Atrás do trio elétrico

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 17 fev 2018

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Por Nando da Costa Lima

Dr. Uoston, por insistência da mãe, foi passar o Carnaval em Salvador. O filho só pensava em trabalho, um rapaz de 28 anos não podia viver daquele jeito. Era de casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Não tinha tempo nem pra namorar, e pelo visto ia morrer solteirão, mesmo que pretendentes não faltassem. Mas ele sempre se saía com o famoso: “Sou casado com a Justiça”. O pai do Dr. era um líder político conhecidíssimo, já tinha sido prefeito várias vezes e indicou Uoston pra ser seu herdeiro na política também. Já ia receber o prato feito! Na certa viraria deputado, pelo menos era o que a família imaginava. Só dependia dele.

A viagem pra Salvador foi pra relaxar, num ano de eleição ele tinha que subir no palanque desestressado. O pai nem desconfiava que o filho único era gay, às vezes sua mulher tentava explicar mas ele mudava de assunto rapidamente. Era homofóbico até os cabelos do bigode, quase se separou da mulher só porque ela disse que ninguém escolhe o jeito pra nascer, ninguém vira homossexual, já nasce assim. Mas o marido sempre cortava falando que não passava de descaração. E se ela pensasse de outra forma que arrumasse as malas e fosse embora. O político nem imaginava que sua mulher incentivava o filho a sair do armário. Se soubesse, a coisa ficaria feia… …Leia na íntegra

Ristorante Pedaço de Mar

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 10 fev 2018

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Por Nando da Costa Lima

Quando chegaram, pareciam uma tropa… Mas só era o coroné Climério com a família de sua noiva, que a convite dele vieram provar a melhor buchada do Brasil. Tava fazendo aquele agrado ao sogro porque este foi o último a concordar com o casório, achava que Climério não era o homem certo pra sua filha. Os convidados eram tão simples que mal comeram, mas Climério comeu por todos e ainda pediu sobremesa. E foi essa a causa de tudo. Eles estavam no restaurante e dormitório que margeava a Rio Bahia e que era vizinho da fazenda de Climério.
Na saída, ele já sentiu a barriga roncando, e quando foi montar no seu burro de confiança, sentiu uma pontada aguda e deu um peido de responsabilidade, daqueles que melam cueca, calça e sela. O burro chegou a refugar, mas o coitado tava amarrado e teve que se acomodar. Climério voltou de vez, nem chegou a se sentar na sela, voltou no mesmo ritmo e já desceu do burrão esculhambando com o cozinheiro e todo mundo que trabalhava naquela merda de restaurante. A comida tava tão velha que em menos de vinte minutos ele já tava naquele estado, nem o burro tava suportando o cheiro, quase tirou o cabresto! Mas ele como cliente do recém inaugurado cliente do recém inaugurado restaurante “Pedaço do Mar” nem sei porque aquele nome, naquele fim de mundo que só chovia de dois em dois anos, caatingão brabo. Quando ficava marrom o jeito era se picar pra Sompa. Mas foi nesse cenário que o coroné Climério se borrou todo na frente do restaurante, quem tava no local, viu. Foi por isso que o coroné já entrou porta adentro do restaurante com um 38 em cada mão, ia mandar o “miseravi” que fez ele passar aquele vexame pro inferno. Não tava nem aí, ia disparar os dois revólveres na cara do filho da puta que lhe serviu aquela comida estragada. E quem conhecia Climerão sabia que ele não falava pras paredes. …Leia na íntegra

               Cansadérrima…

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 03 fev 2018

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Por Nando da Costa Lima

Neusinha sempre se destacou,desde menina sonhava com o estrelato, queria ser atriz. Como não deu certo, por causa de sua voz estridente, foi o jeito se casar com o prefeito e se tornar primeira-dama. Tá certo que o casamento foi arranjado. Casou com aquele caco-velho por uma questão de interesse, mas valeu a pena. Com o tempo ela descobriu que nasceu para ser mulher de político, adorava um conchavo, e não pode se negar que as quatro últimas campa­nhas só foram ganhas graças a sua participação. Fazia de tudo pra conseguir votos pro maridão, no Natal distribuía remédio com a data vencida. No S. João fazia o mesmo, só que em vez de remédio dava comida estragada, era o exemplo de caridade da cidade. Neusinha já tava beirando os cinquenta anos, e se quando nova já não era lá essas coisas, agora ti­nha virado um bucho. O que tinha de feia tinha de convencimento. Era um castigo para os políticos que tinham que entrar em contato com o prefeito, sem sua permissão nada se resolvia naquela pro­gressista cidade da caatinga baiana. …Leia na íntegra

Um causo de amor partido

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 21 jan 2018

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Por Nando da Costa Lima

Deoclécio estava irritadíssimo, mas não era pra menos. Logo Marilourdes, que pregava nos quatro cantos da cidade que era apaixonada por ele, foi fazer aquilo. O amor entre os dois parecia indissolúvel, até nas “caçola” Marilourdes mandou bordar “D” de Deoclécio e o “M” do nome dela. Todo mundo achava a coisa mais linda. Deo já tava com mais de uma semana de cachaça, só fazia isso! Tava de dar pena… Mas a safada da noiva foi dar pro cantor da boate dentro do banheiro das mulheres. O caso se tornou público e Deoclécio acordou com aquela sina que com certeza o acompanharia por toda vida.  Sua amada noiva deu pra Jerry Bocão, o cantor da banda de forró Amansa Corno. O local que a safada escolheu tornou o caso ainda mais escandaloso. No banheiro da boate, aquilo não era coisa de gente que se preze! Foi uma desfeita tão grande que ele quase virava padre, nesse tempo ainda se entrava pro seminário quando se tinha um grande desgosto! Mas ele era muito macho pra se esconder atrás de uma batina só por causa de uma piranha safada que o traiu com um cantor de terceira. Ele não ia dar o braço a torcer, ia dar a volta por cima e mostrar pro resto da cidade que quem saiu perdendo foi ela…

