Maneca Grosso

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 16 jun 2018

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Por Nando da Costa Lima

“Nós nascemos do mesmo signo, doutor, com a única diferença de eu ter nascido de nove meses de gestação e sua excelência ter nascido de dez…” Quando o professor e poeta Manoel Fernandes de Oliveira (Maneca Grosso) publicou este artigo no jornal “A Palavra”, chamando o adversário de “filho de uma égua”, o clima ficou ainda mais pesado entre os dois grupos políticos que lutavam pelo poder no início do século XX. (Meletes e Peduros). Os Meletes se defendiam e atacavam os Peduros através do jornal “O Conquistense”. O juiz Araújo, um intelectual erudito, ficou muito irritado com as palavras a ele dirigidas. Naquela Conquista de 1919, os muros ainda criavam limo devido à umidade das matas que circundavam a cidade, o comércio era movimentado pelos caixeiros-viajantes e a Filarmônica Vitória marcava presença em todo grande acontecimento. Uma pequena cidade escondida no sudoeste baiano, mas que aos olhos do poeta: “Não há no mundo, na Terra, igual a esta outra vista! Na falda d’aquela serra… Está engastada Conquista”.

Coronel Gugé tinha falecido recentemente e isto contribuiu para o fortalecimento da oposição. O último artigo de Maneca tirou os Meletes do sério, sua desenvoltura levava-o a ganhar todas as polêmicas levantadas. Com uma disputa verbal tão agressiva, o povo já contava com uma luta armada a qualquer momento. As discussões entre Meletes e Peduros a cada momento se agravavam mais, a cidade estava tensa, só se via homens armados, tinha jagunço de todo lugar! O clima de guerra preocupou até o Governo do Estado, que só veio tomar providências depois que os Meletes começaram a incentivar o povo a não pagar impostos, destacou uma tropa para prender Arruda, um chefe de jagunços, já com o intuito de mostrar que não estava gostando daquilo. O tenente responsável o enviou para a capital escoltado por vários soldados, mas os seus aliados não deixaram a operação ser completada, cercaram a tropa e libertaram Arruda, uma figura necessária para a ocasião, foi ele que usaram para emboscar o poeta Maneca Grosso e seu compadre. Quanto à tropa: ninguém sabe onde foi parar. Um amigo ufólogo e historiador acha que a única explicação é que eles foram abduzidos, com burro e tudo, perto de Boa Nova. Disso eu não tenho certeza. …Leia na íntegra

Evite assombrações

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 02 jun 2018

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Por Nando da Costa Lima

Assombração é óbvio que existe… Mas só aparece pra gente que não bebe. Caso de assombração ocorrido com biriteiro não vale, é delírio!

Honório tava travado, vinha do buteco atalhando frango, tinha brigado com a patroa justamente por causa da cachaça. Tava demais! Pra não passar pelo matagal do açudão, resolveu pegar um atalho por um caminho que passava pelo quintal da viúva do capitão João Antônio. Foi ali que uma assombração atravessou o seu caminho, até hoje jura por qualquer coisa que foi verdade. Ele estava com muita pressa, mas a livusia não deixou ele dar mais um passo. Ficou paralisado, parecia que tava hipnotizado… Mesmo assim, a pinga ativou o garanhão etílico. Quando viu aquela mulherona alta, a força da cachaça ajudou a fantasiar um caso sobrenatural com aquela assombração sensual. Deu pra ele sentir que ela tava querendo… Parecia uma noiva flutuando na escuridão da caatinga à procura de um homem de verdade pra consumar o casamento. Não dava pra resistir! Depois de um litro e meio de pinga ruim misturado com qualquer coisa, até assombração fica sexy… Honório segurou a noivona pela cintura e mandou ver, só que a baixa qualidade da bebida consumida atrapalhou seu desempenhou sexual: só conseguiu dar meia, nem dá pra dizer que aquilo foi “uma”. O esforço curou a cachaça, o medo encostou e ele deu uma carreira que só parou em casa. Tava amarelo e suando frio. Arrasado! Se tivesse seguido o conselho de Sinval e bebido só a legítima Jurubeba Leão do Norte, ele agora estaria bem com o povo da cidade, nada disso teria acontecido. Mas é assim mesmo, quem não ouve conselho, escuta coitado. E ele acabou desacreditado, virou motivo de piada. Todo mundo ficou sabendo da história e todos falavam a mesma coisa: “Tá doido, é mentiroso e tá delirando de pinga”. Mas só falavam! Ninguém nunca tinha chegado a agredir Honório por causa desse acontecimento… Só a viúva do capitão João Antônio que não gostou nem um pouco desse caso, ficou tão retada que deu uma surra de panela de pressão no compadre. Segundo a viúva Esmeraldina, a assombração que aquele safado traçou foi seu vestido de noiva que estava pendurado no varal pra tirar o cheiro de mofo. Ela ficou tão nervosa que nem levou em conta o estado de embriaguez do compadre. Contou pra todo mundo que ele tinha profanado uma relíquia de família que casou várias gerações, além de desrespeitar o finado compadre.

Ficou mal com a população: pinguço, doido e estuprador de vestido de noiva. É no que dá ficar bebendo qualquer fubuia com rótulo, até assombração aparece! Teve que mudar de cidade… Era só atravessar uma rua que alguém falava: “Lá vai o tarado que come até assombração”.

