Os atores

0

Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 21 out 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Todo ser humano tem um pouco de ator. Todos nós, em determinados momentos da vida, temos que representar… Independente de profissão e credo. Advogados, médicos, peões, cientistas, todos usam um pouco da dramaturgia para desempenhar melhor o seu papel. Mas quero falar dos atores de verdade, os profissionais, os apaixonados por teatro, cinema, televisão, circo. Eles são incríveis, mesmo quando ainda não famosos. Acho que de tanto emprestarem o corpo a personagens distintos, eles se tornam pessoas mais compreensivas, mais liberais. E é lógico que, por ofício, são necessariamente cultos (ou nem sempre). O ator dá tudo de si para agradar seu público, é claro que quando são elogiados ou ovacionados, parece que transcendem. Tenho para mim que eles usam os aplausos e elogios como um alimento pra alma… Por isso eu os acho diferentes. O ator também tem aquele lado “médium”, é quando ele incorpora um personagem! E não importa que seja anônimo, quando ele assume pra sociedade que é ator, automaticamente passa a ser ator, mesmo que a maioria das pessoas acrescente um “pequeno” termo pejorativo: “Aquele ator doido…”, ou “Aquele doido metido a ator”. …Leia na íntegra

A boca do povo

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 14 out 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Foi mesmo! Noé de Denga falou que viu tudo, o coração parou de vez na hora que a última urna foi dada por encerrada e ele não teve nem uma dúzia de votos. Nem falou nada antes de entregar a alma a Deus, só deu um peido e caiu de frente no tapetão do cinema. Foi tão de repente que não deu nem pra apostar em que dia ele ia morrer, como era de costume! Um dia triste, mas Lourival da farmácia falou que o “dotô” disse que se tivesse recebido a notícia de que tinha sido eleito, morreria do mesmo jeito, só que uma vez de tristeza e outra de alegria. Isso eu não posso afirmar, é tudo história desse povo conversador que não gosta de ser citado, antes de contar um fuxico faz questão de frisar: “Não está aqui quem contou”. Mas o fato é que Dr. Arnel bateu as botas ainda novo. Mesmo naquela época, pra um homem “rico”, ele viveu pouco. Morreu com 47 anos, seria como se perdêssemos uma pessoa de 60 e poucos hoje… A vida tá ficando mais bonita, de tão linda se alongou, estamos vivendo mais. Mas para um homem dos anos 1940, quarenta e poucos anos era ser jovem, mas não tão jovem. Um senhor!

Morreu casado, sem filhos, e deixou uma viúva nova e mais jovem do que ele pra gastar a fortuna dos Silva sem ninguém pra se intrometer. O que mais marcou foram os comentários preconceituosos daquela época, os amigos contaram várias versões sobre a morte de um homem rico. Ele falava pouco, não sabiam como foi se “encafifar” com política. Os dois se completavam e ela era 20 anos mais nova, o que pra época também era comum (só para os homens). Mas o fato é que o povo, mesmo não participando em nada da vida do casal apaixonado, comentava sobre eles como se fossem íntimos. E com o comentário do médico, o povo todo começou a supor (inventar) casos que levassem um homem a cair duro no meio da rua. Era como se pra morrer do coração tinha que ter alguma contrariedade. O vizinho do lado direito disse que foi “dor de corno”, já outro disse que foi excesso de sexo, dona Lurdinha era muito fogosa! E depois do boca a boca, a viúva sentiu no velório que ninguém daquela cidade ia entender que seu marido deve ter morrido de alegria, ela nem ia tentar explicar praquele bando de conversador que ficou sabendo que ela estava grávida no mesmo dia que o marido morreu.  O homem fez questão que o pré-natal fosse realizado na capital. Aquele povo poderia acreditar em tudo, menos que ela estava grávida do finado. Ela tinha dinheiro pra se mandar daquele lugar e ter seu filho em qualquer parte do mundo, mas não, preferiu se entregar à religião e criar o menino ali mesmo. Não importava o que o povo inventasse, nada iria interferir na criação de seu filho.

Dona Lurdinha passava mais tempo na igreja do que em casa, foi o jeito que encontrou pra repor a falta do marido. Mas as frequentes visitas ao padre eram pra arranjar uma forma de anunciar pra paróquia que quando o finado partiu ela já estava grávida, senão ela, viúva com a barriga crescendo, seria assunto para mil histórias, e todo mundo querendo saber quem é o pai. E ficou decidido que no final da missa de domingo o padre daria a notícia. E foi com muito jeito que o vigário começou falando que tinha perdido um grande amigo, Dr. Arnel, mas que para sua grande alegrai, ficou sabendo que a viúva estava grávida de três meses e blá blá blá…

No outro dia, no bar do sargento, a aposta já era outra: em que mês nasceria o filho do padre???

A Cruz e a Espada

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 07 out 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Na primeira metade do século passado (pelo que eu leio e escuto) os homens eram mais espirituosos, devia ser a maneira de passar o tempo, sem a tecnologia de hoje…

A catedral tava um brinco, as senhoras da cidade fizeram questão de caprichar. Todo ano um grupo de festeiras ficava responsável pela limpeza e decoração da igreja matriz nos festejos de sua santa padroeira. Tinha uma missa na saída da procissão e outra na chegada. Aconteceu que na véspera do dia da padroeira da cidade, um burro de carroça morreu ao lado da catedral. Aquilo causou um incômodo geral, o animal logo começaria a entrar em decomposição e isso causaria grandes transtornos. Se fosse um animal menor, o próprio padre teria resolvido com a ajuda de alguns fiéis. Mas era um burro enorme, ali só um caminhão da prefeitura pra dar um jeito, era só jogar o animal na carroceria e dispensar em algum lugar. Nesses tempos a gente ainda usava o termo “vou jogar no mato”. Tudo que tinha pra ser descartado, em vez de ir pro lixo, ia pro mato. E esse seria o fim do bicho, jogariam o burro no mato e os urubus se encarregariam do resto.

