinos, a grande maioria era galista. Uma vez, em Pernambuco, teve uma briga de galo que juntou torcedores de todo o estado. Se eu não me engano, foi no Recife! Aí o professor ficou mais enfezado do que já estava. Pra início de conversa, pegou a palmatória e deu meia dúzia de bolos. E enquanto eu escrevia a bendita frase ditada por ele, eu tomei uma bronca demorada. Isso só porque eu fiz uma redação de 30 linhas elogiando um galo de briga de Seu Vane, que era conhecido por “Rosinha”. Isso quase enfarta o mestre.

Resumindo, o herói de minha infância era um galo de briga! Depois de liberado, eu fui pra casa triste e queixei pra minha, que me deu um cascudo e um beliscão, e perguntou por que eu não falei do meu pai ou do meu avô na redação. Eu não respondi nada. Quando meu pai chegou, falei a mesma coisa. Ele pegou a redação, leu e depois comentou sorrindo: “Tá bom, meu filho. O texto foi bem redigido pra um aluno da sua idade. Não importe com sua mãe, eu nem sei porque ela ficou nervosa, a família dela mexe com briga de galo desde o sec. XIX lá em Pernambuco. Depois que meu pai falou isso, eu caí na real e vi que meu herói estava ali, na minha frente! Professor Moura e minha mãe tinham razão… Mesmo assim, o galo de briga Rosinha ficou sendo o 2º maior herói da minha infância.

O tempo passou e hoje já conheci tantos heróis, gente que só passou aqui pra somar. É claro que tem os “pau de bosta” da vida, mas o brilho dos bons sempre os ofuscou. E também, o jogo da vida, como todo jogo, não tem graça nenhuma sem uma torcida contra. Até os “buda mole” tem que existir! Eles também são parte da engrenagem.

O Cervidae

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 11 nov 2017

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Por Nando da Costa Lima

Seu Nelival tava num dia de poucos amigos. Seu poema, que segundo ele era uma “ode à natureza”, foi desclassificado da final do Festival. Ele só não falou que foi censurado novamente porque, como esta prática foi banida do nosso país, ficava chato afirmar que estava sendo vítima desse crime. Mas nós que estamos de fora temos que analisar olhando não só os poemas, como também devemos ver o lado dos organizadores do evento. Pra ser politicamente correto num país incorreto como o Brasil, é difícil, muito difícil! Esse tipo de argumento também é muito vago. Daí quem cria deve ser o seu próprio censor. Basta ter bom senso! Foi baseado nesse argumento que a organização do Festival de Poesia fez a sua defesa, já que sabendo que Nelival, que além de poeta era militar, ia se achar perseguido.

E foi na Câmara de Vereadores que se deu a discussão! Os prós e os contras lotaram o lugar, o povo só vai lá quando sabe que algum canal de TV está gravando. Mas como o tema era polêmico e havia chamado a atenção do país para o festival (o que já foi bom para os organizadores), tava todo mundo lá. Primeiro falou o advogado do secretário de cultura: “Eu não estou aqui para discutir um problema de censura prévia, isto não aconteceu. O acusador foi desclassificado apenas porque seu poema era bem inferior aos que foram pra final”. …Leia na íntegra

Na casa do calundu

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 04 nov 2017

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Por Nando da Costa Lima

Por ser o nome de uma das músicas de Elomar, ele antes de cantar explicou as diferenças entre calundu e cacoré, falou que eram termos de origem indígena (tupi-guarani). No calundu o cidadão fecha a cara e só abre a boca pra reclamar, resmunga o dia inteiro… Fica de mal com a vida. No cacoré o sujeito fica tão retado que quebra tudo o que vier pela frente. Só para de quebrar as coisas quando não tem mais nada pra destruir. Quebra copo, panela, prato, rádio, e se deixar quebra até gente. Só para de quebrar a casa quando vê que não sobrou mais nada… Aí começa a chorar, fica uns oito dias sem querer ver gente e volta como se não tivesse acontecido nada. Só não concordo com o poeta quando falou que “o calundu vem primeiro, é a fase da ‘enfezação’ ”, e que só depois viria o cacoré pra agravar a situação. E não é exatamente assim.

O cacoré não tem hora pra chegar, pode vir antes, durante ou depois do calundu. E é difícil de se contornar, deveria até ser estudado pela psiquiatria, mas isso deve ter outro nome para os psiquiatras. Acho que todo medicamento tarja preta é remédio pra cacoré ou calundu… Em todo canto se encontra os “calunduzentos” e os “cacorezentos”.