Tomou logo um banho de loja e se picou pra capital pra esfriar a cabeça. Tava ficando paranoico, não podia ficar só que lhe vinha em mente sua ex-noiva toda pura dando uma rapidinha num canto duma boate, que por acaso era sua. Tá certo que qualquer um pode levar chifre, mas nos anos 70, numa cidade pequena… era foda! E ele era o rei do pedaço, pegava toda menina que se sobressaía. Era um galã na época. Porte atlético, vozeirão, bonito, mas caiu na infelicidade de se apaixonar pela mulher errada. Era o jeito passar uns seis meses em Salvador pra tirar a urucubaca e voltar botando pra lascar. Não seria Deoclécio “comedô” que ficaria chorando pelos cantos só porque tomou um corno, o negócio dele era dar a volta por cima. Marilourdes já tinha caído na real, sabia da besteira que tinha feito. Aquela porra de cantor nem trepar sabia, ô tempo perdido! Mas naquelas alturas do campeonato não tinha santo que podia ajudar a noiva arrependida. Quem tentava acalmar a moça a encontrava abatida e chorosa, mostrando o enxoval completo vindo da Zona Franca de Manaus… Segundo os mais chegados, ela ia acabar morrendo, pois não comia nem dormia, a única coisa que consumia era água. A tragédia tava traçada: De um lado, uma noiva arrependida falando pros quatro cantos que ia se matar se perdesse Deoclécio; do outro, o noivo que estava irredutível. Com aquela piranha de banheiro ele jamais se casaria. E não ia dar certo mesmo, os pais de Deoclécio ameaçaram deserda-lo caso ele voltasse a conviver com aquela puta de boate. O povo só falava daquilo, e Deoclécio deu uma entrevista na rádio falando que ia abandonar aquela cidade que lhe causou vergonha. Ninguém mais respeitava o “pleiboi”, onde quer que passasse alguém logo gritava: “Lá vai o corno do banheiro!”. Ele já nem mais rebatia a grosseria! Um filho de família tradicional na política local não podia nem pensar em retornar pros braços daquela vagabunda.

Então, como já foi dito, Deoclécio foi pra Salvador mudar de ares… e ela lá, jogada em cima do enxoval e chorando dia após dia. Tava de dar pena! Mas não tinha jeito: deu dentro do banheiro! Se fosse um europeu podia até ser perdoada, mas um catingueiro, criado com carne de bode não tinha perdão, ia ficar marcado pro resto da vida. Só se casasse e mudasse pro Japão. Mas nem isso faria a cidade esquecer aquela safadeza que chamou tanta atenção por envolver dois jovens de famílias importantes. Era tido como certo que nos próximos anos ele seria prefeito e ela a primeira dama da cidade, um casal lindo. Pra aliviar as coisas, a família a levou numa psicóloga que relatou que era um caso seríssimo e quase incurável, até hoje na história da Medicina não se encontrou a cura para tal mal. Até o termo para se referir à doença foi a doutora que criou: “Psicopiranhisse Banherofóbica”. O paciente portador desse mal só sente prazer se transar em banheiros.

E assim a família se livrou de ter uma piranha na casa, aquilo não passou de uma crise psicótica. Quanto a ele, passou um tempo na capital e voltou casado pra se candidatar a prefeito na próxima eleição. E Marilourdes vivia pelas ruas jurando pra todo mundo que encontrava que nunca mais trairia seu homem… Endoidou de tudo. Ficou louca de paixão… E isso até ajudou o ex-noivo a crescer na carreira política.

Pescando Piranhas

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 13 jan 2018

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Por Nando da Costa Lima

Eram amigos há mais de trinta anos, todos na faixa dos sessenta, apesar de divergirem em vários pontos e serem profissionais em áreas diferentes, tinham algo em comum: eram fanáticos por pescaria e adoravam piranhas (dos dois tipos). Todo final de ano tinham um programa que era sagrado, deixavam as esposas em casa e ficavam um mês na beira do rio São Francisco, era o mesmo que estar no céu. A pescaria do grupo era famosa na cidade, eles levavam de tudo: fogão, geladeira, cozinheiro, enfermeiro. Eram dois caminhões carregados de mordomias, mas o melhor que eles levavam eram as putas, estas eram escolhidas a dedo no decorrer dos dois mil quilômetros percorridos do lugar onde moravam até o local da pescaria. Passavam por uma meia dúzia de cidades, só entravam nos bregas pra fazer a seleção, e continuavam a viagem. Quando chegavam ao local da pescaria a festa era geral, o pessoal já sabia que era um mês de festa, tudo do melhor, comida, bebida e principalmente mulher bonita e safada. Os nativos passavam bem, os pescadores de fim de ano dividiam tudo com eles, e olha que era um mês de orgia. Uma vida que todo mundo deseja! A volta era sempre triste, mas levavam na bagagem recordações para o resto do ano. …Leia na íntegra

Conquista Assim Tudo Começou

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 06 jan 2018

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Por Nando da Costa Lima

A mata estava nublada, não dava pra enxergar um palmo adiante do nariz, o frio gelava os ossos, mesmo cansados e congelados os homens continuavam a caminhada mata adentro, o capitão mor tinha dobrado o pagamento para que aquela empreitada se realizasse antes do sol nascer. Tinham que acabar com aqueles índios que estavam impedindo a entrada da civilização na melhor faixa de terra do planalto. Eram as terras dos mongoiós, uma gente pacífica que apenas reagia às invasões de sua terra, só queriam permanecer no lugar que era seu por direito , eles estavam a mais de uma légua da grande aldeia justamente para impedir a entrada dos desbravadores, estavam em maior número , mas as armas usadas pelos brancos desequilibraram a batalha. Era tanto índio , que os clavinotes explodiam de tanto serem recarregados. A briga foi feia, o mestre de campo quando viu que seus homens estavam fraquejando, prometeu ajoelhado que construiria uma capela naquele local, pra Nossa Senhora das Vitórias, se eles derrotassem os índios. O resto  do pessoal se contagiou com a fé do chefe, lançaram mão dos facões e decidiram a batalha no combate corpo a corpo, a luta foi penosa, mas eles saíram vitoriosos. Os índios que não morreram foram capturados.