Quando o padre ficou sabendo que o burro já estava fedendo, mandou logo o sacristão ir ao encontro do prefeito, que apesar de ser seu adversário político, era o único que poderia dar uma solução para o problema (O sargento iria se sentir ofendido se o padre lhe pedisse auxílio, um revolucionário prendedor de integralista não ia enterrar burro para padre). A festa da padroeira era motivo de orgulho para toda a cidade, principalmente para o prefeito. Só que ele, famoso pelo senso de humor, recebeu o sacristão, ouviu o recado do padre e enviou um bilhete como resposta, sem perder a piada. O padre quase morre de raiva ao abrir o bilhete: “Caro reverendo, é dever dos religiosos dar assistência aos mortos”. Mas pra não sair perdendo, o padre, que também era muito espirituoso, escreveu uma tréplica ao prefeito que tentou desmoralizá-lo, e mandou ele dar assistência a um animal pagão: “Prezado Sr. Prefeito, quando eu pedi pro senhor mandar pegar o burro que morreu aqui do lado da Catedral, o senhor respondeu que era eu, como religioso, quem deveria encomendar o corpo do defunto (o burro). Por isso estou respondendo que nós, sacristãos, antes de fazermos qualquer procedimento com o corpo, temos de avisar à família do morto”.

E na festa da padroeira, só se falava na rusga do padre com o prefeito.

Fidelão ganhou a luta

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 30 set 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Eram dois dos maiores lutadores do Nordeste, já tinham lutado pelo Brasil todo. Era ter qualquer inauguração de loja, aniversário de cidade, circo… qualquer desses eventos estavam lá Fidelão e Leão do Norte. Ambos fortíssimos e já vinham se enfrentando há tanto tempo que eu acho até que ficaram amigos. Mas é como eu tava falando, se “rolasse um troco” os dois lutadores se encaravam até em batizado. Conquista era bem menor, o ponto mais movimentado da cidade era o Jardim das Borboletas no domingo à tarde. A meninada se lavava, brincava, namorava e brigava… O pior é que quando chegava com um olho roxo em casa ainda tomava um “côro” por ter apanhado na rua. Era a regra, todo mundo admitia!

Mas foi numa Conquista dessa época que um partido resolveu lançar um jovem candidato pra disputar uma vaga de vereador. E nesse tempo ninguém melhor que Pedro Alexandre pra representar a juventude conquistense. Nesse tempo, Dom & Ravel ainda faziam sucesso cantando: “Eu te amo meu Brasil…”. Era uma bestagem só. Mas Pedro resolveu levar a campanha a sério, começou a ler sobre política, participava mais das conversas com a comunidade, mesmo sendo jovem. E como todo jovem, ele chegou pra inovar, ia botar uma porção de ideias futuristas na cabeça daquela velharia. Já tinha gente pagando 3 pra 1 com ele se elegendo. Pedro se empenhava cada vez mais em consertar o Jeep que lhe deram pra fazer campanha e convencer o eleitorado que ele era o homem certo para ocupar um das cadeiras tão cobiçadas. …Leia na íntegra

Mentira

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 23 set 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

A mentira, natural a todos nós, nem sempre é prejudicial. Às vezes é até necessária, pois além de nos tirar do sufoco, serve para muitos como uma forma de desabafo. Todos sabem que os pescadores e os caçadores são experts em mentiras e, como todo mundo tem um pouco dos dois, não nos resta dúvidas de que o mundo é um paraíso de mentirosos (no bom sentido).

E para não fugir à regra, vou começar com uma mentira de caçador: Seu Tiroalbo, caçador dos antigos, estava comemorando seu 80º aniversário, e não podia faltar um “causo” de onça dos seus tempos de juventude para entreter os convidados. O pessoal fez uma roda em torno do velho, e ele começou a narrar uma estória quilométrica, daquelas que o caçador começa a perseguir a onça no Amazonas e termina no Rio Grande do Sul. Anda tanto que quem está escutando dorme. Mas vamos ao que interessa: Seu Tirobaldo, depois de muita labuta, dois dias e duas noites, conseguiu acuar a “bichona” de quase dois metros. Pegou a espingarda e mirou bem na testa da onça, e na hora em que ele ia puxando o gatilho o caso foi interrompido, pois havia chegado mais um convidado para lhe dar os parabéns. Depois do tradicional abraço, ele acomodou a visita na roda e perguntou aos espectadores: “Onde eu parei o caso? ”. Alguém respondeu: “O senhor já ia puxar o gatilho”. Ele agradeceu e continuou: “Aí então eu apertei o dedo, e foi pena pra todo lado”. Um dos convidados, desses chatos que não deixam passar nada, perguntou: “Mas seu Tiroalbo, o senhor estava caçando era onça, de onde surgiram essas penas? ”. O velho, mantendo a pose de caçador, respondeu sem gaguejar para não ficar como mentiroso: “As penas, meu filho, foi na hora que eu atirei, um índio atravessou na frente”. …Leia na íntegra

Gordini

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 16 set 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

E a roda foi formada no jardim da praça central, era ali que Teodoro, o solteirão, contava suas aventuras e matava o povo de inveja. Ele tava falando da vez que foi num cruzeiro na costa brasileira e pelo que ele contou, comeu o navio quase todo, até a mulher do capitão! Começou pegando as arrumadeiras, depois as noivas que estavam em lua de mel (17, segundo suas contas), duas viúvas e nove divorciadas. Pra um cruzeiro de dez dias, ele caprichou.