Vou contar um milagre sem revelar o santo, tem que mudar o nome do protagonista, apesar do tempo. Manéu Pedreiro morava no centro e sofria de calundu crônico (tem calundu curável), duas ou três vezes no ano ele tinha uma crise grave. Logo em seguida, atacava o cacoré (tem tratamento, mas não tem cura). Se o seu calundu já era famoso, o cacoré era bem mais. Cacoré é mais sonoro, mais explícito. E Manéu Pedreiro ficava uma pilha de nervos, talvez por isso muito morador de Conquista da época citada ache que o calundu anteceda o cacoré. Todo mundo sabia que quando Manéu “atacava o calundu” tinha que se mudar pra outra casa, numa rua próxima. Lá em um mês ele se retava e quebrava tudo que tinha pra quebrar. Foi ele mesmo quem teve a ideia de montar essa segunda casa, ideia acatada imediatamente por toda a família, até o “loro”! O lugar ficou conhecido como “Casa do Calundu de Manéu Pedreiro”. Quando ele se curava, geralmente não tinha mais nada pra se quebrar, só de rádio tinha uma montanha no quintal, todos cortados ao meio com golpes de machado. Ele sempre implicava com o rádio na hora que seu programa favorito ia passar: “A Hora do Brasil”. O sujeito tinha que ser forte pra partir um rádio no machado.

Passada a crise, a família limpava tudo e ele próprio comprava tudo de novo, da xícara ao rádio. Já ficava tudo pronto esperando a próxima crise de calundu de Manéu Pedreiro, e uma Conquista ainda muito pequena assimilava isto com naturalidade.

Parabéns, Conquista! Novembro é o seu mês. Eu acho que se você fosse gente, seria uma senhora risonha e simpática que adora adotar filhos. Parabéns pelos 177 anos.

Saudades e saudades (Homenagem a Paulinho Baiano)

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 28 out 2017

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Por Valdir Barbosa

Fiquei de encontrar meu caríssimo Leo, amizade que herdei do pai, Leônidas Cardoso, quando deputado, líder do governo, responsável por me fazer designado Delegado Regional de Polícia, nesta querida Vitória da Conquista, isto na década de oitenta.

Pus-me então de pé, na manhã de ontem, no canto onde me abrigo, a pousada instalada no alto da serra do Periperi envolvida de um lado pela Br 116 e por outro, pelo Cristo que abraça a cidade aos seus pés. Após o repasto matinal segui andando em destino a Diamantina, revenda de veículos onde o moço é executivo.
Beirava dez horas quando parti, sob sol forte que esquentou a cidade durante todo o dia findo tendo decidido, da forma como faço nas oportunidades em que empreendo caminhadas com maior grau de dificuldade, dividir mentalmente o percurso em quadrantes que vão sendo paulatinamente alcançados, de forma por fazer parecer mais leve o sacrifício de atingir a meta pretendida.

Mal sabia que estava prestes a viajar num roteiro, capaz de me fazer entender que existem tipos diferentes de saudade. Saindo em passos largos, logo após iniciar a descida, ainda na área do hotel defini como primeiro destino, a praça onde existe pequeno mercado de flores, ponto de táxi, encruzilhada que leva transeuntes aos quatro cantos da cidade e ali cheguei. Continuei varando a Laudiceia Gusmão já pensando no próximo alvo e continuei ligeiro.

Adiante, cruzei a Regis Pacheco, sob o viaduto cognominado pelo povo, Bigode de Pedral, assim, minutos depois vislumbrei o segundo objetivo, justo a confluência que esbarra na capela do São Vicente. Porém, apesar de haver velado na ermida, muitos amigos que já se foram, todos inesquecíveis, o pensamento pulou para o lado oposto da rua e me vi diante do corpo inerte de Chico Viola, na manhã que cheguei para seu velório. Senti uma saudade sem dor, ouvi os acordes do violão preso ao seu peito, nas tertúlias tantas às quais nos entregamos e meus passos se deixaram embalar pelos boleros tão bem cantados por ele. …Leia na íntegra

Nem dá mais pra fugir pro Guigó

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 28 out 2017

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Por Nando da Costa Lima

Primeiro eles eram vistos com bons olhos até por Getúlio, depois o presidente deu de banda (forçado pelos EUA) e deixou os Camisas Verdes em maus lençóis. Mas era rara a família que não tinha um membro dos integralistas. Apesar de ter muita gente contra, tinha também a torcida a favor: pai, mãe, irmãos, namorada, etc. É claro que não tinham o mesmo status dos militares de carreira, mas não deixavam de ter seus tietes. Era um movimento fascista e tinha uma saudação muito pomposa: o cidadão esticava o braço e largava “Saudações integralistas”. O Anauê parece que surgiu na clandestinamente (só perguntando pra Dr. Ruy Medeiros). Num mundo ainda desconectado, as notícias andavam a passo de mula. Aqui em Conquista, quando se falava em fugir, o pessoal já sabia: “Vou pra bem longe daqui, vou pra lá do Guigó (José Gonçalves)”. Hoje não se pode mais partir pra lá do Guigó, as distâncias diminuíram e o Guigó é logo ali. Mas já foi o esconderijo de todo mundo que queria sumir por uns tempos, principalmente os integralistas (acho que até o Golpe de 64, ainda dava para se esconder por aquelas bandas).