Para Taipi, teria sido melhor que fosse morto.  Depois de capturado, ele teve que ajudar a construírem uma capela no lugar que seus irmãos foram aniquilados. Aquelas matanças  não entravam em sua cabeça, por quê aquelas perseguições do branco. Eles deviam se bater com eles que vivem pra combater, nós Mongoiós somos descendentes dos Tupinambás. Somos como onças, só reagimos quando acuados.

Com o tempo, o mestre de campo cumpriu o prometido, conseguiu tomar a grande aldeia mongoió em menos de um ano. Os índios reagiram, mas logo cederam, era um povo tão pacífico que achou melhor  tentar viver servindo o invasor, os que não concordavam com a submissão fugiram pra margem do rio Pardo.

Onde era a aldeia mongoió, nasceu o Arraial da Conquista. Iniciaram logo a construção da igreja para Nossa Srª das Vitórias, protetora dos fundadores da vila. Taipi já tinha mais de dois anos a serviço dos brancos, agora ele carregava pedra para construção da igreja. Um dia ele se revoltou, tinha que vingar-se daquela situação, seu povo não podia continuar vivendo como escravo, aquilo parecia até vingança dos deuses por eles serem pacíficos demais. A vingança de Taipi demorou de ser notada, ele atraía os homens brancos que trabalhavam na construção da igreja para dentro da mata e lá matava os invasores. O capitão mor descobriu o plano a tempo, como era um homem experiente,  em vez de procurar o responsável, promoveu uma festa para todos os índios que viviam em volta da vila.  Comida e bebida tinham de fartura, a mesa grande foi armada junto ao alicerce da igreja em construção. Quando os índios ficaram completamente embriagados, o mestre de campo cercou-os com homens armados e deu ordem de fogo. Foram poucos que escaparam, os que não morreram de tiro, morreram envenenados pelo aguardente.

Taipi escapou com vida, já estava “domesticado”, foi poupado por ser útil na lavoura. O pior foi enterrar os mortos do massacre, foi muito triste ter que enterrar seus irmãos de sangue no alicerce da igreja feita em louvação à protetora dos seus exterminadores. Ele nunca tinha visto Nossa Senhora, mas achava que ela não se dava muito bem com índio, mongoió então, nem se fala…

Estava triste, seu povo desaparecia junto a mata, morriam na mesma proporção que derrubavam as árvores. Desesperado e só, Taipi se sentia o último dos mongoiós, seu único desejo era sumir dali. Ninguém do arraial o viu sair no meio da noite , parece que criou asas e fugiu pras matas ainda virgens do Catolé Grande.

 

P.S. Não podemos julgar as atitudes dos homens sem ter vivido sua época.

Réveillon

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 30 dez 2017

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Por Nando da Costa Lima

A festa estava como sempre foi em reunião de fim de ano. As mulheres de um lado exibiam as joias e distribuíam simpatia, as mais extrovertidas exibiam os conhecimentos gerais! Do outro lado os homens, todos com ares de donos do mundo discutindo a crise econômica, todos com um plano infalível! O cheiro de perfume “francês” combinava com o “whisky” servido. Todo aquele material falsificado entrava em harmonia com a falsidade das pessoas. Formava um clima tão artificial que parecia encenação! A coisa tava tão feia que até os enfeites de fim de ano desejando felicidades eram em inglês, e todos os convidados estavam usando chapeuzinhos de papel daqueles que a gente pensa que só tem em réveillon de americano.

Wellington Jr., filho pródigo do casal anfitrião tinha acabado de chegar de uma temporada de 6 meses nos Estados Unidos da América, estava a antipatia em pessoa, só falava em inglês e sentia dificuldades em entender o português. Dayse, a filha mais velha, contava seu dia na faculdade de psicologia, e como toda futura psicóloga, estava apaixonada por Freud, tinha uma explicação freudiana para tudo, inclusive para sua tara por adolescentes e seu hábito de nunca usar calcinha. Uma madame ficou entusiasmada com as ideias da futura psicóloga e resolveu imitá-la ali mesmo. Tirou sem a menor cerimônia e lançou no meio da sala aquela “caçola” imensa, era verde oliva, parecia uma barraca de escoteiro. Mas todas as outras, inclusive o decorador Kiko Saint’ Paula Star vindo de Jequié especialmente para decorar a festa, acharam chi-quer-rí-ma a atitude da madame Laurinha. Até aplaudiram! Mas isto não vem ao caso, o importante é a festa: a anfitriã fazia questão de reclamar dos empregados da casa em frente aos convidados. Não sei porque a maioria delas agem assim, dão ordens como verdadeiras rainhas medievais: parece que acham “chic” serem grossas. …Leia na íntegra

Boi, boi, boi…

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 23 dez 2017

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Por Nando da Costa Lima

Qualquer um pode se dedicar ao “puxassaquismo”, mas pra ser puxa-saco de político o cidadão tem que ter dom… Tem até PhD nessa arte!

– Pois é Ermígio, o menino nasceu no mês passado e até agora a gente não escolheu o nome nem o padrinho, tá na hora de resolver. Eu não quero que meu filho fique “passado” igual Averaldinho de dona Julinda, você sabe que menino pagão atrai coisa ruim. Estou pensando em chamar Dú de Zinha pra ser padrinho, é nosso amigo há anos! Tirando a cachaça não tem pessoa melhor.