Um dia, Teodoro “das Cavada”, no meio de uma farra, anunciou que tava pensando seriamente em se casar. A mulherada da região ficou toda assanhada, teve até gente que terminou noivado e namoro. Todas sonhavam entrar na igreja e se tornar esposa do maior bom partido daquelas bandas da caatinga, o homem tinha até uma ruralzona Willys e já tinha um Gordini novinho na garagem pra presentear a noiva, é mole?! Teo não era o que se podia chamar de homem bonito, mas dava pro gasto. Era baixinho, branquelo, mas sabia fazer dinheiro. Era comerciante, criava bode e tirava leite de umas vaquinhas. Era o homem rico das redondezas. E é claro que pra casar teve que fazer umas compras na capital, inclusive uma dentadura com novinha e tudo.

Tinha o povo do contra, os invejosos que falavam que Teodoro não era homem para casamento, pois, além de beber muito, só andava acompanhado de macho. Parece que nunca tinha namorado sério. Quanto a ir pra cama com alguém, nisso ninguém se metia, era um problema particular que nem as putas comentavam. Mas ele era gente boa, até o puteiro funcionava em uma de suas residências e não pagava aluguel nem nada. Sendo assim, mulher nenhuma ia cair na besteira de comentar o desempenho dele na cama. Quando falavam, era pra elogiar. Tonhão, que administrava o puteiro, tava sempre elogiando o caráter e a humildade do amigo de vários anos. Só que Tonhão era noivo da moça mais cobiçada do trecho, e até ela se entusiasmou com a notícia de que Teodoro estava querendo casar. Já pensou, o homem além de ter tudo, ainda ia dar um Gordini “novim”. Marycler tava pensativa, aquele negócio de ser noiva de dono de puteiro nem pegava bem pra ela… Tonhão foi quem primeiro notou que a noiva tava querendo dar de banda. E agora? Quando Marycler falou que tava pensando em “dar um tempo”, ele quase saiu do sério. O que o dinheiro não faz? Mesmo assim, tentou se conter e argumentou.

– Por que isso, minha linda? Nós sempre nos demos tão bem, até as alianças eu já encomendei.

Marycler estava irredutível, sempre quis ter um carro.

– Mas isso não quer dizer nada, nós ainda nem marcamos a data do casamento, da muito bem pra dar um tempo.

Tonhão, quando viu que a noiva não ia mudar de opinião, resolveu contar a verdade sobre Teodoro das Cavadas, só assim pra resolver aquele impasse. Não queria perder nem a noiva e nem a amizade, mas pelo visto ia ter que sair perdendo alguma coisa…

Marycler quase morre de raiva quando soube da verdade, se descabelou de ódio. Aquele sacana tava iludindo as moças da cidade só porque tinha dinheiro. Adeus Gordini, sem falar o tempo que ela perdeu com o mala do noivo…

Pra resumir a história, porque se eu for falar muito sobre o caso dos dois vão me chamar de homofóbico. Tonhão foi quem ganhou o Gordini!

E o bloco dos “caçadô” nunca mais saiu…

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 02 set 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Bejalviro estava comemorando os seus 75 anos junto aos parentes no seu sítio no interior de “Sompaulo”. Tinha sobrinhos, irmãos e afilhados, só não filhos e netos. É que o anfitrião, apesar de já ter sido casado, havia separado. Marinalva aprontou tudo que podia com ele, tanto que até Bejavalviro, que era meio passado, acabou descobrindo. E nesse dia ele resolveu contar porque nunca mais tinha pensado em casamento, e olha que tava se sentindo vingado, de alma lavada. É que tinha recebido uma carta da ex-mulher dando os parabéns pelos 75 anos e implorando para acabarem esta caminhada juntos: “O tempo apaga tudo…”. Mas, para Bejalviro, o tempo não apagou nada, e ele fez questão de responder a carta à altura. Antes de enviar, como vingança, leu a missiva para todos os presentes na comemoração do seu aniversário. Teve até fundo musical… Ele fez questão de caprichar, pois tinha muito parente da ex-mulher na festança, e a maioria dos convidados conhecia a história. Quem entregou a carta de Marinalva para Bejalviro foi seu ex-cunhado, a quem ele não via a muito tempo. Mas Beja nunca esqueceu de ele contar um caso e em vez de falar seu nome, falou “o corno do meu cunhado”. Bejalviro ia chegando na hora… Isso fazia parte do rancor do velho pelo “amô” do passado.