Seu Venâncio, no alto dos seus 96 anos, completamente lúcido e bem falante, chegou na cidade a convite do prefeito para a comemoração do centenário de Seu Abreu Contão, mais conhecido por “Anauê”, que por sinal era avô do dito prefeito. Seu Venâncio estranhou, ele vivenciou a história. Abreuzin Anauê era pouco tempo mais velho que ele, mas ele lembrava de tudo como se fosse hoje. Só não tava entendendo porque a festa prum ordinário daquela qualidade. Dona Janoca, secretária de cultura, explicou pra Seu Venâncio que toda cidade tem um herói, e o herói dali era Abreu Contão, que morreu com uma rajada de balas empunhando a bandeira brasileira. Quando a secretária acabou de narrar o fato histórico, Seu Venâncio (pálido de raiva) retrucou:

– Vocês me fizeram sair da minha rocinha pra vir participar duma mentirada dessas, senta aí dona secretária, pelo menos a senhora tem que escutar a verdade.

E começou a narrar o caso do jeito que realmente aconteceu: …Leia na íntegra

Os atores

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 21 out 2017

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Por Nando da Costa Lima

Todo ser humano tem um pouco de ator. Todos nós, em determinados momentos da vida, temos que representar… Independente de profissão e credo. Advogados, médicos, peões, cientistas, todos usam um pouco da dramaturgia para desempenhar melhor o seu papel. Mas quero falar dos atores de verdade, os profissionais, os apaixonados por teatro, cinema, televisão, circo. Eles são incríveis, mesmo quando ainda não famosos. Acho que de tanto emprestarem o corpo a personagens distintos, eles se tornam pessoas mais compreensivas, mais liberais. E é lógico que, por ofício, são necessariamente cultos (ou nem sempre). O ator dá tudo de si para agradar seu público, é claro que quando são elogiados ou ovacionados, parece que transcendem. Tenho para mim que eles usam os aplausos e elogios como um alimento pra alma… Por isso eu os acho diferentes. O ator também tem aquele lado “médium”, é quando ele incorpora um personagem! E não importa que seja anônimo, quando ele assume pra sociedade que é ator, automaticamente passa a ser ator, mesmo que a maioria das pessoas acrescente um “pequeno” termo pejorativo: “Aquele ator doido…”, ou “Aquele doido metido a ator”. …Leia na íntegra

A boca do povo

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 14 out 2017

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Por Nando da Costa Lima

Foi mesmo! Noé de Denga falou que viu tudo, o coração parou de vez na hora que a última urna foi dada por encerrada e ele não teve nem uma dúzia de votos. Nem falou nada antes de entregar a alma a Deus, só deu um peido e caiu de frente no tapetão do cinema. Foi tão de repente que não deu nem pra apostar em que dia ele ia morrer, como era de costume! Um dia triste, mas Lourival da farmácia falou que o “dotô” disse que se tivesse recebido a notícia de que tinha sido eleito, morreria do mesmo jeito, só que uma vez de tristeza e outra de alegria. Isso eu não posso afirmar, é tudo história desse povo conversador que não gosta de ser citado, antes de contar um fuxico faz questão de frisar: “Não está aqui quem contou”. Mas o fato é que Dr. Arnel bateu as botas ainda novo. Mesmo naquela época, pra um homem “rico”, ele viveu pouco. Morreu com 47 anos, seria como se perdêssemos uma pessoa de 60 e poucos hoje… A vida tá ficando mais bonita, de tão linda se alongou, estamos vivendo mais. Mas para um homem dos anos 1940, quarenta e poucos anos era ser jovem, mas não tão jovem. Um senhor!

Morreu casado, sem filhos, e deixou uma viúva nova e mais jovem do que ele pra gastar a fortuna dos Silva sem ninguém pra se intrometer. O que mais marcou foram os comentários preconceituosos daquela época, os amigos contaram várias versões sobre a morte de um homem rico. Ele falava pouco, não sabiam como foi se “encafifar” com política. Os dois se completavam e ela era 20 anos mais nova, o que pra época também era comum (só para os homens). Mas o fato é que o povo, mesmo não participando em nada da vida do casal apaixonado, comentava sobre eles como se fossem íntimos. E com o comentário do médico, o povo todo começou a supor (inventar) casos que levassem um homem a cair duro no meio da rua. Era como se pra morrer do coração tinha que ter alguma contrariedade. O vizinho do lado direito disse que foi “dor de corno”, já outro disse que foi excesso de sexo, dona Lurdinha era muito fogosa! E depois do boca a boca, a viúva sentiu no velório que ninguém daquela cidade ia entender que seu marido deve ter morrido de alegria, ela nem ia tentar explicar praquele bando de conversador que ficou sabendo que ela estava grávida no mesmo dia que o marido morreu.  O homem fez questão que o pré-natal fosse realizado na capital. Aquele povo poderia acreditar em tudo, menos que ela estava grávida do finado. Ela tinha dinheiro pra se mandar daquele lugar e ter seu filho em qualquer parte do mundo, mas não, preferiu se entregar à religião e criar o menino ali mesmo. Não importava o que o povo inventasse, nada iria interferir na criação de seu filho.