O dia que Tidinho chorou

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 26 maio 2018

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Por Nando da Costa Lima

“Formosa cavalgadura Que me levaste a ventura Torna trazer-me outra vez”. Verso do poeta, historiador e educador Euclides Abelardo de Souza Dantas, professor Tidinho, uma peça fundamental no desenvolvimento cultural de nossa Conquista. Autodidata cuja fabulosa cultura adquirida o deixava transitar com precisão em todos os ramos da literatura. Quando por aqui chegou no início do século XX o intendente era o Coronel Cazuza Fernandes e na Rua Grande ainda existia um barracão pra abrigar os tropeiros que vinham pra feira. Veio exercer o magistério, uma de suas paixões, nessa época os grandes fazendeiros contratavam professores da capital para educarem seus filhos nas suas propriedades. Os jovens só saiam para os colégios da capital quando demonstravam grande interesse pelos estudos, a distância a ser cumprida em lombo de burro tornava tudo mais difícil e talvez por isso eram raros os que iam pra Salvador. Os professores do tempo dos Coronéis exerciam um papel de tutor e a profissão exigia uma conduta impecável. Eram eles que ensinavam desde boas maneiras a álgebra, e esse contato direto com os familiares dos alunos os faziam quase que parentes, o carisma do jovem professor Euclides Dantas o transformou numa pessoa muito popular na terra do frio. Quando era dia de feira, professor Tidinho era cumprimentado por todos na Rua Grande. Um homem diferente, docemente diferente… Incapaz de distratar seu semelhante. Ele nasceu para educar, alfabetizou várias gerações e participou ativamente da vida cultural da cidade. Foi ele o redator de um dos jornais mais polêmicos de nossa terra “A PALAVRA”, que teve participação ativa na briga entre Meletes e Peduros através do poeta e também educador Maneca Grosso.

Quando Tidinho veio pra Conquista talvez não imaginasse que iria passar toda a sua vida por aqui, mas logo se casou com uma filha da terra (Virgínia Lopes Ferraz de Oliveira) e isto fincou ainda mais as raízes do grande educador na terra dos Mongoiós. A poesia era a outra paixão do professor… Tidinho era único, talvez porque a época exigia certa austeridade dos educadores, ele era muito sério, apesar da bondade nunca o viram chorar, nem quando a morte visitava aos que o cercavam. O professor Euclides Dantas ajudou Conquista a dar seus primeiros passos na educação, foi sua persistência como educador que fundou colégios de grande importância pra nossa terra, fez de Conquista sua terra natal e se dedicou a educação até a doença o tornar cego, impedindo-o de lecionar.  “O cego sofre tanto! A sua desventura é mais longa que o céu e mais funda que o mar! Quem poderá medir a imensidade escura! E do cego quem pode as mágoas calcular!” Mesmo assim o mestre não se afastou das letras que sempre o acompanharam, ele ditava seus poemas para que alguém copiasse, e foram alguns desses poemas que o levaram a chorar… Foi numa tarde fria quando Tidinho se encontrava meditando em sua cadeira de balanço, que chegou um mensageiro com correspondência da capital. Eram livros com um pequeno comunicado, um dos parentes na sala leu para o professor a notícia que muito o comoveu… Ele havia ganhado aqueles livros pelos versos enviados pra um concurso de poesia. Tidinho pegou os volumes como se pega uma criança recém-nascida, uma ironia do destino, o poeta cego premiado com livros que jamais poderia ler… Ele continuou acariciando os livros, chegou para um canto da sala como se quisesse que ninguém o visse e chorou… mas chorou baixinho, o professor Euclides Dantas não poderia deixar rolar lágrimas em público só por não poder mais ler.

“Pois que no carnaval somente se mascara aquele que, mostrando ao mundo a própria cara, esconde no sorriso as lágrimas da dor”

Mil caretas na praça

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 20 maio 2018

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Por Nando da Costa Lima

Nesse tempo, aqui em Conquista ainda tinha micareta… Era muito boa! Por que parou??

A festa começou quente, muita gente bonita, muita cachaça e o bloco “Exçecutivos” puxando a fila. Tudo às mil maravilhas. E foi no meio dessa folia que desembarcou “Geraldão das Meninas”, o rei das micaretas. Já desceu do ônibus balançando o chão da Praça do Gil (ele tinha um micro-ônibus só pra acompanhar as micaretas da vida). Era desses que fazia qualquer coisa pra pular atrás de um trio elétrico, de preferência bem acompanhado. Dinheiro não era problema, tinha herdado muita grana, dava pra passar o resto da vida na folia. Geraldão era desses machões convictos, tinha até quem o tachasse de homofóbico. Mas não, ele só era meio tarado, anotava até as relações que tinha por mês. Nessa micareta ele tava com o plano de arrumar umas vinte namoradas, isso tirando por baixo. Os puxa-saco que faziam parte de sua turma (onde ia levava mais de vinte, tudo por conta) acharam que aqui ele ia bater o recorde…  E a festa estava linda, tinha tanto trio elétrico que ninguém conseguia decifrar o que estavam tocando. Gente de tudo que é parte do Brasil, inclusive uma comitiva de poetas de Poções. A festa estava fervilhando, Geraldão já tinha selecionado suas futuras “presas”. Ele sempre fazia isso antes de atacar, saía selecionando. Era um chato!