E começou a ler a carta resposta: “Pois é, Marinalva, lá se vão anos e anos, esse tempo deu pra eu botar a cabeça no lugar, saí daí traumatizado com a experiência que tive com você. Foi duro suportar tanta humilhação, mas graças a São Jorge eu sacudi a poeira e consegui me reerguer em Sompaulo. Mas até tirar você da cabeça eu engoli muita cachaça, nem sei como não morri de pinga. A primeira coisa que fiz pra começar a me ajustar foi parar de beber e nem pensar em casamento, você me maltratou demais. Eu acho que até hoje tem gente que lembra da sua safadeza, em plena lua de mel você conseguiu me trair com todos os integrantes do bloco dos ‘caçadô’, aquilo foi um absurdo, e gerou o primeiro dos muitos apelidos que ganhei por sua causa: ‘Corno Caçadô’. Foi o caso mais grave de cornitude que ocorreu por aí, se fosse pra matar os ‘Ricardão’ eu teria que comprar uma metralhadora e um caminhão de bala. Mas é isso, em tudo o tempo dá um jeito. Hoje eu tô aqui, tranquilo, em paz comigo mesmo, e na hora que abri uma cervejinha pra prosear com um vizinho, chega uma carta sua… É que apesar das suas safadezas, eu nunca deixei de pensar em você. Noêmia de Noca me deu logo uma bronca, perguntou se eu tava pensando em virar corno depois de velho, porque segundo ela, você me deu o título de ‘rei dos cornos’. Eu até dei risada, mas no fundo ela tem razão… Você só não foi com meu avô porque na época não tinha viagra. Quando a mulher é muito fogosa, o povo fala que é porque tem ‘fogo no rabo’. Você então devia ter um crematório. Teve gente que me contou que você passou a lixa até em Cafezinho, e tia Dulce me garantiu que você chegou a engravidar de Mania, além de ter passado três dias no mato com Vitório Cocão. Resumindo, nem os doidos você deixou escapar. Tem anos que saí daí pra não morrer de vergonha. Agora eu queria saber onde é que você tá com a cabeça pra imaginar que eu poderia cair na sua conversa de que eu fui seu único amor, e de repente voltar logo agora com 75 anos nas costas. Cê tá achando que corno com o passar do tempo acredita em tudo? Se toque, sua piranha velha, graças a você até hoje eu nunca mais consegui ter relação com mulher nenhuma, nas vezes em que tentei, falhei. Era só pensar em você me traindo e pronto, já era… Só estou respondendo sua carta porque me falaram que você está muito doente, e como espiritualista não podia fazer a desfeita de não responder, e principalmente lhe alertar: quando você partir pra outra, não se esqueça de que o Capeta, mesmo tendo chifre, parece que não gosta de ser traído”.

E pra vingança ficar completa, encerrou a narrativa cantando o tema do bloco dos “caçadô”: “Ô, leva eu minha saudade, eu também quero ir”.

Unindo Forças

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 19 ago 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

– Pois é, seu Venâncio. Eu sou filho do deputado Osvaldo e neto do também deputado federal Osvaldo do Pé da Serra… O senhor deve conhecer.

– Ai, ai, ai…

– É o quê, seu Venâncio. Falei alguma coisa que o senhor não gostou?

– Não, meu filho, eu só tava lembrando que um dia jurei que nunca mais ia passar raiva por causa de porra de política. Tô vendo que até sem querer a gente fica retado.

– Retado por que? Meu pai é um dos homens que mais prezam a democracia, como o meu bisavô, que foi o primeiro prefeito daquela cidade que o senhor nasceu.

– Alto la, seu bisavô foi interventor de Getúlio. Prefeito é outra coisa, é o povo quem elege…

– Tanto faz, nós não podemos julgar ninguém sem ter vivido o que viveram. Interventor, prefeito… Dá no mesmo se for para o bem do povo! …Leia na íntegra

Ibicuí-BA

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 12 ago 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Foi numa tarde de 1947 que ele ali chegou, um lugar pequeno, carente de muitas coisas, como todo lugarejo mais distante da capital. Chegava como um presente para a região. Um médico naquela época era sinal de progresso e motivo de alegria para toda a população. Um povo simpaticamente diferente, cujo cotidiano era infestado de acontecimentos interessantes. Um lugar onde todos se conheciam e cultivavam a amizade com mais intensidade. Pessoas que por saberem do quase isolamento com o mundo exterior apegavam-se como irmãos de sangue, uma união que nem o tempo conseguia apagar. Lá nasceram quase todos os seus filhos, e talvez tenha sido ali sua verdadeira faculdade, cujas matérias amizade e respeito ficaram em nossa memória como a única forma de viver bem. Como homem e como médico, deixou-se envolver pela simplicidade dos que dele necessitavam, tornou-se um deles. Olhava-os de frente, nem por cima, nem por baixo. Uma vida compensadora, mas difícil, pois praticar medicina no interior há anos atrás exigia mais da boa vontade do homem do que da técnica de médico. A vida passava, um parto aqui, uma cirurgia ali, e na maioria das vezes essas visitas médicas eram feitas em lugares onde só se tinha acesso montado em lombo de burro, consultas que nunca foram deixadas de lado por comodismo, daí tantos amigos firmes. Homens rudes, filhos legítimos da terra cujo maior orgulho era a honestidade. Uma gente de sorriso difícil, mas de amizade sincera, um povo que sabia agradar e entendia que o respeito é algo que só se adquire através do bem. …Leia na íntegra