Dona Lurdinha passava mais tempo na igreja do que em casa, foi o jeito que encontrou pra repor a falta do marido. Mas as frequentes visitas ao padre eram pra arranjar uma forma de anunciar pra paróquia que quando o finado partiu ela já estava grávida, senão ela, viúva com a barriga crescendo, seria assunto para mil histórias, e todo mundo querendo saber quem é o pai. E ficou decidido que no final da missa de domingo o padre daria a notícia. E foi com muito jeito que o vigário começou falando que tinha perdido um grande amigo, Dr. Arnel, mas que para sua grande alegrai, ficou sabendo que a viúva estava grávida de três meses e blá blá blá…

No outro dia, no bar do sargento, a aposta já era outra: em que mês nasceria o filho do padre???

A Cruz e a Espada

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 07 out 2017

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Por Nando da Costa Lima

Na primeira metade do século passado (pelo que eu leio e escuto) os homens eram mais espirituosos, devia ser a maneira de passar o tempo, sem a tecnologia de hoje…

A catedral tava um brinco, as senhoras da cidade fizeram questão de caprichar. Todo ano um grupo de festeiras ficava responsável pela limpeza e decoração da igreja matriz nos festejos de sua santa padroeira. Tinha uma missa na saída da procissão e outra na chegada. Aconteceu que na véspera do dia da padroeira da cidade, um burro de carroça morreu ao lado da catedral. Aquilo causou um incômodo geral, o animal logo começaria a entrar em decomposição e isso causaria grandes transtornos. Se fosse um animal menor, o próprio padre teria resolvido com a ajuda de alguns fiéis. Mas era um burro enorme, ali só um caminhão da prefeitura pra dar um jeito, era só jogar o animal na carroceria e dispensar em algum lugar. Nesses tempos a gente ainda usava o termo “vou jogar no mato”. Tudo que tinha pra ser descartado, em vez de ir pro lixo, ia pro mato. E esse seria o fim do bicho, jogariam o burro no mato e os urubus se encarregariam do resto.

Quando o padre ficou sabendo que o burro já estava fedendo, mandou logo o sacristão ir ao encontro do prefeito, que apesar de ser seu adversário político, era o único que poderia dar uma solução para o problema (O sargento iria se sentir ofendido se o padre lhe pedisse auxílio, um revolucionário prendedor de integralista não ia enterrar burro para padre). A festa da padroeira era motivo de orgulho para toda a cidade, principalmente para o prefeito. Só que ele, famoso pelo senso de humor, recebeu o sacristão, ouviu o recado do padre e enviou um bilhete como resposta, sem perder a piada. O padre quase morre de raiva ao abrir o bilhete: “Caro reverendo, é dever dos religiosos dar assistência aos mortos”. Mas pra não sair perdendo, o padre, que também era muito espirituoso, escreveu uma tréplica ao prefeito que tentou desmoralizá-lo, e mandou ele dar assistência a um animal pagão: “Prezado Sr. Prefeito, quando eu pedi pro senhor mandar pegar o burro que morreu aqui do lado da Catedral, o senhor respondeu que era eu, como religioso, quem deveria encomendar o corpo do defunto (o burro). Por isso estou respondendo que nós, sacristãos, antes de fazermos qualquer procedimento com o corpo, temos de avisar à família do morto”.

E na festa da padroeira, só se falava na rusga do padre com o prefeito.

Fecham-se as cortinas

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Publicado por Editor | Colocado em Cultura, Vit. da Conquista | Data: 01 out 2017

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Por Alberto David

Passeava pelas manhãs ensolaradas desta cidade pelos idos de l985. Fazia o trajeto que dava de frente com o Centro de Cultura. Lá estava ele, um gigante em concreto e cimento armado, dando a impressão de uma grandiosa escultura pós-moderna,pensava: “Um Centro de Cultura para Vitória da Conquista!”

Em 5 de junho de l986 era dado como inaugurado o nosso Centro de Cultura. A Casa era novidade em Conquista e levava o nome do poeta maior de nossa terra, Camillo de Jesus Lima, numa homenagem justa. Ocuparia o meu espaço, seria uma boa oportunidade para colaborar com a cultura da terra .

O Centro de Cultura veio para ser um divisor águas na cultura conquistense. Muitos são os movimentos em nossa terra que sempre têm lutado para manter vivo em setor, uma vez que um povo não se preocupa  com esse aspecto, o que contribui para a perda de sua própria  identidade.