Já tava clareando ele ainda não tinha arranjado nada, nenhuma conquistense foi com a cara do playboy das costeletas. E isso o deixou tão incomodado que, mesmo não tendo o costume, encheu a cara de pinga. Aí as coisas pioraram ainda mais: a cachaça libertou a franga do ex-tarado. Ficou tão desmunhecado que os amigos fizeram uma rodinha pra esconder Geraldão, tava muito fresco! Ninguém podia notar que ele tava dando aquele show na praça mais movimentada da cidade. Chegou a subir num trio, mas caiu ao tentar agarrar o cantor. Pegou mal aquele homem de 1,90 m querendo beijar o cantor…  Os amigos já não sabiam o que fazer. Se fosse em Salvador, menos mal, mas na Praça do Gil, no final dos anos 1980…       A solução veio da própria folia: quando viram passar um bando de marmanjos fantasiados de enfermeira, eles falaram ao mesmo tempo: “Vamos inscrever Geraldão nesse bloco, o pessoal vai pensar que ele tá só brincando”.

E não deu outra: ele entrou de última hora no Bloco das Enfermeiras. Se vestido de vaqueiro ele tinha tentado beijar um trio elétrico todo, fantasiado de enfermeira desbundou. Não podia ver uma cadeira ocupada que sentava. Até o pessoal do bloco já tava com vergonha, mas foi o jeito deixar ele desfilar na Bartolomeu de Gusmão. E a cada hora a festa esquentava mais, o povo continuava chegando, parecia que a micareta não ia acabar. Geraldão se soltou… botou pra ferver. A cachaça o mudou por completo! Se não fosse as costeletas tipo Elvis Preslei e as botas 45, não tinha quem não atrapalhasse, virou uma piriguete. Os velhos amigos estavam correndo as léguas dele, ninguém queria papo. Tinha até quem achava que Geraldão não voltaria ao normal nunca mais. O homem desabrochou tanto que foi preso por excesso de frescura, mas logo foi solto. Nem o pessoal da delegacia suportou.

A festa terminou em paz, foram quatro dias de muito folia. O sucesso previsto se realizou e a cidade amanheceu de ressaca, quase deserta… só tinha o pessoal da limpeza e Geraldão das Meninas completamente sóbrio, armado e puto da vida, doido pra encontrar o corno que o empurrou de cima do trio elétrico. Aquela dor no traseiro só podia ser consequência da queda. E bradou com voz de quem não tava pra brincadeira: “Um filho da puta quase arranca minhas costeletas nas imediações da Praça do Gil, barbaridade! Esse eu mato, tchê!”.

– Ué, Geraldão, você grande desse jeito, como é que esse sujeito conseguiu te segurar pelas costeletas??

– Tá querendo morrer também, filho duma égua curioso?..

‘Cê’ lembra?…

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 12 maio 2018

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Por Nando da Costa Lima

Apesar de já terem passados mais de cinquenta anos, eu lembro como se fosse hoje “dotô”, era julho e o frio daquele ano tava de matar, até quem era da terra não estava suportando a friagem. O Sr. e seu colega chegavam a bater o queixo quando o vento entrava pela capota do Jeep, a professora que vinha de carona não sabia se tremia ou se fazia pose pra vocês. Ela estava indo pra ocupar uma vaga no recém-inaugurado ginásio da cidade. O Sr. e o outro Dr. faziam uma dupla diferente, falavam mais que político. Eu pensei que médico conversasse menos! A professora falava tão difícil que eu não entendia quase nada, ela chamava carteiro de estafeta e motorista de cinesiforo, até hoje eu não descobri se era latim ou “ingreis”. Mas foram vocês que atiçaram a moça, foram logo dizendo que eram solteiros, tava estampado na cara dos dois a vontade de passar uma noite com aquela formosura. O entusiasmo aumentou quando vocês pararam no bar de dona Noca pra beber uma jurubeba. Seu amigo fez questão de conferir a garrafa pra ver se era da legítima Leão do Norte, e você como todo baixinho invocado tomou duas garrafas, ficou mais conversador que novo rico dando bronca num subalterno. Mas é isso! Pra conquistar aquela flor tudo era normal. Enquanto “nois bebia” a professorinha comeu um tira-gosto de bucho de bode e almoçou uma feijoada “compreta”, de sobremesa comeu duas bananas e rebateu com um copo de leite pra evitar enjoo. Deolinda gostou tanto do leite de cabra que acabou provando do doce e do queijo. Eu nunca vi um apetite daquele, só não comeu a tigela de doce toda porque o “dotô interferiu lembrando que não fazia bem viajar de estomago cheio. Nós acabamos de beber e pegamos a estrada… …Leia na íntegra

Vingança Póstuma

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 05 maio 2018

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Por Nando da Costa Lima

Tudo foi por causa daquela maldita mania por jogo, tanto eu como o compadre éramos doentes por jogo, qualquer tipo de jogo, do bicho ao carteado era com a gente mesmo. Eu já beirando os cinquenta, solteiro e com a vida mais ou menos arrumada. O compadre já tinha quase sessenta, nove filhos dos quais batizei sete. Me arrependi de ter dado uma caderneta de poupança ao primeiro, depois disso parece que a comadre só paria pra ganhar caderneta! Um dia nós mandamos fazer duas fotos nossas bem grandes e apostamos que quem ficasse mais bonito não pagava nada. Eu perdi, quem fez o julgamento foi a comadre e os meninos. Esse retrato até hoje me persegue, não o meu, o dele! É uma foto do compadre feio que só ele mesmo, e com aquela cara fechada que lhe era natural. As pequenas apostas eram normais no nosso cotidiano, o que mudou tudo foi um bilhete da loteria federal. …Leia na íntegra