– Espera aí mulher, vamos com calma. Tá certo que está na hora de batizar o menino, mas só que o padrinho deve ser outra pessoa, não é que eu tenha nada contra Dú de Zinha, o problema é que o homem é comunista de chapéu batido e eu sou um político de direita…, vai pegar mal. Além do mais tem aquela velha história que comunista come criancinha…, eu até pensei que fosse lenda, mas não… …Leia na íntegra

A “véa” da Rua do Gancho

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 16 dez 2017

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Por Nando da Costa Lima

Eu não posso afirmar com absoluta certeza, mas é claro que eu acredito. Esta história eu escutei contada pelo filho mais velho de um dos muitos senhores que tiveram o desprazer de ter contato com essa assombração. Tem gente que diz que Tio Pedro Moreira chegou a fotografar a aparição, mas infelizmente o filme queimou. Esta “véa” aparecia na Rua do Gancho mais ou menos na mesma época em que teve uma chuva de piaba na Praça do Jenipapo (hoje a Praça Vitor Brito). Essa chuva também é muito questionada, é que no início o povo falou que da chuva só caiu piaba, mas o tempo foi passando e teve gente que viu chover até traíra de 4 quilos ou mais. Isso nem vem ao caso, foi só porque coincidentemente aconteceram dois fatos pitorescos mais ou menos na mesma época!

Pois bem, a “véa” só aparecia pra quem tinha carro. A miseravona era elitista, naquele tempo só quem tinha carro eram os mais abastados: fazendeiros, profissionais liberais e os nossos eternos heróis das estradas, que são os caminhoneiros. Como já falei no início, foi Delcindo Neto que me contou o aperto que seu avô passou na Kombi “cortinada” que ele tinha acabado de comprar. Segundo seu neto, o velho só não morreu porque lembrou em tempo de rezar um credo de trás pra frente. Quando a “véa” começou a aparecer, muito homem valente passou a ir pra roça sempre acompanhado. Se passasse pelo Gancho sozinho, não andava 100 metros que sentia a presença da “véa”. …Leia na íntegra

À margem da história

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 09 dez 2017

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Por Nando da Costa Lima

O povoado todo esperava a chegada do príncipe, era coisa rara um nobre visitar aquelas para­gens no início do século XIX. O vigário já não se aguentava, ia completar seis horas que não tomava uma, estava sóbrio até aquela hora, porque era o único que tinha formação pra receber uma figura tão ilustre. O príncipe atrasou 3 dias, quando chegou encontrou o pa­dre pisando na bainha da batina, tava tão bêbado que o Vossa Majestade demorou cinco minutos pra sair, quan­do saiu foi acompanhado por uma chuveirada de cuspe que lavou o rosto do visitante. “O bafo indicava que o vigário apreciava bebidas fortes”. Em seguida convidou Vossa Alteza para fazer um bacanal com umas índiazinhas que ele criava — A realeza ficou indignada, recu­sou-se energicamente — O padre ficou meio sem graça, fechou a cara. Mas quando o príncipe, pra mostrar que estava irritado, colocou a mão na cintura e começou a bater o pé, o reverendo animou-se e olhando pra bunda do nobre falou com cara de vitorioso — Se o caso de Vossa Alteza é outro não tem problema, eu também tenho um “indião” só pra pagiar europeu em excursão. Aquilo foi o fim para o nobre visitante, nem quis ficar hospedado na casa daquele tarado, ficou tão nervoso que fez uma carta pro governador esculhanbando com o pa­dre, aqueles não eram modos de receber um estudioso. O príncipe era biólogo, um amante da natureza, estava estudando a fauna, a flora e os costumes dos índios do sudoeste baiano. Como a primeira recepção não foi na­da agradável resolveu seguir viagem antes do tempo e acampar mais adiante. Andaram umas 40 léguas. O no­bre queria distância daquele cachaceiro degenerado, o religioso mais depravado que tinha conhecido na vida. …Leia na íntegra

Os coronéis nunca pecavam

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 02 dez 2017

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Por Nando da Costa Lima

Em memória de Geraldo Sol…, um dos sinônimos de paz.

Década de 20, uma época em que os políticos ainda usavam os “coronéis” para manterem-se no poder. Este conto mostra as esposas de dois coronéis conversando amenidades na varanda de um casarão…

– Pois é comadre, eu não tenho o que queixar do meu marido “Coroné” Balbino. Homem bom tá ali! Católico praticante, segue a bíblia à risca! Até aquela parte que diz que quando alguém bater numa face você deve oferecer a outra, ele cumpriu. Aconteceu logo que a gente casou. Só que o sujeito que fez isto com ele até hoje não pode ver um martelo que chora. Balbino usou da Lei de Talião: olho por olho e dente por dente! Três dias depois mandou seus “camaradas” pegar Manelão e aplicar 20 marretadas em cada mão, não ficou um osso inteiro…

– Matou, comadre?

– Não, só deixou as duas mãos inutilizadas pra nunca mais aquele moleque se meter a besta. Êta homem bom, se fosse um ignorante que não conhecesse as Escrituras, tinha matado…

– E eu não sei comadre, quando meu finado “Coroné” Pacheco morreu ele ficou passando lá em casa toda noite, sempre levava alguma coisa pra afilhada, você lembra? Às vezes até pernoitava pra proteger a gente.

– Como é que eu ia me esquecer comadre?! Aqueles fofoqueiros espalharam no povoado que meu Balbino tava querendo namorar com a comadre. Mas cê viu no que deu… …Leia na íntegra

Moranga, Magassapo e Mamoneira

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 25 nov 2017

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Por Nando da Costa Lima

– O senhor entendeu errado, seu Miguidônio, eu não quis falar que o senhor era especialista em puteiro, eu só disse que o senhor sabia tudo sobre os puteiros do passado de Vitória da Conquista.