Trabalhei ali e,  por ser um  artista, já conhecido e querido do público,  sofri muito com a inveja de algumas pessoas,o que representou  um momento cruciante em minha vida,   sem dizer das decepções com os próprios colegas, com raríssima exceção .  Mas estou consciente do dever cumprido. É o que vale. Sem receber nenhum soldos significativo que valesse pelo meu esforço, sem dúvida nenhuma,  o Centro de Cultura não tem culpa, pois é  apenas uma construção de ferro,  cimento e aço;  a culpa é de certos administradores que falham na conduta , na falta de projetos  e também pecam na ética, no que diz respeito ao  tratamento  hierárquico. Acredito que o respeito tem que ser mútuo, mas, na maioria dos casos , sempre a presunção e a arrogância estavam à frente . E isso dificulta a harmonia para uma administração digna. Eles têm que dizer por que estão ali.

Dentre os vários projetos que o Centro de Cultura proporcionou vale destacar  “Artes para a Comunidade” , uma promoção  interessantíssima,  com  cursos gratuitos,  como desenho,  pintura,  capoeira e  teatro; o projeto “ Salões Regionais de Artes Plásticas”,  sob os auspícios da Fundação Cultural da Bahia. A partir desses movimentos, houve um despertar,uma efervescência de talentos surgindo.

A construção destes Centros Culturais tem como objetivo abrir os espaços para novos talentos da cidade e região, mas  como não havia Centro de Convenção,  todo evento de interesse público poderia ser realizado lá. Mas o foco principal eram os espetáculos teatrais, como o daCia Baiana de Patifaria( com sua peça “A bofetada”)  e shows de cantores famosos que vinham abrilhantar mais a cidade e trazer o  entretenimento  para a comunidade tão penosa de lazer.

Apagaram as luzes !

As portas fechadas durante  este  tempo,quase cinco anos , trouxe um prejuízo enorme  em particular para os artistas da terra  e região . E,obviamente,para a comunidade de .Vitória da Conquista,conhecida como  “Cidade do Frio“; “Cidade das Rosas“, “O Planalto da Cor“ ;  agora ficou com a pecha:  ” Cidade sem Centro de Cultura ” .

Não é possível continuar fechado tanto tempo. É uma enrola sem tamanho, um tempo que daria para construir  um outro espaço. Não há desculpas, enquanto são inaugurados  outros empreendimentos vultosos,  a Cultura espera humilhada e constrangida.Tudo ao nosso redor é arte. Já pensaram o mundo sem arte?  Recorro, agora, ao célebre compositor Beethoven,  quando declarou : “o artista nasceu para sofrer e dar alegria aos outros”.

Fica parecendo que O Centro de Cultura não dá votos

A Cultura  é um marco para  qualquer cidade  a exemplo da Grécia referência mundial   da  Cultura .

Fidelão ganhou a luta

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 30 set 2017

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Por Nando da Costa Lima

Eram dois dos maiores lutadores do Nordeste, já tinham lutado pelo Brasil todo. Era ter qualquer inauguração de loja, aniversário de cidade, circo… qualquer desses eventos estavam lá Fidelão e Leão do Norte. Ambos fortíssimos e já vinham se enfrentando há tanto tempo que eu acho até que ficaram amigos. Mas é como eu tava falando, se “rolasse um troco” os dois lutadores se encaravam até em batizado. Conquista era bem menor, o ponto mais movimentado da cidade era o Jardim das Borboletas no domingo à tarde. A meninada se lavava, brincava, namorava e brigava… O pior é que quando chegava com um olho roxo em casa ainda tomava um “côro” por ter apanhado na rua. Era a regra, todo mundo admitia!

Mas foi numa Conquista dessa época que um partido resolveu lançar um jovem candidato pra disputar uma vaga de vereador. E nesse tempo ninguém melhor que Pedro Alexandre pra representar a juventude conquistense. Nesse tempo, Dom & Ravel ainda faziam sucesso cantando: “Eu te amo meu Brasil…”. Era uma bestagem só. Mas Pedro resolveu levar a campanha a sério, começou a ler sobre política, participava mais das conversas com a comunidade, mesmo sendo jovem. E como todo jovem, ele chegou pra inovar, ia botar uma porção de ideias futuristas na cabeça daquela velharia. Já tinha gente pagando 3 pra 1 com ele se elegendo. Pedro se empenhava cada vez mais em consertar o Jeep que lhe deram pra fazer campanha e convencer o eleitorado que ele era o homem certo para ocupar um das cadeiras tão cobiçadas. …Leia na íntegra

Dezoito anos depois

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Publicado por Editor | Colocado em Bahia, Vit. da Conquista | Data: 29 set 2017

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Por Valdir Gomes Barbosa

Os meninos mais gulosos ainda lambiam os dedos sentados ao chão, frente aos pratos, onde foi servido caruru oferecido aos Ibejis. Refrigerantes findavam nos copos de plástico e os caramelos, responsáveis por arrematar o repasto aqueciam a algazarra própria da efeméride onde os Santos Meninos – São Cosme e São Damião – são reverenciados todos os anos, quando ela seguiu para cumprir seu grande desiderato e o maior dos privilégios, dádiva apenas concedida às mulheres. Ser mãe.

