Um cérebro atormentado

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 16 jun 2019

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Por Alberto David

Vem-me à lembrança “ A tragédia de minha vida “ , de Oscar Wilde, que revela uma escrita “desnuda”, numa linguagem clara, e é assim que gosto de dizer, de forma clara e verdadeira os fatos da minha vida artística. Um percurso que não foi fácil. Eu tive de percorrer um longo caminho, tortuoso e agreste, tendo uma pedra em cada curva, que se sucedia a cada jornada. É bem verdade que contei em minha travessia com importantes pessoas à volta.

Era um menino ainda. À noite eu e meu pai íamos todos os dias à casa de minha avó .E as mudanças foram distanciando um do outro, ainda mais com o nascimento de mais um filho homem.

Por volta de l996, trabalhava no Posto Shell, era um bombeiro ( hoje frentista) e abastecia os automóveis e caminhões que transportavam gado para o abate, que viam da região pecuária, das cidades circunvizinhas. Fui promovido a gerente do Posto de Shell. E era muito comum meus colegas de escola passarem por mim, e sorrirem dos macacões cheios de graxa e sujos de estrume, oriundo das cargas do gado para o abate na região… Até que não precisava disso ,mas gostava de trabalhar . Na época, meu pai foi sócio fundador do Clube Social Conquista, na verdade eu sempre fui um antissocial, não gostava de festas e multidões. O artista surgia…

Lá mais adiante é que viriam os embates.

O meu pai fechou o posto de gasolina. Fiquei sem chão, ou seja, sem nada para fazer. Minha mãe ficou fula de raiva. – E agora como Bertinho vai ficar, Emilio !?

Com o nascimento do outro filho homem, eu fui ficando para trás, crescia a preferência… Mas fui me virar. Como? Fiz dentro do meu próprio quarto meu novo atelier, e comecei a pintar, passar minha revolta e repúdio à preferência dele. Minha mãe não gostou da ideia, muito pelo contrário, odiou as bagunças das tintas no chão: um tsunami ! Era uma dona de casa, e foi compreensível ela ter agido assim. Pior foi quando eu pintei na parede um Cristo flagelado, que coube na parede toda, um Jesus na cruz, agora as paredes estavam em tons vermelho, de sangue, proveniente da coroa de espinhos do Cristo. Quando ela abriu a porta, quase caiu no chão, dura: – Mas o que é isso! ” Este menino está doente! “, exclamou. Apesar do não gostar da minha carreira de artista, e até começava a se opor, meu pai gostou do trabalho. O Cristo de Bertinho na parede do quarto.

Nunca fui preguiçoso. Trabalhava duro ali ao lado de meu pai, diga-se de passagem, uma linda amizade, mas que ia se deteriorar. Tentei durante anos voltar às boas, mas ele já não me considerava a moeda era mais forte, não queria se envolver, fui substituído, sumariamente, de sua confiança. Mesmo assim insistia, trocávamos algumas ideias, porém não era mais como antes.

.. Senti que estava sobrando .Eu já não era o menino de seus olhos, ele já tinha sua escolha, trocando um amor velho por um amor novo. Sempre tinha alguém para lhe dar conselhos, a exemplos de: “Não dê mais nada para ele”, “Deixa sofrer”, se arrebentar”, “ Tira tudo” .

Eu fui o boi de presépio. Aqui tudo tem sua paga. “e ninguém é digno de pena “. Publiquei 13 livros, não obstante as pessoas não imaginam o duro que dei, para colocá-los nas livrarias, os projetos requeriam muito de mim e daí vinham as canseiras. Realmente, só vim ter prestígio na minha terra após o meu sucesso lá fora, ainda assim, aqui na minha terra, sofria críticas e restrições da própria família.

Quanto aos meus livros, milhares e milhares de exemplares eram vendidos em mãos, pois as livrarias não gostavam de poetas da terra, e muito menos emergentes.

Tinha que me virar, distribuía para as livrarias; outros eu colocava debaixo do braço e ia à luta, viajava pelas cidades circunvizinhas para vendê-los aos prefeitos. Muitos compravam por amizade ou pela admiração “daquele esforço sem limite “ .Dentre os amigos que me ajudaram nesta fase tomando a minha dor, cito as palavras de Nilton Gonçalves: ” …poeta e artista Alberto David; que tem sido apoiado lá fora, especialmente em Salvador, tem dado entrevistas em jornais, emissoras de rádio e televisão. e indiretamente tem procurado elevar o nome no tocante ao setor cultural (…) quantos desses filhos de vocação ,famosos e inteligentes, em vida contribuíram para eleger esta cidade, Vitória da Conquista , como cidade próspera ,mas que recebeu a negligência para com suas memórias” . Neste ínterim, meu pai entrega a fazenda Bela Vista para os cuidados do mais novo, o escolhido. Vejam que ironia, fechou o posto e abriu a cancela.

Vivíamos ali, na Francisco Santos, eu e minha mulher e três filhos pequenos. Para se ter uma ideia, um cômodo que ficava nos fundos, e para chegarmos até ele tínhamos de seguir por um corredor. O meu ateliê, se é que posso chamá-lo assim, não dava para movimentar-me, a não ser para pôr o banco, o cavalete e a mesa, foi quando resolvi dedicar-me aos desenhos, bastava papel e lápis, pronto. O que traria o sucesso mais fácil, com várias exposições na capital do Estado, que, extasiaram os soteropolitanos Não acreditavam que fossem desenhos! E a vendagem era boa, foram três exposições em seguida.

Não tinha mais suporte. Naquela residência, minha mulher foi picada por um escorpião, então não teve jeito.. Fomos para uma casa, lá na rua Ascendido Melo. Pelo menos a casa tinha frente, e das janelas podíamos ver o céu, o pôr do sol, o movimento da rua e uma árvore que ficava na frente da casa, que tinha oitenta metros quadrados, e tinha um formato de um polígono.

Agradeço o escorpião. Minha batalha era grande, ainda por cima, tinha as tarefas de pai com direito a todas as preocupações, e mais ser um artista, o dom parecia ser mais uma maldição, tamanha era a indiferença. Vivíamos ali: eu, minha mulher e, agora, quatro filhos dentro de uma lata de sardinha. Lá moramos uns quinze anos. Hoje a casa nem existe mais, ainda bem. Em l986 consegui uma colocação para fazer parte da equipe de funcionários do Centro de Cultura, sem ajuda de ninguém.

“O homem é um aprendiz e a dor é o seu mestre “ Alfred Mussete

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