Ilusão de Ótica

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 28 abr 2018

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Por Nando da Costa Lima

Na rua tinha uns dez botecos, mas boteco mesmo, daqueles que tem freguês 24 horas. Só frequentava biriteiro profissional, daqueles que comem uma lata de sardinha e bebem o óleo que sobra pra proteger o fígado. Não era qualquer bebedor de cerveja que encostava ali não, só quem gostasse da pinguinha e do conhaque é que podia fazer ponto. Quando dava cinco horas da tarde já estavam todos travados. A maioria jurando que nunca mais beberia, aquele papo de quem bebe todo dia e não admite que é alcoólatra. E naquele fim de feriadão, o pessoal tinha dobrado a dosagem, era bêbado de todo jeito: chorão, rico, mentiroso, valente, tinha até bêbado mágico! Mas todos com aquele velho arrependimento por ter bebido. Foi esta situação que levou a cidade a presenciar aquela procissão tão diferente. Pior que o pessoal fica todo igual, parecem parentes.

Quando dona Gertrudes, a beata mais fervorosa da paróquia, passou por aquela rua repleta de cachaceiros muita gente estranhou. Mas foi Neco Birita quem primeiro notou uma imagem nas mãos da beata. Ele que já era invocado com religião, achou que aquilo era um aviso das alturas para que ele abandonasse o copo e deu um berro que chamou a atenção de todos: “Louvado seja São Benedito, de hoje em diante não bebo mais”. Neco Birita seguiu a beata gritando e louvando o santo e por cada boteco que passava arrastava um punhado de bêbados depressivos. Dona Gertrudes não deu ousadia, seguiu sem olhar pra trás. Caminhava firme e nem tomou conhecimento daquela procissão de pinguço. Se desse ousadia era pior! Atravessaram a metade da cidade e chegaram ao centro sendo bem recebidos por todos. Todos batiam a mão para eles e isto só podia ser um sinal de apoio, mesmo sem saber qual o motivo e para onde ia aquela romaria. Um vereador ficou tão empolgado que fez um discurso sugerindo a mudança do padroeiro da cidade para São Benedito. Dona Cotinha além de apoiar, prometeu um terreno para a construção da igreja do novo padroeiro. Só Terêncio Boca Lisa que achou de discordar falando que a imagem podia ser de Nossa Senhora Aparecida. Aí formou-se o bate-boca, uns do lado de Nossa Senhora, outros querendo São Benedito. Até que Tonho Caroço deu um tiro pra cima e explicou que santo era igual cachorro novo, quem dá nome é o dono! Se quem viu primeiro achou que era São Benedito, então era. Zé Gumito começou a gritar parecendo que tava em transe: “Viva São Benedito, o padroeiro dos desesperados.” A voz grave de Zé levou o resto do pessoal a repetir o refrão e a caminhada prosseguiu atrás de dona Gertrudes com a imagem do milagreiro. Ela ia com as mãos em concha e o xale por cima, parecendo que queria esconder o santo.

Depois de muito caminhar, a beata parou na escadaria da igreja, e quando o sacristão saiu na porta, ela sacudiu a garrafa de Jurubeba Leão do Norte que vinha trazendo desde lá de baixo e disse: “Eu vim trazer a garrafa de Jurubeba pro senhor fazer o remédio do padre. Pega logo porque estes cachaceiros tão me seguindo desde a hora que comprei, eu dei muita volta pra despistar, mas não teve jeito. Só não tomaram porque apertei o passo”. Aí a procissão desapareceu em segundos… Não ficou um devoto.

Foi Fato!

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 21 abr 2018

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Por Nando da Costa Lima

Luzia saiu detrás da horta aos berros. O pessoal da venda nem ligou, pensaram que ela tinha ganhado o que tanto procurou. Continuaram bebendo e jogando “piu” apostado. Mas ela gritou tão alto que chamou a atenção de todo mundo que se encontrava na praça: “Virge Santa, é um milagre! Se a luz não fosse de motô, dava pra abrir um frigurifi de peixe”.

Era muito peixe, pingava pra tudo que é lado, o povo não sabia se rezava agradecendo ao milagre ou se catava os bichos. Nas rajadas de chuva com vento, só caia piaba. Mas quando relampejava, junto ao trovão vinha traíra, bagre, beré, lambari,,, Foi uma coisa linda, muita gente da época ficou maravilhada com o ocorrido… A Praça do Jenipapo ficou coberta de peixes, uma lindeza! Quanto mais o povo catava, mais caia peixe. Mandaram chamar o vigário uma cacetada de vezes pra confirmar o milagre, tinha que ter a presença de um homem da Igreja. Mas o padre tava ocupadíssimo com um ex-pistoleiro que, depois que enricou, resolveu ficar em paz com Deus. …Leia na íntegra

Dos melindres caatinqueiros

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 07 abr 2018

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Por Nando da Costa Lima

A pessoa que tem dó de si fica ridícula, insuportável! É impossível atravessar uma existência sem magoar alguém. Foi daí que surgiu o bendito perdão… Talvez seja a palavra padrão para o nosso desenvolvimento espiritual. O perdão é a bandeira branca falada!