Era uma rapaz de quarenta e tantos anos

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 05 ago 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Médici ainda era presidente… Estamos na pensão de Dona Gumercinda, que era madrinha de Teodomiro. Este aproveitava o parentesco pra morar de graça em Salvador sendo mais bem tratado do que os hóspedes que pagavam… Isto é, agora nem tanto. É que o dito afilhado, há cinco anos e meio, passou no vestibular de direito. Quando estava cursando o 1º período na Universidade Federal da Bahia, era tratado como um príncipe, mas já tinha dado o tempo de ter virado advogado e ele continuava lá, um eterno universitário revoltado com o sistema e sustentado pela madrinha que agora já andava pegando no pé, achando erro em tudo que o folgado do afilhado fazia. Mas não era pra menos: cinco anos e meio e nada de diploma, todo hóspede já ficava sabendo que aquele cabeludo com jeito de hippie era o preguiçoso do afilhado da dona da pensão que fazia direito há quase dez anos… Frase grande pra quando se quer falar que o cidadão era um zero à esquerda! Mas ele já estava acostumado a ser olhado assim naquele “universozinho pequeno burguês” da pensão.

Já lá fora… ele era o cara, tinha até comido aquela hippie que vendeu uma pulseira pra Janis Joplin em Arembepe, não era todo mundo que ia ali! Tinha que ser “cabeça”. Edmara “Joplin” assumiu o sobrenome da “amiga”, dava mais charme, a rapaziada encostava pra saber “Por que Joplin?”. Aí ela caía matando. Ela era o máximo, só dava em inglês: “Fóque-me, mailove. Ai laique ferro, gudi, gudi. Ok, Ok. Not para. Ai loviiúúúú”. Teodomiro estava no meio de uma dessas paixões, e se achando o dono do pedaço. Chegava mais de duas da madrugada pra entrar na pensão sem chamar a atenção de ninguém, principalmente da dinda, que passara de fada madrinha a madrasta má. Grudava no seu pé dia e noite, aquele estrupício já devia ter voltado pra casa dos pais em Conquista, mas não, só ia visitar a família uma vez ou outra, até as férias ele passava na pensão.  Ia deixar Salvador nas férias? Tá doido?! …Leia na íntegra

Big Bang

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 29 jul 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Segundo o poeta Affonso Manta: “Esse negócio de mulher, amigo: é caro, perigoso e divertido”.

Clemente acordou assustado e suando frio. Sua mãe, Dona Janoca, logo viu que ele tinha tido outro sonho profético… Tava virando rotina!

– Foi o quê, Clemente? Tá com cara de quem viu assombração.

– Outro sonho daqueles, mãe. Só que esse é muito sério, eu sonhei que o mundo vai explodir e que não vai sobrar ninguém pra contar história.

– Tira isso da cabeça. Desde que o mundo é mundo tem gente sonhando e profetizando que ele vai acabar…

– Mas a senhora sabe que sonho meu sempre se torna realidade. Lembra da vez que eu falei que Cholinha, a cadela de Seu Jaime, ia morrer? Lembra da vez que eu falei que Viriato ia virar a Kombi e não ia ter nada?.. E da bicheira do reprodutor de Etevaldo? Foi dito e certo, no outro dia o cavalo tava bom de tudo. Sonho meu não falha, isto sem contar com prefeito e vereador que eu sonho votando e todos se elegem. …Leia na íntegra

No tempo do ronca

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 23 jul 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Antigamente os padres eram verdadeiros tropeiros, tinham vários animais para carregar os apetrechos pelos interiores mais íngremes fazendo de tudo que a Igreja exigia: batizados, casamentos, missas e até dando extrema unção. Eram verdadeiros heróis, davam de tudo pelo sacerdócio. É claro que tinham lá suas vantagens, mas tinham que ter, eles encaravam viagens terríveis querendo ou não, o tempo podia estar bom ou ruim, lá estavam os vigários na estrada tomando sol, chuva e engolindo poeira pra ajudar as populações mais carentes. Nesse tempo já tinha os aproveitadores que se passavam por médicos, advogados e até por padres…

O causo que vou contar é sobre um falso padre, mas este era diferente, levava tão a sério seu trabalho que já tinha vinte anos de “sacerdócio” e ninguém nunca duvidou, acho que depois de um tempo até ele mesmo acreditava que era padre. O vigário Tonico Teotônio não ficava devendo nada a padre nenhum, sabia tudo sobre religião, além de falar latim. Era um homem de estatura média, mas pesando muito mais do que sua estrutura permitia. Eram mais de 120 kg acomodados em 1,65 m. Os animais que o carregavam tinham que ser escolhidos a dedo, não era qualquer burrinho ou mulinha que suportavam aquele peso. O vigário comia por quatro pessoas adultas, e os moradores dos povoados sabiam e já ficavam preparados para as visitas do reverendo. Engordavam galinhas, porcos, carneiros, etc., tudo que agradava um bom de garfo. Muita gente garantia que o Vigário comia um quarto de leitoa sozinho e ainda “matava” uma rapadura de sobremesa.

E foram esses excessos que desenharam a tragédia envolvendo o padre Tonico. Ele simplesmente desapareceu, isto é, muita gente viu que ele caiu numa fossa. É que naquele tempo as privadas eram artesanais. Faziam um buraco no chão que era coberto com tábuas, e no meio era feito uma abertura para que as pessoas fizessem suas necessidades. Geralmente ficavam separados da residência, era um cômodo a parte. Tinha vários nomes: casinha, bate-pronto, cagadô, etc. Com o tempo, quando o buraco estava quase cheio, eles mudavam a “casinha” de lugar e terminavam de entupir o buraco com terra. E foi depois de comer duas galinhas e um espinhaço de bode que o vigário Tonico sentiu vontade de usar o “cagadô”, só que as tábuas estavam já frágeis, e na hora que o padre entrou o piso desmontou e ele caiu no buraco (fossa).

