Tira o nome da avó do meio

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 16 mar 2019

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Por Nando da Costa Lima

Quando Carlos de Dona Sula e o cabo Fulgêncio se encontravam, era certo que ia ter bate boca. Apesar de parentes, não combinavam em nada! Na política então… Quando notavam que o buteco estava cheio, começavam a discussão. Era como uma disputa de conhecimentos gerais misturado com política, religião e tudo que não se deve discutir em público. A conversa sobre política tava correndo solta…

Carlos de Dona Sula, que tava tomando conta do buteco pra sua mãe, começou:

— Pra mim, o sujeito que anda fazendo discurso sacudindo uma bíblia no ar, ou é candidato a alguma coisa ou é doido. A maioria é doido mesmo!

— Não é assim não, ô meu. Tem missas e cultos ao ar livre, e é comum um irmão sacudir o livro sagrado, abençoando ou sendo abençoado.

— Mas aí é o mesmo que estar num templo. Eu tô falando é desses doidos que tanto na chuva quanto no sol de 40 graus ficam sacudindo a bíblia como se estivessem livrando todos do pecado.

— Se for levar pra esse lado, você até que tem um pouco de razão. 90% desses pregadores de rua ou tiveram uma grande decepção, ou então são santos mesmo. Ninguém se submete a gastar uma existência sacudindo uma bíblia por aí. Mas porque essa implicância com os religiosos? O que tem de errado em adorar o livro sagrado e política ao mesmo tempo? Tá certo que você é um socialista convicto, daqueles que nem acreditam em religião. Mas pra que essa perseguição…

— Não é perseguição não, cabo Fulgêncio. É que moro na esquina de uma praça que já virou palco pra doido dar o testemunho… É o dia todo, sai um e entra outro. Nunca vi tanto doido reunido.

— Já que você não gosta de doido, porque você não muda pra Conquista? Lá não tem esse problema.

— Eu sei que lá é difícil de encontrar um doido, mas o problema é que a patroa não quer se mudar de jeito nenhum. Acha que Conquista faz muito frio.

— Então você vai ter que suportar, cada um tem seu calvário…

— Calvário porra nenhuma, essa perseguição é porque eu sou um homem da esquerda.

— Mas Carlos, nós estamos vivendo numa democracia. Só porque temos alguns ministros militares, você já pensa o pior. Hoje até o nível dos militares é outro.

— Militar sempre foi militar, tá aí uma coisa que não muda. É esquisito civil se cumprimentar batendo continência, nem na ditadura militar tinha isso. Eles até preferiam ministros civis! Era uma maneira de maquiar a ditadura.

— Você tá falando bobagem, onde já se viu comparar um governo eleito pelo povo com as ditaduras antes financiadas pelas “forças ocultas”. É claro, todo militar vai pra reserva, mas militar não aposenta, ele pode parar de usar a farda, mas a cabeça, as atitudes, sempre serão de militar. Eu tenho quase certeza que esse governo vai dar certo.

— Getúlio também foi eleito, já esqueceu?

— Mas hoje os tempos são outros, o povo brasileiro já não é mais tão passivo. E tem a evolução tecnológica, nós em duas décadas evoluímos mais que nos séculos que ficaram pra trás. A internet dá saltos quânticos, as coisas estão acontecendo tão depressa que a TV já está em segundo plano para as campanhas políticas. Hoje as redes sociais são quem mandam nos destinos da política. Foi-se o tempo em que a TV podia glorificar ou destruir um governo, mesmo assim ainda é um grande cabo eleitoral.

— Tomara que você tenha razão, mas você sabe, esse sangue espanhol é foda… Temos que ir contra a alguma coisa.

— É, mas se você não se controlar vai acabar pegando fama de doido, só tá faltando sacudir a bíblia pro céu. Vê se para de pensar em política, vamos aproveitar a vida, você já não é mais nenhum menino. E por falar em menino, quem foi que fez esse bolo de aniversário com calda de goiabada, tá uma delícia, você nem provou. Quem fez anos aqui no buteco? Algum frequentador?

— O bolo quem fez foi mãe, mas aquela calda vermelha que você chamou de goiabada foi a baba de vó que tá caducando, e toda vez que mãe faz bolo ela coloca uma vela, começa a cantar parabéns e sopra a vela. Como sua chapa já tá vencida, arranha a gengiva e sai aquela groselha avermelhada, ninguém come os bolos de mãe por isso… Tem gosto de goiaba mesmo, cabo Fulgêncio?

          O cabo jogou o prato na mesa e começou a cuspir e praguejar achando que tinha sido proposital. E partiu pro ataque.

— Olha aqui, seu subversivo filho duma puta. Eu só não lhe aplico os rigores da lei porque você é meu primo. Mas agora a história é outra, você quis me envenenar. Isto é crime hediondo. Por que você não avisou que aquela velha ainda está viva?

— Envenenar como, cabo. Onde já se viu baba de velho matar alguém. E tem outra coisa, cabo Fulgêncio. Ela também é sua avó… Além do mais, niguém lhe ofereceu, eu estava de costas pra você, ia jogar esse bolo pros vira-latas da rua.

— Então vamos fazer o seguinte, você não conta pra ninguém, principalmente pra minha noiva, que eu comi do bolo, e passa a me cumprimentar dando continência igual ao alto escalão de Brasília. Nosso país é tão democrático que sai esquerda, entra direita, e num piscar de olhos, nós eleitores mudamos de lado como quem muda de roupa… Viva a democracia! Antes era até um paradoxo usar o termo “República dos Generais”. Agora não! Os tempos são outros, ditadura é um fantasma remoto! E graças ao bom Deus, a imprensa continua livre, intocável.

Cabo Fulgêncio bateu continência pro primo e foi embora praguejando, enquanto se lembrava do bolo com calda de baba de velho… Eca! Mesmo assim, estava satisfeito, tinha convencido o primo paranóico que a pátria jamais voltaria a usar coturno. E mais uma vez, um porta-voz com cara de ator que faz propaganda de fixador de dentadura falou que vai dar tudo certo no país dos extremos. Que Deus te ouça e oriente o povo que anda mais perdido do que cego em tiroteio.

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