No início do século XX, a caatinga era regida pelos coronéis e a jagunçada. Quando ficava marrom, era difícil permanecer e sobreviver. E se a fome apertasse, se comia até jegue, que é um bicho abençoado para o nordestino. Os outros problemas eram esquecidos quando a fome imperava! Até os “cantadô” arribavam, eles são como os passarinhos. Não aguentam tempo ruim. Se ficar, morre de papo -seco ou fica igual frango com mal triste. Tocar moda de viola com o bucho roncando deve ser muito ruim! Teve uma vez que um cego cantador resolveu ficar pra “ver”. Quando a coisa apertou, ele bebeu tanta pinga que tocou doze boleros apaixonados e quatro valsas pra caixa de peixe seco na venda de Seu Benício Beijador. Ninguém entendeu nada! As horas ficavam mais longas e o desespero coletivo levava povoados inteiros a vagar pela caatinga rumo à capital. Era nesse cenário de fome que apareciam os homens santos! Eles arrastavam multidões de miseráveis e sugavam o resto do pouco que tinham… E pra enganar o estômago durante o grande calvário, os retirantes, milagreiros, coronéis e jagunços criavam um mundo mágico. …Leia na íntegra

Milagres acontecem…

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 31 mar 2018

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Por Nando da Costa Lima

Deodato Grampão subiu a escadaria da catedral de joelhos com uma vela de 7 dias acesa na mão esquerda. Grampão não era um homem comum, era um remanescente dos jagunços… Um sujeito de poucas palavras, e meio bruto… Uma cancela de ladeira abaixo! Acompanhando ele ia a mulher, os filhos e uns camaradas. Na entrada da igreja se benzeu e mandou um dos meninos da turma chamar o padre. Era só falar que era Deodato Grampão pagando uma promessa que o vigário vinha logo, ele já sabia de quem se tratava. A mulher quis dar uma de entendida e falou que naquela hora ele não achava padre. Hora de almoço! Tava nervosa, tinha perdido a semana quase toda com os preparativos dessa jornada religiosa. Deodato acalmou a patroa sutilmente: “Cala a boca, porra!”. Depois, tornou a pedir pra um camarada ir buscar o padre. O rapaz que foi chamar já voltou enfezado: “Ou o senhor manda esse sacana calar a boca ou eu jogo ele pra trás, patrão”. Deodato interferiu: “Respeite a igreja, Roduzino. Sacristão também é filho de Deus”. O sacristão, que já estava de mau humor porque foi acordado logo depois do almoço, bradou:

– Que palhaçada é essa na porta da igreja, vocês erraram o caminho. A Lapa fica pra outro lado! Meio dia é uma hora que até vagabundo tá em casa. …Leia na íntegra

Essa estória de história com “H”

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 24 mar 2018

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Por Nando da Costa Lima

Isto faz parte da história. É claro que a gente, além de aumentar um poquinho, só revela o milagre! É que os fatos e a imaginação se misturam na memória, tem muito tempo que escutei! Foi em 1950, quando Getúlio Vargas, em campanha presidencial, veio parar aqui em Conquista. Os “cumpade” Cabo Thiago, Dória e Alfredinho foram os responsáveis pela segurança da ilustre visita. Tinha gente de tudo que é canto: Guigó, Piripiri, Ibicuí, Iguaí, uma comitiva de poetas de Poções, Lagoa da Pedra, Jequié… Tinha gente até do norte de Minas. O Bicho de Pedra Azul não veio não, é mentira. Ele estava numa passeata em São Paulo. O evento se tratava de um ex-presidente concorrendo novamente à presidência. Uma das imprensas mais tradicionais da Bahia já naquela época, a de Condeúba, veio cobrir o evento, não era qualquer coisa não! A cidade se preparou, tava um brinco. O candidato chegou num dia e se picou no outro, foi o presidente que mais demorou em Conquista. Tinha que sair catando votos e apagando a fama de ditador Brasil afora. Aqui em Conquista o foguetório em sua homenagem foi comentado até em Salvador. O comício foi na Praça Barão do Rio Branco, que faz parte da história política de Conquista. A praça tava lustrando! Parecia uma capital no feriado de 7 de Setembro, só tinha gente arrumada! Mas, como em todo comício, tinha vendedor de tudo o que se pode imaginar: mariola, quebra queixo, taboca, rolete de cana, doce de umbu, pirulito…”Olha o pirulito enfiado no palito”. E é claro, não podia faltar doido, como a Terra do Frio sempre foi carente de doidos, mandaram buscar dois numa cidade vizinha. Comício sem doido não é comício. Um discursando a favor e o outro contra o presidente. Correu tudo como planejado pelas senhoras da terra, o comício foi impecável e o ex-presidente ficou muito grato com a simpatia e os prováveis votos obtidos no Planalto da Conquista. A Terra do Frio parece que votou fechado com Getúlio Vargas, tem até um busto dele na Serra do Maçal (quanto à votação unânime, eu não tenho certeza. Dr. Rui Medeiros pode informar melhor sobre isso e sobre o caso seguinte). …Leia na íntegra

Comercial Futebol & Cachaça

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 17 mar 2018

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Por Nando da Costa Lima

Corre, pessoal. Senão o tempo atropela a gente!