Atendida pela obstetra e enfermeiras responsáveis pelo parto, na mesma casa de saúde palco de sua vida laboral, por alguns anos, tudo fazia crer que o trabalho seria rápido, assim, o filho ansiado viria no 27 de setembro, mas, não haveria que ser. Apenas muitas horas depois do dia seguinte, finalmente, João, o Gabriel de Roberta inspirou pela primeira vez uma lufada de oxigênio serrano marcando sua presença nestes tempos da contemporaneidade.

Acostumada constantemente a luta, ao sacrifício, ao enfrentamento das dificuldades com a audácia retirada das entranhas d’alma, não desistiu um só instante e superou todas as dores. A guerreira que veio de longe preparada para ir além, no momento que foi preciso fazer força para sentir rasgar suas penetras físicas e dar vida ao sentido da sua própria vida não capitulou. Desta forma continua e continuará agindo, até quando vida tiver. …Leia na íntegra

Verdades secretas

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 24 set 2017

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Por Alberto David

Já faz algum tempo que fatos incríveis e misteriosos ocorrem lá pelas bandas da fazenda Jaqueira,  linda propriedade rural, que um dia foi de Seu Emilio, meu pai, que transformamos num lugar, paradisíaco. Vivemos ali, eu e minha esposa, um amor cigano de tirar o fôlego.  Mesmo tendo de voltar a Vitória da Conquista, nunca abandonei meus amigos dali, ou melhor, agregados,  lavradores e vaqueiros,  também os animais como  cavalos, éguas  cachorros e gatos. Aproveitava os janeiros  e levava minhas ferramentas (tintas, pincéis e telas) para pintar. Certa vez, retratei as coisas principais dali e fiz uma mostra em Salvador; exposição bastante concorrida, com cinco emissoras de TV cobrindo o trabalho.

Mas o assunto aqui é outro. São casos  secretos, verdades secretas,  que se sucederam comigo, enquanto estive por lá e só agora vem à tona.

Perto  desta paisagem paradisíaca,  costumávamos ir até a Caatiba, cidadezinha mais próxima, dava uma légua montado,   para cair nos braços de uma lourinha gelada,  como era o meu caso, ou melhor dizendo,  o nosso caso,  eu e minha musa  .No sábado, então, dia de feira, era uma festa . Tomávamos  todas  e quase, ao anoitecer, voltávamos para a casa. Lá vivíamos as intimidades,  mas…poupem-me dos detalhes!

Na Fazenda,  a inspiração era latente,  muito fácil, dada a beleza natural da fazenda,  em especial as águas do rio Catolé que, quando chovia, passava por cima da ponte. Hoje  é quase um riacho,  tamanho o retiro das águas, sem fiscalização do IBAMA. …Leia na íntegra

Mentira

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 23 set 2017

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Por Nando da Costa Lima

A mentira, natural a todos nós, nem sempre é prejudicial. Às vezes é até necessária, pois além de nos tirar do sufoco, serve para muitos como uma forma de desabafo. Todos sabem que os pescadores e os caçadores são experts em mentiras e, como todo mundo tem um pouco dos dois, não nos resta dúvidas de que o mundo é um paraíso de mentirosos (no bom sentido).

E para não fugir à regra, vou começar com uma mentira de caçador: Seu Tiroalbo, caçador dos antigos, estava comemorando seu 80º aniversário, e não podia faltar um “causo” de onça dos seus tempos de juventude para entreter os convidados. O pessoal fez uma roda em torno do velho, e ele começou a narrar uma estória quilométrica, daquelas que o caçador começa a perseguir a onça no Amazonas e termina no Rio Grande do Sul. Anda tanto que quem está escutando dorme. Mas vamos ao que interessa: Seu Tirobaldo, depois de muita labuta, dois dias e duas noites, conseguiu acuar a “bichona” de quase dois metros. Pegou a espingarda e mirou bem na testa da onça, e na hora em que ele ia puxando o gatilho o caso foi interrompido, pois havia chegado mais um convidado para lhe dar os parabéns. Depois do tradicional abraço, ele acomodou a visita na roda e perguntou aos espectadores: “Onde eu parei o caso? ”. Alguém respondeu: “O senhor já ia puxar o gatilho”. Ele agradeceu e continuou: “Aí então eu apertei o dedo, e foi pena pra todo lado”. Um dos convidados, desses chatos que não deixam passar nada, perguntou: “Mas seu Tiroalbo, o senhor estava caçando era onça, de onde surgiram essas penas? ”. O velho, mantendo a pose de caçador, respondeu sem gaguejar para não ficar como mentiroso: “As penas, meu filho, foi na hora que eu atirei, um índio atravessou na frente”. …Leia na íntegra

Para não passar em branco

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Publicado por Editor | Colocado em Cultura, Vit. da Conquista | Data: 17 set 2017

