Um olhar para trás

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 08 abr 2018

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Por Alberto David

Iniciei meus escritos literários como pensador. E não executaria tal ofício, se não houvesse influência de outros que viveram em épocas remotas, a exemplo de pensadores dos tempos de 350 a.C.
E assim percebo que as minhas reflexões não foram em vão, visto que, certa vez, li comentários que me diziam respeito: “A fama e a glória vão chegar para o sofrido e desprezado autor conquistense, afirmando com veemência prof. Mozart Tanajura

Às vezes, fico pensando como é brilhante a mocidade, mas enquanto meus colegas dos idos tão longínquos pensavam em se divertir, eu pensava em outras coisas. Minhas preocupações eram outras, ou seja, eram com os que ficavam às margens da sociedade, na miséria, enfim, dos esquecidos da sorte. Como me senti bem com isso. Era rapaz descontente. Imagine se fosse nos tempos de hoje –digo, tinha que ser cego para não ver tantas barbaridades.

Tinha um pouco menos de vinte anos. Não estava ali o rapaz equivocado, ou melhor, “doente”, tinha, sim, um espírito conflituoso. Como era natural, surgiram, logo no início da minha trajetória, problemas familiares que me marcaram indelevelmente com contrariedades e aflições e, como se era de esperar, transportava tudo isso para o papel.

E pensava, pensava sem parar, “como se tivesse acabado de descer ao mundo”, parodiando, assim, o saudoso cantor Raul seixas. Os pensamento afloravam sobre a minha cabeça, e eu os anotava no primeiro papel que aparecesse, sem saber que estava optando por uma vida de dificuldades, sacrifícios e renúncias. Interessante que minha trajetória foi iniciada assim, como um pensador popular, mas ao modo dos tempos de 350 A.C., como filósofos que optavam pelas metáforas, frases de efeitos, máximas para firmar suas convicções a começar por Sócrates, Platão e outros da época.

Como é linda a mocidade! Eu não vivi esse período em sua plenitude. Tornei-me um pensador. “Como este rapaz pode se sustentar fazendo estas coisas: é como se pretendesse vender pensamentos “, dizia meu pai à minha saudosa tia. E ela pedia:

– Calma, Emílio! Bertinho (me chamava assim) é um jovem de vocações!
Afirmava Tia Ju.., um anjo de pessoa.

Eu era muito diferente de meus irmãos que seguiram a orientação de meu pai. Levei uma vida “sacerdotal” e muito sofrida. Muito curioso queria saber das coisas”. Assim como na expressão, de Paul Gauguin ” De e onde viemos. O que somos. Para onde vamos”, numa expressão interrogativa. Que se explica melhor a minha curiosidade com a vida. E assim fui peregrinando pela vida à fora, levando minha filosofia e na busca do espírito. Fui um Pensador? Não sei. Pode ter soado como uma pretensão; mas pensava, pensava e pensava.

Não tive uma formação cultural clássica da filosofia nos bancos universitários e nem li muito sobre os grandes pensadores. Considero-me um pensador menor, popular, autodidata. Com uma identidade própria. Mas lembro-me que me senti influenciado pelo poeta e filósofo Gibran que, recluso em sua casa materna, bem jovem ainda, andando de um lado para outro e, parando ante as vidraças das janelas da casa, observava as tempestades. Voltando o rosto à sua mãe, pessoa que tanto amava, dizia: – Mãe, eu amo as tempestades!? Ela ficava pasma. Isso também acontecia comigo, quando ficava ali pelos cômodos da casa de meus pais, cabisbaixo, tristonho … e, pelas frestas da porta de casa, como se me escondesse, por detrás das cortinas, via os transeuntes e observava a todos que por li passava, analisando, procurando explicações. E me perguntava o que estava fazendo ali. Com material posto à mão, escrevia as máximas e os provérbios dentro do que imaginava e inspirava escrever. Era apenas um jovem na flor da mocidade, já preocupado com o mundo (?). Incrível dizer isso, mas esse gênero textual, publicado em livros, foram os escritos que fizeram mais sucesso. Obviamente, pelo fato inusitado já dito repetidas vezes em linhas acima (ser muito menino e vivendo no século XXI)

Meu modo de pensar era uma provocação às pessoas e daí vinham os conflitos, os confrontos e deveras as covardias, selvagerias, provenientes da brutalidade e ignorância humana. Também a falta do entendimento de alguns leitores. Lembro-me do episódio com o jornal O Sertanejo, se não me engano o primeiro jornal da época, que, ao levar um bloco de pensamentos para ser publicado, semanalmente, fui de pronto recebido assim: “Olhe, rapaz, aqui não vivemos de pensamentos, o jornal vive de dinheiro. Filosofia? Mas é cada uma” ironizou o dono do folhetim; mas, ao manusear o bloco, gostou do que viu, meio sem graça, disse: “sai amanhã”. “Obrigado”, respondi.

O tempo arejou e as primeiras estrelas surgiram como pontos de luz no meu eu e tive uma aclamação, critica destas máximas, digo provérbios. Escrevi o meu primeiro trabalho sobre os pés de uma esplendorosa jaqueira, que ficava um pouco à frente da casa grande da mata, fazenda de meus pais, e a sua sombra fazia uma espécie de autoterapia, e anotava. Daquele apanhado virou um livro. Passado um tempo, veio outro livro de pensamentos. Este foi organizado pelo prof. Mozart Tanajura, crítico e historiador, que o batizou de Seara da Sabedoria. Interessante também dizer que os pensamentos deste livro, chamado livrinho de bolso, foram lidos nas principais emissoras do país, em especial, todo o “Cash” da rádio Globo do Rio de janeiro, a exemplo o programa do Haroldo de Andrade, que costumava abrir o programa mais ouvido do País, com um dos pensamentos do pequenino livro. Tinha também Waldir Vieira, Roberto Figueiredo, Adelson Alves, Paulo Geovane e outros. Pobre de mim. Numa pretensão de mudar alguma coisa neste mundo.

Evidente que as crianças cresciam e tive que mudar o meu comportamento: RASGAR A BANDEIRA. Mas não minhas convicções, minha fé e, muito menos, parar de produzir meus pensamentos.

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