O jogo ia acontecer nos Doze, o titular tava quase completo, só quem não tava escalado era Zezito Lagartixa que estava suspenso por problemas etílicos. Pra Odai suspender um atleta por causa de cachaça é porque o jogador estava abusando da aguardente. Um time que na concentração consumia um garrafão de pinga… Suspender um zagueiro de confiança por causa de pinga! Nem Lagartixa tava acreditando, ele quase chorou quando o time subiu no caminhão completo, só tava faltando ele pra formar o esquadrão imbatível. Na linha de frente estavam os melhores: Zé de Ninha, Odeval e Geraldim. Todos os integrantes da equipe eram pinguços, inclusive o presidente e dono do time. Ele tinha certeza de que ia lascar com o time dos Doze. Os goleiros Nozão e Paredão  estavam preocupados, só beberam rabo de galo, era mais suave! Goleiro tem que se cuidar! Era pra ser uma das melhores partidas do velho Comercial. O time e a torcida já estavam todos na carroceria do caminhão de Geso Flor. O motorista tinha acabado de virar uma meiota de pinga no gargalo só pra relaxar e pegar a estrada… Era um time difícil de escalar, ainda bem que os filhos de Seu Oliveira não gostavam muito de bola. Mesmo assim ele tinha um genro que era goleiro, e aí foi o jeito o presidente lançar o quarto goleiro pra não deixar o velho retado. Com os filhos de Seu Ioza ele não teve muito trabalho: escalou dois no aspirante e um no titular. O mais velho só sabia jogar basquete! Nesse tempo, se você tivesse de 1,75 m pra cima, era automaticamente convocado pra seleção de basquete da cidade, que treinava no Colégio Batista. …Leia na íntegra

Encosto

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 10 mar 2018

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Por Nando da Costa Lima

Mulher de poeta deve sofrer… Tem até quem ache que o SUS devia ter um serviço de atendimento psicológico só para elas.  Dona Marizilda que o diga! Casada com o poeta Custódio Carente da Silva, ela não perdia uma oportunidade para esculhambar com a “raça” dos poetas, e o marido principalmente. Ela achava que o poeta ia tomar jeito depois da idade avançada, 78 anos não é qualquer coisa. Mas ele continuava agindo como se fosse jovem, não podia ver uma moça bonita que fazia um verso. E ainda aparecia quem admirava aquele lenga, quase sempre, voltado para o amor. Dona Marizilda perdeu a cabeça quando encontrou no bolso do poeta uma poesia quilométrica dedicada a uma afilhada deles, dessa vez ele extrapolou. A moça, além de ser cria da casa, tinha idade pra ser neta daquele safado. Ela estava irredutível, não ia passar o pouco que lhe restava da vida com um velho tarado que não respeitava nem a família. A sorte dele é que a menina era maior de idade, senão a esposa já tinha dado queixa na delegacia. Foi aí que chegou dona Elenilda e tentou acalmar a amiga, as duas estavam na fila do posto de saúde:

– Calma, Marizilda. Seu marido é um poeta premiado, tem até livro publicado!

– Poeta porra nenhuma, aquilo é um encosto! Você tá falando assim porque não sabe nada do que eu passei nesses 54 anos junto deste traste que você chama de poeta. Tive que sustentar esse merda a vida toda e você ainda tem coragem de me lembrar que ele é poeta.

– Mas amiga, ele deve ter ganhado algum dinheiro com os livros que publicou. Se eu não me engano, foram mais de dez, todos dedicados a você. …Leia na íntegra

Tá tudo titirrane

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Publicado por Editor | Colocado em Geral, Vit. da Conquista | Data: 03 mar 2018

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Por Nando da Costa Lima

Renatão nem quis pegar a catanica (coletivo) pra não sujar a roupa nova, tava parecendo que ia pra uma festa. Estava trajando o que havia de mais moderno na época (anos 70), até o cabelo ele mandou alisar. Dona Letra caprichou no “ferro quente”, não ficou um fio enrolado. Renato demorou tanto tempo pra criar coragem e ir procurar Julinda… Ele queria chegar por cima, um verdadeiro “pão”. Pra quem não viveu nesse tempo: “pão” era o “gato” de hoje, ou seja, o “pão velho” de hoje um dia já foi um “gato”.

Renato conheceu Julinda na roça. Ele era vaqueiro e estava com roupa de trabalho, até espora tava usando, isso sem falar na subaqueira de quem acabou de tirar leite duma cacetada de vacas. Talvez tenha sido isso que atiçou a libido dela… Mas na cabeça dele, ela ia acabar de apaixonar quando visse ele bonito e cheiroso. Estaria pronto pra passear de mãos dadas pelo Jardim das Borboletas, assistir o programa Alegria dos Bairros, visitar os presos na cadeia que ficava no prédio da prefeitura, ir numa matinal do Cine Glória… Coisas simples, comuns aos enamorados daquela época. Tinha que estar bem vestido pra deixar todo mundo invocado! Por isso ele encomendou tudo de fora. Sua prima mandou de “Sompaulo”, e ela caprichou: sapato cavalo de aço, várias calças toureiro boca de sino, muitas mini blusas, uma pochete e um cinto que a fivela parecia uma bandeja inox. Renato ficou extasiado quando viu as roupas mandadas pela prima! Ia ficar mais bonito que Dotô Aloísio Bonito. …Leia na íntegra

Tenório e o E.T.

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 24 fev 2018

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Por Nando da Costa Lima

Ele há mais de dez anos vinha cercando um extraterrestre, depois que aquele pessoal do sul garantiu que naquele local (sua roça) era bem mais fácil o contato com seres de outros planetas, o homem ficou impressionado. Não tirava da cabeça a possibilidade de capturar um E.T., vender pros americanos e provar praquele bando de ignorantes que vivia lhe criticando que nada era impossível. No início sua mulher quase endoida, o marido passava o dia procurando pistas que o levasse aos extraterrestres. Mas depois até gostou, a invocação do marido servia pra despistar os vacilos dos namorados, Neusinha quase todo dia tinha um contato de primeiro grau e Tenório já tinha visto muito E.T. sair pela janela só de cueca. Infelizmente nunca tinha alcançado nenhum, é que a pinga não deixava! O homem gostava de álcool na mesma intensidade que gostava de disco voador, tava tão obcecado com essa história de E.T. que não adiantou nem seu pai lhe explicar que os extraterrestre que perseguia eram todos amantes de sua mulher. E assim ia passando os dias do casal: ele correndo atrás de disco e ela transando com quem aparecesse. …Leia na íntegra

