Um olhar para trás III

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 06 maio 2018

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Por Alberto David

Um Céu estrelado

Talvez minha mãe não percebesse os berros e gritos daquela criança devido aos estardalhaços dos fogos de artifícios que se misturavam aos brilhos das estrelas do céu. Era noite de São João. – Um menino! Bradou a parteira. Na época, não existia ultrassonografia. O entusiasmo foi grande ainda mais para meu pai, pois até então só nasciam meninas. Minha mãe veio das lindas terras da pequena cidade de Jacaracy, onde deixou suas raízes, descendência, enfim sua árvore genealógica, de geração em geração e alcançou a fama da moça mais bela de lá. Meu pai chegou a Jacaracy ainda rapazinho, fugindo de Barra da Estiva, sua terra natal, onde estava tendo um surto de febre amarela que atingiu a população, matando o seu pai , ainda moço. Em Jacaracy conheceram-se, e minha mãe fez sua escolha entre os admiradores ou seus pretendentes na cidade, ficando com o forasteiro com quem se casou.

Logo após vieram para Vitória da Conquista e se estabeleceram definitivamente aqui. Muito atirada, para a época, minha mãe era conhecida pela sua maior qualidade, caridosa. Tenho boas lembranças dela… E como ela sofreu muito de cama, alimentando-se por um cateter e respirando por uma mangueira que chegava aos pulmões. Fui o primeiro filho homem. Não desgrudava de meu pai e nem ele de mim. Chamava a atenção de todos o apego, o exemplo de pai e filho. Mas, adiante, na verdade, tudo ia se desmoronar…

Ao iniciar os caminhos da arte, tornei-me um poeta devido a um importante festival Intercolegial de Artes, no qual obtive o primeiro lugar e fiquei conhecido pela repercussão do poema O Desespero do Mendigo. E disso meu pai se orgulhava. E com os pincéis e caneta na mão me atirei compulsivamente na produção dos quadros, na base das vaquinhas, até ser patrocinado com exclusividade pelos prefeitos amigos. E vendia. Vendia através dos lançamentos ou de mão em mão os livros. Precisava fazer dinheiro. Quanto aos quadros, fazia as mostras, as exposições, mas a maior parte das vendas era em domicílio, tudo feito às turras ou, como no dizer popular, “comia o pão que o diabo amassou”. Meu pai nem chegou a conhecer a parte maior da minha obra, às vezes dispensava uma atenção bastante modesta com aquilo que eu produzia. Tinha os retratos que eu fazia e eram bem receptivos, um gênero para poucos artistas, ou seja, difícil para alguns, mas tinha facilidade para isso e era comercialmente bom, somava a renda . No entanto era insustentável viver daquela maneira, por mais esforço que fazia era como se estivesse fora do casulo.

Precisava de apoio e de afeto, mas, como não conquistara, interessava-me pelo menos a dignidade e o amor próprio. Os anos agora eram de l986, batalhei e consegui um bom emprego, que me traria aposentadoria e plano de saúde. As coisas começaram a melhorar. Iniciei como um simples assistente administrativo e logo assumi o cargo de diretor do Centro de Cultura por duas vezes. Uma espécie de presente dos céus! Empregado, sucesso nas artes plásticas, livros editados, eventos importantes na capital do Estado, submergia das profundezas abissais. Tenho o orgulho de dizer, sem falsa modéstia, levantei sozinho, óbvio com o apoio de Deus e as mãos de minha mulher. Mágoas e ressentimentos não os tenho, mesmo assim, é difícil sair da memória, pois não depende de mim, elas vão e vêm, intempestivamente.
Mas não posso passar estes relatos reveladores sem a interação entre o artista e o poeta. Artista é artista. