As cidades deixaram de ser das pessoas para serem dos automóveis

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Publicado por Editor | Colocado em Brasil | Data: 22 maio 2017

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Por William Cruz

As cidades já foram mais humanas. As pessoas se cumprimentavam na rua, mesmo as que não se conheciam. Havia gentileza. Olho no olho, espaços para as pessoas, praças, parques, árvores, aves, flores e sorrisos. Então veio o carro, com tudo de bom e de ruim que ele representa.

Árvores foram derrubadas, rios foram sepultados e as praças e os caminhos foram cobertos por asfalto, o chão escuro e estéril que sinaliza o território reservado para as máquinas e proibido para as pessoas. As que se fecharam dentro do metal e dos vidros escuros começaram a ver as demais – em outras latas vedadas ou mesmo a pé atravessando a rua – como simples obstáculos em seu caminho, atrapalhando seu trajeto.

Não são mais as pessoas que foram um dia. As que estão dentro das bolhas querem chegar depressa a todo custo, maldizendo os obstáculos vivos que lhe cruzarem o caminho. As que circulam livres, têm que cruzar o território estéril sem que as primeiras as vejam, já que aumentam sua velocidade para assustá-las, rugem motores, mugem buzinas, gritam com a borracha no chão áspero: “saia da frente! o território preto não é para você!”

As crianças não podem mais brincar nas ruas, não sabem mais o que é ir de bicicleta até a casa dos amigos, não sabem pular corda e não saem para tomar um sorvete sozinhas. Os novos donos da cidade, vestidos de metal, vidro e fumando combustível, não as permitem.

Esses mesmos novos donos da cidade também têm sua prole, mas poucos percebem a liberdade que foi tomada de seus filhos para que eles próprios tenham seu luxo e conforto. Isolam suas crianças em espaços delimitados, sendo levadas de um espaço a outro dentro dos monstros de metal que vivem no território preto. Fora deles, a criança não pode cruzar essas terras.

As cidades foram feitas para as pessoas. Os carros vieram depois e deformaram os espaços urbanos. Olhe da janela agora e veja quanto espaço das ruas é reservado para a circulação das pessoas e quanto dele está disponível para os automóveis. Se a cidade é feita para a circulação motorizada, a tendência das pessoas será inevitavelmente essa – e o resultado é o que conhecemos como hora do rush (das 7 da manhã às 10 da noite).

Em vez de perceber no que nossa cidade se tornou e contribuir para torná-la um lugar melhor para nós e nossos filhos, usando alternativas ao automóvel sempre que possível, a maioria das pessoas pensa apenas em comprar um carro mais confortável e se isolar dos problemas. Ligar o ar condicionado, fechar os vidros, aumentar o som e ignorar o que está do lado de fora, fazendo de conta que não está lá. Em outras palavras, fugir. Grande solução.

Sua cidade depende de você

Se você cansou de sua cidade, faça o possível para torná-la melhor. Um momento em que seu carro te deixa na mão, por exemplo, pode ser uma oportunidade para ver a cidade de outro ângulo, em vez da viciada experiência de se trancar em um ambiente climatizado e se isolar do mundo e das pessoas até chegar a outro local de confinamento.

Por sinal, foi exatamente o que aconteceu comigo: em um dia que o carro quebrou, resolvi usar a bicicleta para ir ao trabalho e vi que não era tão complicado quanto parecia. Foi aí que tudo começou a mudar. A cidade mudou para mim, e eu mudei para a cidade e para os que estão à minha volta.

Não podemos viver confinados em bolhas de metal. As ruas são suas também. Saia a pé, sinta o sol, olhe para o céu. Há quanto tempo você não repara nos formatos das nuvens, no som dos pássaros e nas plantas que insistem em nascer em qualquer buraquinho da calçada, resistindo à petrificação da cidade?