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Por Alberto David

O  assunto que me importa e que me traz  indignação, chegando à insônia,  tem como começo  as programações  de nossos canais de TV, que  estão mais para a nossa música popular brasileira , não há mais nada para  ouvir,  com raríssimas exceções,  são melodias   ou verdadeiros melodramas  cujo  mote  é  encher a cara,  enfim as letras são chavões. Se prestarmos atenção,  todas têm as mesmas intenções,  mas  de duplo sentido , acompanhados com o remelexos dos glúteos. Com toda sinceridade, a programação em geral  está abaixo da mediocridade, os humorísticos nem se fala, que saudades do Mazzaropi , de um Cantiflas ou Charles  Chaplin, que nos fazia rir, com  tamanha naturalidade, utilizando-se  do seu improviso e talento. Aqueles programas que falam de natureza, de entretenimento, de caridade , caridade conveniente, novelas incríveis em que se bate na tecla o tempo todo , algumas de alto valor de compreensão e cultura  sobre os gostos.  Só que  há abusos e, parece o contrário , ou seja,  que estamos errados,  deveríamos ter outras opções,  são argumentos que, convenhamos, com todo o respeito , os abusos .Se não querem que outros entrem em  suas vidas não tem também direitos de querer camisa de força , que mudemos   o gosto, o que manda é o Evangelho e a natureza.

Mas tem melhorado, temos visto um canal que tem mudado e nos traz conhecimento. Fiquei  pasmo com minissérie  “Sob pressão”. Que  atuação brilhante destes artistas ,  e o protagonista  merecia um Oscar , um tema sui-generis que   abrange a grande ferida aberta do nosso País,  mostrando que  a missão  deles é  salvar vidas. Eles sim tem um pouco de Deus  e  a ciência médica,  na hora do socorro vale tudo, os instrumentos é a improvisação do momento , o que vale ali é salvar a vida . …Leia na íntegra

Gordini

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 16 set 2017

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Por Nando da Costa Lima

E a roda foi formada no jardim da praça central, era ali que Teodoro, o solteirão, contava suas aventuras e matava o povo de inveja. Ele tava falando da vez que foi num cruzeiro na costa brasileira e pelo que ele contou, comeu o navio quase todo, até a mulher do capitão! Começou pegando as arrumadeiras, depois as noivas que estavam em lua de mel (17, segundo suas contas), duas viúvas e nove divorciadas. Pra um cruzeiro de dez dias, ele caprichou.

Um dia, Teodoro “das Cavada”, no meio de uma farra, anunciou que tava pensando seriamente em se casar. A mulherada da região ficou toda assanhada, teve até gente que terminou noivado e namoro. Todas sonhavam entrar na igreja e se tornar esposa do maior bom partido daquelas bandas da caatinga, o homem tinha até uma ruralzona Willys e já tinha um Gordini novinho na garagem pra presentear a noiva, é mole?! Teo não era o que se podia chamar de homem bonito, mas dava pro gasto. Era baixinho, branquelo, mas sabia fazer dinheiro. Era comerciante, criava bode e tirava leite de umas vaquinhas. Era o homem rico das redondezas. E é claro que pra casar teve que fazer umas compras na capital, inclusive uma dentadura com novinha e tudo.

Tinha o povo do contra, os invejosos que falavam que Teodoro não era homem para casamento, pois, além de beber muito, só andava acompanhado de macho. Parece que nunca tinha namorado sério. Quanto a ir pra cama com alguém, nisso ninguém se metia, era um problema particular que nem as putas comentavam. Mas ele era gente boa, até o puteiro funcionava em uma de suas residências e não pagava aluguel nem nada. Sendo assim, mulher nenhuma ia cair na besteira de comentar o desempenho dele na cama. Quando falavam, era pra elogiar. Tonhão, que administrava o puteiro, tava sempre elogiando o caráter e a humildade do amigo de vários anos. Só que Tonhão era noivo da moça mais cobiçada do trecho, e até ela se entusiasmou com a notícia de que Teodoro estava querendo casar. Já pensou, o homem além de ter tudo, ainda ia dar um Gordini “novim”. Marycler tava pensativa, aquele negócio de ser noiva de dono de puteiro nem pegava bem pra ela… Tonhão foi quem primeiro notou que a noiva tava querendo dar de banda. E agora? Quando Marycler falou que tava pensando em “dar um tempo”, ele quase saiu do sério. O que o dinheiro não faz? Mesmo assim, tentou se conter e argumentou.

– Por que isso, minha linda? Nós sempre nos demos tão bem, até as alianças eu já encomendei.

Marycler estava irredutível, sempre quis ter um carro.

– Mas isso não quer dizer nada, nós ainda nem marcamos a data do casamento, da muito bem pra dar um tempo.