– Mas eu sei porque sou um estudioso do assunto, e eu só cheguei a frequentar o Magassapo e a Mamoneira. A Moranga eu só sei que existiu porque meus tios falavam sempre. Tinha um bar de um sujeito que era conhecido por Javanês. Não sei se ele era da ilha de Java, ou se assumiu a cidadania inspirado no conto de Lima Barreto. Ou até se foi um apelido dado pelos frequentadores da Moranga. Isto fica difícil de precisar porque na região do Planalto é pessoal é muito espirituoso. Às vezes já colocam o apelido pra confundir quem chega… Então, para o senhor não achar que eu fui um frequentador assíduo dos puteiros de Conquista, eu vou lhe contar um caso que aconteceu na Moranga. Como você sabe, é como se fosse uma trilogia: Moranga, Magassapo e Mamoneira. Foi numa época do concurso de Miss Brasil, tava sendo a bola da vez. O Cruzeiro, Manchete, todas as revistas da época só noticiavam esse concurso. Isso sem falar do rádio que ia cobrir o evento e transmitir pra todo canto. Nesse clima, Toni Turco, que era amigo do javanês do bar, resolveu quebrar a monotonia criando um concurso de beleza com as mulheres da Moranga. Teve até urna pra escolher a melhor.

– E quem ganhou esse concurso de beleza, Miguidônio?

– Ninguém! A notícia da tal votação pra escolher a “Puta do Ano” se espalhou pela cidade, as senhoras casadas não gostaram nada… E por isso, no dia do concurso do Turco, numa sexta feira, todas marcaram os maridos corpo a corpo. Não davam uma folga, teve até quem inventou uma viagem só pra tirar o marido daquela afronta contra a sociedade.  “Por que eles não vão fazer essas merdas na terra deles? Junta um turco e um javanês pra desmoralizar o concurso de Miss Brasil e fazer as senhoras da cidade passarem um vexame”. Pois é claro que se não fosse pela interferência delas, os maridos marcariam presença no “evento do ano”, que poderia até virar moda… Naquele tempo o povo era muito “raparigueiro”. Segundo meu tio, já tinha uma novilha cedida pelos fazendeiros, e os comerciantes dariam um radinho “consola corno”. Era pro 1º e 2º lugar do concurso. Mas como eu disse, as donas de casa jogaram um balde de água fria na brincadeira, ninguém pôde comparecer devido a “forças ocultas”…. Só quem ganhou foram as meninas da Moranga. É que a novilha do prêmio foi abatida e distribuída entre as moradoras da Moranga. Quanto ao radinho de pilha, este foi o motivo que abalou a amizade dos dois boêmios: o rádio sumiu! Uns dizem que foi o javanês que pegou pra presentear uma amante, outros falam que Toni perdeu o rádio num jogo… Pra você saber a verdade fica difícil. Até o concurso “Miss Puteiro” tem gente que acha que ocorreu no Magassapo.

– Tá bom, seu Miguidônio, o que o sr. Relatou agora já fica registrado e publicado. Isto se for verdade…

– Ô seu jornalistazinho de bosta, você acha que eu ia sair das “Três Janelas” (o último brega de Conquista) pra vir jogar conversa fora pra macho? Tá se fazendo de besta? Todo mundo de Conquista sabe que Miguidônio Madrinheiro nunca mentiu, só conta história com H…

Os heróis da infância

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 18 nov 2017

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Por Nando da Costa Lima

E há algum tempo atrás, lá na escola Jorge Teixeira, o professor Antônio Moura tava retado com a redação de dois alunos. Aquilo era um pecado, ele pediu pra classe redigir um texto de no mínimo 20 linhas falando quem era o seu herói., ou seja, qual a pessoa que mais influía na sua criação. Foi isso que os alunos não captaram. O professor deveria ter falado que este herói tinha que ser gente. Ainda bem que Leonídio tinha feito uma redação falando que o herói dele era o Super-Homem, quando estava em Conquista, e o Zorro na fazenda. Senão eu ia ficar de castigo sozinho. Sem contar a palmatória, que com certeza seria usada!

A sala toda foi dispensada, só ficou eu e Leonídio. Mas ele tava mais tranquilo, seu pai deu uma vaca leiteira pro professor. Mesmo assim, isso não ia valer muito, Moura tava muito retado. Primeiro deu um sermão de mais de uma hora, falou que a gente devia tomar vergonha na cara, como é que dois jovens vindos de famílias boas não se lembram de falar do pai ou de qualquer outro parente que se destacou como profissional.

– Você, Leonídio, eu até entendo. Você interpretou mal o tema. Quando eu falei “herói” eu não tava falando de super-herói de revista em quadrinhos. Por acaso o Super-Homem já lhe deu algum presente? Já pagou a sua mensalidade escolar? Já fez alguma feira na sua casa? Eu tenho certeza de que ele nunca fez isto para ninguém, e se ele realmente existisse, só ia fazer favor pra americano. Quanto a você, Altamirando, além do castigo você vai ter que escrever mil vezes a frase “Briga de galo foi proibido por Getúlio Vargas”.

Eu ainda tentei argumentar dizendo que tinha visto um criador de galos falar que Getúlio proibiu as rinhas só porque sabia que, dos seus adversários políticos nordestinos, a grande maioria era galista. Uma vez, em Pernambuco, teve uma briga de galo que juntou torcedores de todo o estado. Se eu não me engano, foi no Recife! Aí o professor ficou mais enfezado do que já estava. Pra início de conversa, pegou a palmatória e deu meia dúzia de bolos. E enquanto eu escrevia a bendita frase ditada por ele, eu tomei uma bronca demorada. Isso só porque eu fiz uma redação de 30 linhas elogiando um galo de briga de Seu Vane, que era conhecido por “Rosinha”. Isso quase enfarta o mestre.

Resumindo, o herói de minha infância era um galo de briga! Depois de liberado, eu fui pra casa triste e queixei pra minha, que me deu um cascudo e um beliscão, e perguntou por que eu não falei do meu pai ou do meu avô na redação. Eu não respondi nada. Quando meu pai chegou, falei a mesma coisa. Ele pegou a redação, leu e depois comentou sorrindo: “Tá bom, meu filho. O texto foi bem redigido pra um aluno da sua idade. Não importe com sua mãe, eu nem sei porque ela ficou nervosa, a família dela mexe com briga de galo desde o sec. XIX lá em Pernambuco. Depois que meu pai falou isso, eu caí na real e vi que meu herói estava ali, na minha frente! Professor Moura e minha mãe tinham razão… Mesmo assim, o galo de briga Rosinha ficou sendo o 2º maior herói da minha infância.

O tempo passou e hoje já conheci tantos heróis, gente que só passou aqui pra somar. É claro que tem os “pau de bosta” da vida, mas o brilho dos bons sempre os ofuscou. E também, o jogo da vida, como todo jogo, não tem graça nenhuma sem uma torcida contra. Até os “buda mole” tem que existir! Eles também são parte da engrenagem.

O Cervidae

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 11 nov 2017

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Por Nando da Costa Lima

Seu Nelival tava num dia de poucos amigos. Seu poema, que segundo ele era uma “ode à natureza”, foi desclassificado da final do Festival. Ele só não falou que foi censurado novamente porque, como esta prática foi banida do nosso país, ficava chato afirmar que estava sendo vítima desse crime. Mas nós que estamos de fora temos que analisar olhando não só os poemas, como também devemos ver o lado dos organizadores do evento. Pra ser politicamente correto num país incorreto como o Brasil, é difícil, muito difícil! Esse tipo de argumento também é muito vago. Daí quem cria deve ser o seu próprio censor. Basta ter bom senso! Foi baseado nesse argumento que a organização do Festival de Poesia fez a sua defesa, já que sabendo que Nelival, que além de poeta era militar, ia se achar perseguido.

E foi na Câmara de Vereadores que se deu a discussão! Os prós e os contras lotaram o lugar, o povo só vai lá quando sabe que algum canal de TV está gravando. Mas como o tema era polêmico e havia chamado a atenção do país para o festival (o que já foi bom para os organizadores), tava todo mundo lá. Primeiro falou o advogado do secretário de cultura: “Eu não estou aqui para discutir um problema de censura prévia, isto não aconteceu. O acusador foi desclassificado apenas porque seu poema era bem inferior aos que foram pra final”. …Leia na íntegra

Na casa do calundu

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 04 nov 2017

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Por Nando da Costa Lima

Por ser o nome de uma das músicas de Elomar, ele antes de cantar explicou as diferenças entre calundu e cacoré, falou que eram termos de origem indígena (tupi-guarani). No calundu o cidadão fecha a cara e só abre a boca pra reclamar, resmunga o dia inteiro… Fica de mal com a vida. No cacoré o sujeito fica tão retado que quebra tudo o que vier pela frente. Só para de quebrar as coisas quando não tem mais nada pra destruir. Quebra copo, panela, prato, rádio, e se deixar quebra até gente. Só para de quebrar a casa quando vê que não sobrou mais nada… Aí começa a chorar, fica uns oito dias sem querer ver gente e volta como se não tivesse acontecido nada. Só não concordo com o poeta quando falou que “o calundu vem primeiro, é a fase da ‘enfezação’ ”, e que só depois viria o cacoré pra agravar a situação. E não é exatamente assim.

O cacoré não tem hora pra chegar, pode vir antes, durante ou depois do calundu. E é difícil de se contornar, deveria até ser estudado pela psiquiatria, mas isso deve ter outro nome para os psiquiatras. Acho que todo medicamento tarja preta é remédio pra cacoré ou calundu… Em todo canto se encontra os “calunduzentos” e os “cacorezentos”.

Vou contar um milagre sem revelar o santo, tem que mudar o nome do protagonista, apesar do tempo. Manéu Pedreiro morava no centro e sofria de calundu crônico (tem calundu curável), duas ou três vezes no ano ele tinha uma crise grave. Logo em seguida, atacava o cacoré (tem tratamento, mas não tem cura). Se o seu calundu já era famoso, o cacoré era bem mais. Cacoré é mais sonoro, mais explícito. E Manéu Pedreiro ficava uma pilha de nervos, talvez por isso muito morador de Conquista da época citada ache que o calundu anteceda o cacoré. Todo mundo sabia que quando Manéu “atacava o calundu” tinha que se mudar pra outra casa, numa rua próxima. Lá em um mês ele se retava e quebrava tudo que tinha pra quebrar. Foi ele mesmo quem teve a ideia de montar essa segunda casa, ideia acatada imediatamente por toda a família, até o “loro”! O lugar ficou conhecido como “Casa do Calundu de Manéu Pedreiro”. Quando ele se curava, geralmente não tinha mais nada pra se quebrar, só de rádio tinha uma montanha no quintal, todos cortados ao meio com golpes de machado. Ele sempre implicava com o rádio na hora que seu programa favorito ia passar: “A Hora do Brasil”. O sujeito tinha que ser forte pra partir um rádio no machado.

Passada a crise, a família limpava tudo e ele próprio comprava tudo de novo, da xícara ao rádio. Já ficava tudo pronto esperando a próxima crise de calundu de Manéu Pedreiro, e uma Conquista ainda muito pequena assimilava isto com naturalidade.

Parabéns, Conquista! Novembro é o seu mês. Eu acho que se você fosse gente, seria uma senhora risonha e simpática que adora adotar filhos. Parabéns pelos 177 anos.