Atrás do trio elétrico

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 17 fev 2018

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Por Nando da Costa Lima

Dr. Uoston, por insistência da mãe, foi passar o Carnaval em Salvador. O filho só pensava em trabalho, um rapaz de 28 anos não podia viver daquele jeito. Era de casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Não tinha tempo nem pra namorar, e pelo visto ia morrer solteirão, mesmo que pretendentes não faltassem. Mas ele sempre se saía com o famoso: “Sou casado com a Justiça”. O pai do Dr. era um líder político conhecidíssimo, já tinha sido prefeito várias vezes e indicou Uoston pra ser seu herdeiro na política também. Já ia receber o prato feito! Na certa viraria deputado, pelo menos era o que a família imaginava. Só dependia dele.

A viagem pra Salvador foi pra relaxar, num ano de eleição ele tinha que subir no palanque desestressado. O pai nem desconfiava que o filho único era gay, às vezes sua mulher tentava explicar mas ele mudava de assunto rapidamente. Era homofóbico até os cabelos do bigode, quase se separou da mulher só porque ela disse que ninguém escolhe o jeito pra nascer, ninguém vira homossexual, já nasce assim. Mas o marido sempre cortava falando que não passava de descaração. E se ela pensasse de outra forma que arrumasse as malas e fosse embora. O político nem imaginava que sua mulher incentivava o filho a sair do armário. Se soubesse, a coisa ficaria feia… …Leia na íntegra

Ristorante Pedaço de Mar

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 10 fev 2018

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Por Nando da Costa Lima

Quando chegaram, pareciam uma tropa… Mas só era o coroné Climério com a família de sua noiva, que a convite dele vieram provar a melhor buchada do Brasil. Tava fazendo aquele agrado ao sogro porque este foi o último a concordar com o casório, achava que Climério não era o homem certo pra sua filha. Os convidados eram tão simples que mal comeram, mas Climério comeu por todos e ainda pediu sobremesa. E foi essa a causa de tudo. Eles estavam no restaurante e dormitório que margeava a Rio Bahia e que era vizinho da fazenda de Climério.
Na saída, ele já sentiu a barriga roncando, e quando foi montar no seu burro de confiança, sentiu uma pontada aguda e deu um peido de responsabilidade, daqueles que melam cueca, calça e sela. O burro chegou a refugar, mas o coitado tava amarrado e teve que se acomodar. Climério voltou de vez, nem chegou a se sentar na sela, voltou no mesmo ritmo e já desceu do burrão esculhambando com o cozinheiro e todo mundo que trabalhava naquela merda de restaurante. A comida tava tão velha que em menos de vinte minutos ele já tava naquele estado, nem o burro tava suportando o cheiro, quase tirou o cabresto! Mas ele como cliente do recém inaugurado cliente do recém inaugurado restaurante “Pedaço do Mar” nem sei porque aquele nome, naquele fim de mundo que só chovia de dois em dois anos, caatingão brabo. Quando ficava marrom o jeito era se picar pra Sompa. Mas foi nesse cenário que o coroné Climério se borrou todo na frente do restaurante, quem tava no local, viu. Foi por isso que o coroné já entrou porta adentro do restaurante com um 38 em cada mão, ia mandar o “miseravi” que fez ele passar aquele vexame pro inferno. Não tava nem aí, ia disparar os dois revólveres na cara do filho da puta que lhe serviu aquela comida estragada. E quem conhecia Climerão sabia que ele não falava pras paredes. …Leia na íntegra

               Cansadérrima…

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 03 fev 2018

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Por Nando da Costa Lima

Neusinha sempre se destacou,desde menina sonhava com o estrelato, queria ser atriz. Como não deu certo, por causa de sua voz estridente, foi o jeito se casar com o prefeito e se tornar primeira-dama. Tá certo que o casamento foi arranjado. Casou com aquele caco-velho por uma questão de interesse, mas valeu a pena. Com o tempo ela descobriu que nasceu para ser mulher de político, adorava um conchavo, e não pode se negar que as quatro últimas campa­nhas só foram ganhas graças a sua participação. Fazia de tudo pra conseguir votos pro maridão, no Natal distribuía remédio com a data vencida. No S. João fazia o mesmo, só que em vez de remédio dava comida estragada, era o exemplo de caridade da cidade. Neusinha já tava beirando os cinquenta anos, e se quando nova já não era lá essas coisas, agora ti­nha virado um bucho. O que tinha de feia tinha de convencimento. Era um castigo para os políticos que tinham que entrar em contato com o prefeito, sem sua permissão nada se resolvia naquela pro­gressista cidade da caatinga baiana. …Leia na íntegra

O mundo mudou

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 22 jan 2018

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Por Alberto David

Há dias procuro algo para dizer, mas o que dizer?  A verdade é que o mundo mudou e perdemos a inspiração para dizer algo ou alguma coisa que valha a pena. Precisamos ser sinceros.

Os homens a cada dia andam para trás, vivemos em situações nunca vividas. Coisas dantescas, horripilantes e inusitadas ocorrem a todo instante. “De onde viemos, o que somos, e para onde vamos?”  é algo que nos perguntamos, pois a  vida está sem sentido e é tempo de tudo,  é um tempo de espanto.