Era um “bate-pronto” de pensão e esses eram bem mais fundos para atender a grande demanda, o padre sumiu no meio das merdas. Os moradores revezaram pra ver se encontravam o falso vigário, cutucaram com varas durante uma tarde inteira e nada de tocar no corpo do afogado. Aí resolveram que tinham que esvaziar a fossa pra recuperar o corpo, o jeito era tirar de lata… Foi uma trabalheira doida, os voluntários quase desmaiaram quando viram que o corpo não foi encontrado mesmo depois do “cagadô” esvaziado, só acharam a batina e o sapato. Três beatas gritaram de vez: “Foi um milagre, dois anjos levaram o vigário pra ele não ser lembrado como o padre que morreu afogado em merda”. Aí todo mundo foi na onda, só podia ter sido um milagre mesmo. O povo se reuniu e fez uma capela onde era o “cagadô”, o bispo ficou sabendo e mandou derrubar imediatamente. Foi aí que veio à tona que o padre era falso.

As paróquias se movimentaram e comprovaram que nenhum seminário teve um aluno com aquele nome: Tonico Teotônio Terêncio. Mesmo assim, as beatas mais fanáticas não desistiram do milagre nem dos anjos, afinal, mesmo o homem não sendo comprovado como vigário, era gente de Deus e se dedicou muito às regiões carentes de padres… Apesar de a Igreja contestar o falso padre e mandar derrubar a capela, o povão não deixou de acreditar no milagre. Só Seu Miltão, que era ateu e inimigo de chapéu batido de Tonico, analisou o fato de outra maneira: “Não aconteceu nada demais, o homem simplesmente voltou às origens…”. Mas na realidade, Tonico simulou o acidente ao saber que a Igreja ia desmascará-lo e fugiu pra São Paulo, onde viveu muitos anos como “médico”.

A baleia

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 15 jul 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Eu nem cheguei a ver esta baleia, acho que nem era nascido, mas escutei meu pai e Zé Pedral comentando e dando risada deste fato, e a tal exposição realmente existiu…. Foi numa época em que a Pituba ainda era estação de veraneio para os moradores de Salvador. Aconteceu que uma baleia encalhou nas praias da Pituba e acabou morrendo. Pra quem morava na beira do mar, a baleia só chamou a atenção por alguns dias, foi muita gente ver o animal encalhado, mas na visão de um empresário e empreendedor aquilo era uma mina de dinheiro. Belmiro teve a brilhante ideia de colocar a baleia na carroceria do seu caminhão e entrar pelo interior mostrando o bicho para o pessoal que nunca tinha visto um “peixão” daqueles, ia encher os bolsos de grana. Investiu pesado: comprou a lona de um circo que quebrou em Sergipe, tinha que cobrir o caminhão e a baleia, senão quem iria pagar ingresso? Causaria impacto em muita gente que nunca tinha ido ao litoral e nem imaginava que chegaria a ver o maior dos animais do planeta sem sair do interior. Ele começou sua jornada para mostrar o “Monstro dos Mares” pelo interior da Bahia, seu plano era chegar até o norte de Minas e quem sabe até Belo Horizonte, só que ele esqueceu de um pequeno detalhe: baleia também apodrece!

Em Feira a bicha já tava cheirando mal, mas dava pro pessoal encostar. Quando chegou em Jequié o fedor já espantava gente, ainda assim dava pra expor. Parou em Poções só pra remendar a “bichona”, usou pedaços de lona para tampar os buracos que já apareciam com a decomposição. Teve até um poeta de lá que escreveu um verso que ficou famoso na época: “A BALEIA NADA, NADA, NADA, NADA E NADA…”. (E olha que nessa época nem se falava em minimalismo). Quando chegou aqui em Conquista já tava com um cheiro insuportável, mas mesmo assim foi exposta na Praça da Bandeira.  Fedeu a cidade toda, o prefeito mandou Belmiro ir embora com aquilo no mesmo dia, o cheiro tava de matar. Quando chegou em Minas a polícia o obrigou a voltar ou a dar fim naquela coisa tão fedorenta, foi o jeito enterrar a baleia. O dinheiro que ganhou foi todo embora com a empreitada pra cavar um buraco e enterrar o animal. Só ficou o apelido: Belmiro Peixe Podre.

Só não sei exatamente onde foi o enterro, mas foi até bom escrever isso pra servir de alerta: se por acaso algum arqueólogo encontrar a ossada da baleia que foi enterrada no norte mineiro, não vá deduzir que aquilo é uma prova concreta de que Minas já teve mar. Foi só um empreendimento que não deu certo. Se você conquistense tiver algum parente beirando os noventa, pergunte pela baleia. Dr. Ruy Medeiros, que é historiador, deve saber desse causo mais detalhadamente, deve até ter tirado uma fotografia da “baleiona”…