Nem dá mais pra fugir pro Guigó

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 28 out 2017

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Por Nando da Costa Lima

Primeiro eles eram vistos com bons olhos até por Getúlio, depois o presidente deu de banda (forçado pelos EUA) e deixou os Camisas Verdes em maus lençóis. Mas era rara a família que não tinha um membro dos integralistas. Apesar de ter muita gente contra, tinha também a torcida a favor: pai, mãe, irmãos, namorada, etc. É claro que não tinham o mesmo status dos militares de carreira, mas não deixavam de ter seus tietes. Era um movimento fascista e tinha uma saudação muito pomposa: o cidadão esticava o braço e largava “Saudações integralistas”. O Anauê parece que surgiu na clandestinamente (só perguntando pra Dr. Ruy Medeiros). Num mundo ainda desconectado, as notícias andavam a passo de mula. Aqui em Conquista, quando se falava em fugir, o pessoal já sabia: “Vou pra bem longe daqui, vou pra lá do Guigó (José Gonçalves)”. Hoje não se pode mais partir pra lá do Guigó, as distâncias diminuíram e o Guigó é logo ali. Mas já foi o esconderijo de todo mundo que queria sumir por uns tempos, principalmente os integralistas (acho que até o Golpe de 64, ainda dava para se esconder por aquelas bandas).

Seu Venâncio, no alto dos seus 96 anos, completamente lúcido e bem falante, chegou na cidade a convite do prefeito para a comemoração do centenário de Seu Abreu Contão, mais conhecido por “Anauê”, que por sinal era avô do dito prefeito. Seu Venâncio estranhou, ele vivenciou a história. Abreuzin Anauê era pouco tempo mais velho que ele, mas ele lembrava de tudo como se fosse hoje. Só não tava entendendo porque a festa prum ordinário daquela qualidade. Dona Janoca, secretária de cultura, explicou pra Seu Venâncio que toda cidade tem um herói, e o herói dali era Abreu Contão, que morreu com uma rajada de balas empunhando a bandeira brasileira. Quando a secretária acabou de narrar o fato histórico, Seu Venâncio (pálido de raiva) retrucou:

– Vocês me fizeram sair da minha rocinha pra vir participar duma mentirada dessas, senta aí dona secretária, pelo menos a senhora tem que escutar a verdade.

E começou a narrar o caso do jeito que realmente aconteceu: …Leia na íntegra

Os atores

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 21 out 2017

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Por Nando da Costa Lima

Todo ser humano tem um pouco de ator. Todos nós, em determinados momentos da vida, temos que representar… Independente de profissão e credo. Advogados, médicos, peões, cientistas, todos usam um pouco da dramaturgia para desempenhar melhor o seu papel. Mas quero falar dos atores de verdade, os profissionais, os apaixonados por teatro, cinema, televisão, circo. Eles são incríveis, mesmo quando ainda não famosos. Acho que de tanto emprestarem o corpo a personagens distintos, eles se tornam pessoas mais compreensivas, mais liberais. E é lógico que, por ofício, são necessariamente cultos (ou nem sempre). O ator dá tudo de si para agradar seu público, é claro que quando são elogiados ou ovacionados, parece que transcendem. Tenho para mim que eles usam os aplausos e elogios como um alimento pra alma… Por isso eu os acho diferentes. O ator também tem aquele lado “médium”, é quando ele incorpora um personagem! E não importa que seja anônimo, quando ele assume pra sociedade que é ator, automaticamente passa a ser ator, mesmo que a maioria das pessoas acrescente um “pequeno” termo pejorativo: “Aquele ator doido…”, ou “Aquele doido metido a ator”. …Leia na íntegra

A boca do povo

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 14 out 2017

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Por Nando da Costa Lima

Foi mesmo! Noé de Denga falou que viu tudo, o coração parou de vez na hora que a última urna foi dada por encerrada e ele não teve nem uma dúzia de votos. Nem falou nada antes de entregar a alma a Deus, só deu um peido e caiu de frente no tapetão do cinema. Foi tão de repente que não deu nem pra apostar em que dia ele ia morrer, como era de costume! Um dia triste, mas Lourival da farmácia falou que o “dotô” disse que se tivesse recebido a notícia de que tinha sido eleito, morreria do mesmo jeito, só que uma vez de tristeza e outra de alegria. Isso eu não posso afirmar, é tudo história desse povo conversador que não gosta de ser citado, antes de contar um fuxico faz questão de frisar: “Não está aqui quem contou”. Mas o fato é que Dr. Arnel bateu as botas ainda novo. Mesmo naquela época, pra um homem “rico”, ele viveu pouco. Morreu com 47 anos, seria como se perdêssemos uma pessoa de 60 e poucos hoje… A vida tá ficando mais bonita, de tão linda se alongou, estamos vivendo mais. Mas para um homem dos anos 1940, quarenta e poucos anos era ser jovem, mas não tão jovem. Um senhor!

Morreu casado, sem filhos, e deixou uma viúva nova e mais jovem do que ele pra gastar a fortuna dos Silva sem ninguém pra se intrometer. O que mais marcou foram os comentários preconceituosos daquela época, os amigos contaram várias versões sobre a morte de um homem rico. Ele falava pouco, não sabiam como foi se “encafifar” com política. Os dois se completavam e ela era 20 anos mais nova, o que pra época também era comum (só para os homens). Mas o fato é que o povo, mesmo não participando em nada da vida do casal apaixonado, comentava sobre eles como se fossem íntimos. E com o comentário do médico, o povo todo começou a supor (inventar) casos que levassem um homem a cair duro no meio da rua. Era como se pra morrer do coração tinha que ter alguma contrariedade. O vizinho do lado direito disse que foi “dor de corno”, já outro disse que foi excesso de sexo, dona Lurdinha era muito fogosa! E depois do boca a boca, a viúva sentiu no velório que ninguém daquela cidade ia entender que seu marido deve ter morrido de alegria, ela nem ia tentar explicar praquele bando de conversador que ficou sabendo que ela estava grávida no mesmo dia que o marido morreu.  O homem fez questão que o pré-natal fosse realizado na capital. Aquele povo poderia acreditar em tudo, menos que ela estava grávida do finado. Ela tinha dinheiro pra se mandar daquele lugar e ter seu filho em qualquer parte do mundo, mas não, preferiu se entregar à religião e criar o menino ali mesmo. Não importava o que o povo inventasse, nada iria interferir na criação de seu filho.

Dona Lurdinha passava mais tempo na igreja do que em casa, foi o jeito que encontrou pra repor a falta do marido. Mas as frequentes visitas ao padre eram pra arranjar uma forma de anunciar pra paróquia que quando o finado partiu ela já estava grávida, senão ela, viúva com a barriga crescendo, seria assunto para mil histórias, e todo mundo querendo saber quem é o pai. E ficou decidido que no final da missa de domingo o padre daria a notícia. E foi com muito jeito que o vigário começou falando que tinha perdido um grande amigo, Dr. Arnel, mas que para sua grande alegrai, ficou sabendo que a viúva estava grávida de três meses e blá blá blá…

No outro dia, no bar do sargento, a aposta já era outra: em que mês nasceria o filho do padre???

A Cruz e a Espada

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 07 out 2017

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Por Nando da Costa Lima

Na primeira metade do século passado (pelo que eu leio e escuto) os homens eram mais espirituosos, devia ser a maneira de passar o tempo, sem a tecnologia de hoje…

A catedral tava um brinco, as senhoras da cidade fizeram questão de caprichar. Todo ano um grupo de festeiras ficava responsável pela limpeza e decoração da igreja matriz nos festejos de sua santa padroeira. Tinha uma missa na saída da procissão e outra na chegada. Aconteceu que na véspera do dia da padroeira da cidade, um burro de carroça morreu ao lado da catedral. Aquilo causou um incômodo geral, o animal logo começaria a entrar em decomposição e isso causaria grandes transtornos. Se fosse um animal menor, o próprio padre teria resolvido com a ajuda de alguns fiéis. Mas era um burro enorme, ali só um caminhão da prefeitura pra dar um jeito, era só jogar o animal na carroceria e dispensar em algum lugar. Nesses tempos a gente ainda usava o termo “vou jogar no mato”. Tudo que tinha pra ser descartado, em vez de ir pro lixo, ia pro mato. E esse seria o fim do bicho, jogariam o burro no mato e os urubus se encarregariam do resto.

Quando o padre ficou sabendo que o burro já estava fedendo, mandou logo o sacristão ir ao encontro do prefeito, que apesar de ser seu adversário político, era o único que poderia dar uma solução para o problema (O sargento iria se sentir ofendido se o padre lhe pedisse auxílio, um revolucionário prendedor de integralista não ia enterrar burro para padre). A festa da padroeira era motivo de orgulho para toda a cidade, principalmente para o prefeito. Só que ele, famoso pelo senso de humor, recebeu o sacristão, ouviu o recado do padre e enviou um bilhete como resposta, sem perder a piada. O padre quase morre de raiva ao abrir o bilhete: “Caro reverendo, é dever dos religiosos dar assistência aos mortos”. Mas pra não sair perdendo, o padre, que também era muito espirituoso, escreveu uma tréplica ao prefeito que tentou desmoralizá-lo, e mandou ele dar assistência a um animal pagão: “Prezado Sr. Prefeito, quando eu pedi pro senhor mandar pegar o burro que morreu aqui do lado da Catedral, o senhor respondeu que era eu, como religioso, quem deveria encomendar o corpo do defunto (o burro). Por isso estou respondendo que nós, sacristãos, antes de fazermos qualquer procedimento com o corpo, temos de avisar à família do morto”.

E na festa da padroeira, só se falava na rusga do padre com o prefeito.

Fidelão ganhou a luta

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 30 set 2017

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Por Nando da Costa Lima

Eram dois dos maiores lutadores do Nordeste, já tinham lutado pelo Brasil todo. Era ter qualquer inauguração de loja, aniversário de cidade, circo… qualquer desses eventos estavam lá Fidelão e Leão do Norte. Ambos fortíssimos e já vinham se enfrentando há tanto tempo que eu acho até que ficaram amigos. Mas é como eu tava falando, se “rolasse um troco” os dois lutadores se encaravam até em batizado. Conquista era bem menor, o ponto mais movimentado da cidade era o Jardim das Borboletas no domingo à tarde. A meninada se lavava, brincava, namorava e brigava… O pior é que quando chegava com um olho roxo em casa ainda tomava um “côro” por ter apanhado na rua. Era a regra, todo mundo admitia!

Mas foi numa Conquista dessa época que um partido resolveu lançar um jovem candidato pra disputar uma vaga de vereador. E nesse tempo ninguém melhor que Pedro Alexandre pra representar a juventude conquistense. Nesse tempo, Dom & Ravel ainda faziam sucesso cantando: “Eu te amo meu Brasil…”. Era uma bestagem só. Mas Pedro resolveu levar a campanha a sério, começou a ler sobre política, participava mais das conversas com a comunidade, mesmo sendo jovem. E como todo jovem, ele chegou pra inovar, ia botar uma porção de ideias futuristas na cabeça daquela velharia. Já tinha gente pagando 3 pra 1 com ele se elegendo. Pedro se empenhava cada vez mais em consertar o Jeep que lhe deram pra fazer campanha e convencer o eleitorado que ele era o homem certo para ocupar um das cadeiras tão cobiçadas. …Leia na íntegra