Tonhão, quando viu que a noiva não ia mudar de opinião, resolveu contar a verdade sobre Teodoro das Cavadas, só assim pra resolver aquele impasse. Não queria perder nem a noiva e nem a amizade, mas pelo visto ia ter que sair perdendo alguma coisa…

Marycler quase morre de raiva quando soube da verdade, se descabelou de ódio. Aquele sacana tava iludindo as moças da cidade só porque tinha dinheiro. Adeus Gordini, sem falar o tempo que ela perdeu com o mala do noivo…

Pra resumir a história, porque se eu for falar muito sobre o caso dos dois vão me chamar de homofóbico. Tonhão foi quem ganhou o Gordini!

E o bloco dos “caçadô” nunca mais saiu…

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 02 set 2017

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Por Nando da Costa Lima

Bejalviro estava comemorando os seus 75 anos junto aos parentes no seu sítio no interior de “Sompaulo”. Tinha sobrinhos, irmãos e afilhados, só não filhos e netos. É que o anfitrião, apesar de já ter sido casado, havia separado. Marinalva aprontou tudo que podia com ele, tanto que até Bejavalviro, que era meio passado, acabou descobrindo. E nesse dia ele resolveu contar porque nunca mais tinha pensado em casamento, e olha que tava se sentindo vingado, de alma lavada. É que tinha recebido uma carta da ex-mulher dando os parabéns pelos 75 anos e implorando para acabarem esta caminhada juntos: “O tempo apaga tudo…”. Mas, para Bejalviro, o tempo não apagou nada, e ele fez questão de responder a carta à altura. Antes de enviar, como vingança, leu a missiva para todos os presentes na comemoração do seu aniversário. Teve até fundo musical… Ele fez questão de caprichar, pois tinha muito parente da ex-mulher na festança, e a maioria dos convidados conhecia a história. Quem entregou a carta de Marinalva para Bejalviro foi seu ex-cunhado, a quem ele não via a muito tempo. Mas Beja nunca esqueceu de ele contar um caso e em vez de falar seu nome, falou “o corno do meu cunhado”. Bejalviro ia chegando na hora… Isso fazia parte do rancor do velho pelo “amô” do passado.

E começou a ler a carta resposta: “Pois é, Marinalva, lá se vão anos e anos, esse tempo deu pra eu botar a cabeça no lugar, saí daí traumatizado com a experiência que tive com você. Foi duro suportar tanta humilhação, mas graças a São Jorge eu sacudi a poeira e consegui me reerguer em Sompaulo. Mas até tirar você da cabeça eu engoli muita cachaça, nem sei como não morri de pinga. A primeira coisa que fiz pra começar a me ajustar foi parar de beber e nem pensar em casamento, você me maltratou demais. Eu acho que até hoje tem gente que lembra da sua safadeza, em plena lua de mel você conseguiu me trair com todos os integrantes do bloco dos ‘caçadô’, aquilo foi um absurdo, e gerou o primeiro dos muitos apelidos que ganhei por sua causa: ‘Corno Caçadô’. Foi o caso mais grave de cornitude que ocorreu por aí, se fosse pra matar os ‘Ricardão’ eu teria que comprar uma metralhadora e um caminhão de bala. Mas é isso, em tudo o tempo dá um jeito. Hoje eu tô aqui, tranquilo, em paz comigo mesmo, e na hora que abri uma cervejinha pra prosear com um vizinho, chega uma carta sua… É que apesar das suas safadezas, eu nunca deixei de pensar em você. Noêmia de Noca me deu logo uma bronca, perguntou se eu tava pensando em virar corno depois de velho, porque segundo ela, você me deu o título de ‘rei dos cornos’. Eu até dei risada, mas no fundo ela tem razão… Você só não foi com meu avô porque na época não tinha viagra. Quando a mulher é muito fogosa, o povo fala que é porque tem ‘fogo no rabo’. Você então devia ter um crematório. Teve gente que me contou que você passou a lixa até em Cafezinho, e tia Dulce me garantiu que você chegou a engravidar de Mania, além de ter passado três dias no mato com Vitório Cocão. Resumindo, nem os doidos você deixou escapar. Tem anos que saí daí pra não morrer de vergonha. Agora eu queria saber onde é que você tá com a cabeça pra imaginar que eu poderia cair na sua conversa de que eu fui seu único amor, e de repente voltar logo agora com 75 anos nas costas. Cê tá achando que corno com o passar do tempo acredita em tudo? Se toque, sua piranha velha, graças a você até hoje eu nunca mais consegui ter relação com mulher nenhuma, nas vezes em que tentei, falhei. Era só pensar em você me traindo e pronto, já era… Só estou respondendo sua carta porque me falaram que você está muito doente, e como espiritualista não podia fazer a desfeita de não responder, e principalmente lhe alertar: quando você partir pra outra, não se esqueça de que o Capeta, mesmo tendo chifre, parece que não gosta de ser traído”.

E pra vingança ficar completa, encerrou a narrativa cantando o tema do bloco dos “caçadô”: “Ô, leva eu minha saudade, eu também quero ir”.