Clarivaldo Trincheira

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 08 jul 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Quem viu tudo foi seu Pedro, apesar dos seus 97 anos e as vistas curtas o seu depoimento era a única pista da polícia. O velho foi testemunha ocular de um crime: ele só sabia que o matador era pequeno. A polícia prendeu uma cacetada de baixinhos, mas foram todos liberados por falta de provas. As investigações continuaram com a prisão de um anão fisioterapeuta, mas este tinha o álibi que nesse dia estava massageando a coluna de Abinal na Rua da Granja. Passou o dia todo friccionando a região lombar do butequeiro, muita gente viu. A polícia arquivou o caso e a família do morto apelou para Clarivaldo Trincheira, investigador profissional e competente formado por correspondência cujo único defeito era não gostar de tomar banho. Tava ruim pra Clarivaldo, um caso simples pra sua capacidade e ele dependendo de uma testemunha quase inválida. Pegou o endereço da vítima e partiu na sua Rural afim de achar uma pista mais nítida. …Leia na íntegra

O aniversariante

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 03 jul 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

A família tava toda curiosa, é que um tio que morava no Paraná há mais de 50 anos resolveu que tinha que comemorar seus 85 anos aqui em Conquista, sua terra natal. Dos parentes daqui a maioria nem tinha conhecido Tio Norberto, só Dona Beatriz, três anos mais nova que o visitante, conheceu pessoalmente o parente que estava retornando. Ela chegou a comentar com os filhos, netos e bisnetos: “O que aquele traste vem fazer aqui, aquilo já era chato quando novo, imagina agora! ”. O pessoal não levou a sério, Dona Beatriz implicava muito com os parentes. Seu Norberto, apesar da idade, ainda estava lúcido e forte, segundo os primos do Paraná. Isso já era um conforto para os daqui, pelo menos não iriam ter que tomar conta dum velho caindo pelas tabelas durante um mês, tempo que ele mesmo determinou que passaria na terra do frio… A família foi recebê-lo no aeroporto no dia marcado, e ele foi o último a descer do avião, acompanhado por dois funcionários da empresa aérea. …Leia na íntegra

Fogueiras e bandeirolas

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 17 jun 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

A rua já estava toda decorada 24 horas antes da véspera da noite de São João, o pessoal da Granja sempre gostou de forró, todo mundo colaborava para o sucesso da festança, era bom demais! A gente bebia e comia tudo que tinha direito e não gastava quase nada. Tinha fogueira de todo jeito, só dependia do bolso do festeiro. Mas nem que fosse uma fogueirinha de nada, tinha que ter. Só que teve um São João que a alegria foi quebrada com um problema seríssimo: é que escolheram a maior e mais ornamentada fogueira da rua e deram uma cagada tão descomunal que parecia que tinham jogado de pá. O pessoal ficou na dúvida se era de gente ou de algum extraterrestre cagão. Do jeito que ficou, nem pegar fogo ela ia pegar. Não dava pra secar até o dia 23 (isto aconteceu um dia antes). E o safado além de fazer o serviço pesado ainda usou uns 10 metros de bandeirolas pra se limpar. O dono da fogueira era muito conhecido pois adorava festa e era um cabo eleitoral fortíssimo, vereador que ele apoiava podia se considerar eleito! …Leia na íntegra

Politicamente incorreto

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 03 jun 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Tudo era festa na vida do prefeito Onorino Pranchão e de seus seguidores. Ninguém incomodava nem se metia na administração da velha raposa política. Já tinha tentado morar em Brasília diversas vezes, mas nunca conseguiu os votos suficientes para se eleger, sua região mal fazia um deputado estadual! Devido a esse pequeno problema, Onorino apesar de se julgar um gênio político, nunca conseguiu destaque além de seus domínios. Como vereador se destacou com um projeto para racionamento de água, lançou a campanha “Só dê descarga em serviços pesados”. Ele achava um desperdício dar descarga em mijo. Por isso o velho político estava se despedindo da vida política como prefeito de sua terra natal, ali ele podia descansar sem a interferência dos abelhudos da esquerda. Estava coberto: os veículos de comunicação pertenciam aos seus parentes, dali não saía uma vírgula contra a sua administração. Como a equipe de funcionários era composta só por parentes ele, para evitar burocracia, recebia o total e distribuía as mesadas. Nunca ninguém reclamou… aliás, teve Nôzim que achou ruim, mas logo foi transferido da Secretaria de Saúde para a portaria do cemitério. Depois disso ninguém nunca mais fez queixa da mesada. Onorino era um homem de poucas palavras, gostava mais de refletir… Teve uma vez que invocou que foi um grande líder numa encarnação passada, se impressionou tanto com isso que resolveu ir fazer uma consulta esotérica na capital, recorreu à hipnose para voltar a vidas passadas. Ninguém teve acesso ao resultado final, mas segundo as más línguas, depois de hipnotizado Onorino começou a relinchar e quebrou o consultório todo no coice. Isso eu não sei se é verdade… só sei que o jornal da cidade deu o furo dizendo que o prefeito tinha amansado o cavalo de São Jorge em vidas passadas. …Leia na íntegra

Conquista é poesia

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 27 maio 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Conquista é uma poesia, mas para entender seus versos, é preciso conhece-la. Não é uma poesia comum que a gente lê de bate-pronto, entende e torna a esquecer. Ela é leitura difícil que exige mil artifícios para poder compreender, mas depois de assimilada é impossível esquecer. O seu passado é poesia, mesmo quando veio a fome (seca de 1899) a salvação foi em versos, ela veio com as pombas… O povo já estava desesperado, não havia mais recursos, a fome era vigente. De um dia para o outro milhares de pombas invadiram a Serra do Periperi, fizeram dali um ninho e os ovos por elas produzidos foram a salvação da população carente. As pombas só se foram da serra depois que a chuva voltou a molhar o sertão.