Como disse o “profeta” Raul Seixas, “Pare o mundo que eu quero descer”, eu diria o contrário: Pare o mundo que eu quero subir. Isso porque, nestas últimas décadas, temos vivido   como se fôssemos para as batalhas todos os dias, de uma guerra fria, sem graça, para manter a  vida. São tantas as dores, tantas injustiças, tantas pedras no caminho.  Mas, não se pode entristecer.   Vamos nos lembrar dos versos da canção de Gonzaguinha:  “Viver e não ter a vergonha de ser feliz”.  Ou cantarolar os versos de Zeca Pagodinho: “deixa a vida me levar”. Ou, até mesmo, fazer de conta que não temos cabeça, e assim não pensar em mais nada. …Leia na íntegra

Um causo de amor partido

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 21 jan 2018

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Por Nando da Costa Lima

Deoclécio estava irritadíssimo, mas não era pra menos. Logo Marilourdes, que pregava nos quatro cantos da cidade que era apaixonada por ele, foi fazer aquilo. O amor entre os dois parecia indissolúvel, até nas “caçola” Marilourdes mandou bordar “D” de Deoclécio e o “M” do nome dela. Todo mundo achava a coisa mais linda. Deo já tava com mais de uma semana de cachaça, só fazia isso! Tava de dar pena… Mas a safada da noiva foi dar pro cantor da boate dentro do banheiro das mulheres. O caso se tornou público e Deoclécio acordou com aquela sina que com certeza o acompanharia por toda vida.  Sua amada noiva deu pra Jerry Bocão, o cantor da banda de forró Amansa Corno. O local que a safada escolheu tornou o caso ainda mais escandaloso. No banheiro da boate, aquilo não era coisa de gente que se preze! Foi uma desfeita tão grande que ele quase virava padre, nesse tempo ainda se entrava pro seminário quando se tinha um grande desgosto! Mas ele era muito macho pra se esconder atrás de uma batina só por causa de uma piranha safada que o traiu com um cantor de terceira. Ele não ia dar o braço a torcer, ia dar a volta por cima e mostrar pro resto da cidade que quem saiu perdendo foi ela…

Tomou logo um banho de loja e se picou pra capital pra esfriar a cabeça. Tava ficando paranoico, não podia ficar só que lhe vinha em mente sua ex-noiva toda pura dando uma rapidinha num canto duma boate, que por acaso era sua. Tá certo que qualquer um pode levar chifre, mas nos anos 70, numa cidade pequena… era foda! E ele era o rei do pedaço, pegava toda menina que se sobressaía. Era um galã na época. Porte atlético, vozeirão, bonito, mas caiu na infelicidade de se apaixonar pela mulher errada. Era o jeito passar uns seis meses em Salvador pra tirar a urucubaca e voltar botando pra lascar. Não seria Deoclécio “comedô” que ficaria chorando pelos cantos só porque tomou um corno, o negócio dele era dar a volta por cima. Marilourdes já tinha caído na real, sabia da besteira que tinha feito. Aquela porra de cantor nem trepar sabia, ô tempo perdido! Mas naquelas alturas do campeonato não tinha santo que podia ajudar a noiva arrependida. Quem tentava acalmar a moça a encontrava abatida e chorosa, mostrando o enxoval completo vindo da Zona Franca de Manaus… Segundo os mais chegados, ela ia acabar morrendo, pois não comia nem dormia, a única coisa que consumia era água. A tragédia tava traçada: De um lado, uma noiva arrependida falando pros quatro cantos que ia se matar se perdesse Deoclécio; do outro, o noivo que estava irredutível. Com aquela piranha de banheiro ele jamais se casaria. E não ia dar certo mesmo, os pais de Deoclécio ameaçaram deserda-lo caso ele voltasse a conviver com aquela puta de boate. O povo só falava daquilo, e Deoclécio deu uma entrevista na rádio falando que ia abandonar aquela cidade que lhe causou vergonha. Ninguém mais respeitava o “pleiboi”, onde quer que passasse alguém logo gritava: “Lá vai o corno do banheiro!”. Ele já nem mais rebatia a grosseria! Um filho de família tradicional na política local não podia nem pensar em retornar pros braços daquela vagabunda.

Então, como já foi dito, Deoclécio foi pra Salvador mudar de ares… e ela lá, jogada em cima do enxoval e chorando dia após dia. Tava de dar pena! Mas não tinha jeito: deu dentro do banheiro! Se fosse um europeu podia até ser perdoada, mas um catingueiro, criado com carne de bode não tinha perdão, ia ficar marcado pro resto da vida. Só se casasse e mudasse pro Japão. Mas nem isso faria a cidade esquecer aquela safadeza que chamou tanta atenção por envolver dois jovens de famílias importantes. Era tido como certo que nos próximos anos ele seria prefeito e ela a primeira dama da cidade, um casal lindo. Pra aliviar as coisas, a família a levou numa psicóloga que relatou que era um caso seríssimo e quase incurável, até hoje na história da Medicina não se encontrou a cura para tal mal. Até o termo para se referir à doença foi a doutora que criou: “Psicopiranhisse Banherofóbica”. O paciente portador desse mal só sente prazer se transar em banheiros.

E assim a família se livrou de ter uma piranha na casa, aquilo não passou de uma crise psicótica. Quanto a ele, passou um tempo na capital e voltou casado pra se candidatar a prefeito na próxima eleição. E Marilourdes vivia pelas ruas jurando pra todo mundo que encontrava que nunca mais trairia seu homem… Endoidou de tudo. Ficou louca de paixão… E isso até ajudou o ex-noivo a crescer na carreira política.