Conquista é poesia, para lê-la é preciso paciência, seus versos surgem aos poucos… Na política houve poesia… Nos idos de 1919 nossa gente estava em pé de guerra pela luta ao poder. Os coronéis é que mandavam, mas quem falou mais alto foi a poesia que se incorporou na parteira Laudicéia Gusmão. Ela pegou um rifle papo-amarelo, um instrumento dos coronéis, pendurou um lenço branco na ponta, atravessou a rua principal, reuniu os coronéis responsáveis pela luta e exigiu PAZ, evitando uma tragédia de grandes proporções.

Tenho para mim que um dia a poesia Mongoió vai se destacar. É que ela é meio lenta, não sei se por culpa dos órgãos culturais ou se é o tempo que aqui demora a passar. Mas um dia, tenho certeza, todo mundo vai saber que aqui viveu Maneca Grosso, um poeta genial que viu Conquista “Do Cimo do Morro da Tromba”. Viu e sentiu como ninguém, e quando o cito como pacifista é porque julgo que só um homem de paz responderia em versos a surra que lhe causou a morte. Conquista é terra de poetas: Camilo, Íris Silveira, Jesus Gomes, grandes poetas! Conquista é tão mágica que quem por aqui passa, sempre volta. Nosso principal ponto turístico é a personalidade de nossa gente, nós sabemos agradar de acordo o agrado. Aqui não se dá o outro lado da face para ser esbofeteada, e tenho certeza que Cristo entende essa nossa atitude. É que aqui é muito frio, e se um tapa de um lado já dói, imagine receber dois tapas! Gosto tanto de Conquista que às vezes sinto falta até das coisas que não vivi, como o “Magassapo” poeticamente descrito por Camilo, ou o “Velho Mulungu” que levou o poeta Erathóstenes Menezes a dedicar os versos que se tornaram antológicos em nossa literatura (Nem o poeta nem o pé de Mulungu são de Conquista, mas a inspiração de Toti é genuinamente Conquistense): “Buscando a tua sombra, a evocar o passado, a ti eu me comparo, amigo abandonado. Tu já não tens mais vida –  eu já não canto mais”. 

Conquista é poesia… ela é tão sensível que todo fim de tarde seu céu fica corado de saudade pelo dia que se foi.

O gigante adormecido

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 06 maio 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

 


Este causo aconteceu num tempo em que ainda não se vendia tesão nas farmácias…

Abdias saiu arrasado do Magassapo, nem a saideira que costumava beber no puteiro ele tomou. Tava nervoso e cabisbaixo. A “moça” até tentou dar uma força mandando ele se acalmar, aquilo era normal, outro dia ele voltava e quem sabe o seu gigante adormecido reagia. Isso o deixou mais retado ainda, fez ela jurar que não ia contar pra ninguém, pagou até mais do que o combinado praquele segredo jamais ser revelado. Caso ela contasse seria o fim de sua fama de bom de cama. Ele chegou empolgado ao Magassapo, ficou sabendo lá no Departamento que tinha uma nova beldade de fora que levantava até defunto. Teve que inventar uma desculpa bem convincente pra que Dona Filomena nem desconfiasse que ele ia passar a noite no brega pra conhecer a novidade e manter sua fama de garanhão. Falou pra esposa que ia dormir na casa do patrão pois este tinha viajado a negócio e não podia deixar a casa sem ninguém. A esposa acreditou na hora, sabia que ele era o homem de confiança do patrão, o único que o Dr. Confiava em deixar a chave da casa. A mentira colou bem. …Leia na íntegra

Conquista transcendental

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 29 abr 2017

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Passam vários santos em nossas vidas… pessoas que enxergam em nós o que nunca conseguimos ver. Anjos, santos e querubins que quando não tinham em quem se apoiar eram taxados de loucos, putas ou bandidos. Para ser conquistense não é preciso nascer aqui, basta se apaixonar pela cidade. Tem muito cidadão parido aqui, mas felizmente não é daqui. Contudo, ninguém tem culpa de não poder transcender. Convivi com muita gente acima da média, tão acima que chegava a disfarçar… Um disfarce tão perfeito que eu só vim ver mais nitidamente agora, já começando a descer a ladeira. Conheci grandes poetas que nunca escreveram um verso, convivi com escritores que nem sabiam ler, mas eram tão geniais que bastava assimilar suas ideias para entrar no enredo de seus versos e histórias.

Conquista é linda graças à energia desses anjos que por aqui sempre andaram sem nem serem notados, tão apaixonados por nossa cidade que até quando partem deixam toda a energia positiva pairando na terra do frio. De vez em quando eu vejo um passar voando. Nossa Conquista tem a magia de atrair estas legiões que preferem sobreviver no “anonimato”, criando, ajudando, fazendo de tudo para agradar a quem, como eles, amam esta terra. Indiferentes aos que se sentem melhores, que olham de cima pra baixo, sendo que eles que sabem até voar só olham as pessoas de frente. Mas não quero falar do outro lado, estou falando dos anjos, santos e querubins que habitam Vitória da Conquista desde sua fundação… Espíritos livres… Gente! Descendentes diretos de uma santa caatingueira que se apaixonou por um índio mongoió que morava no Poço Escuro e sabia voar.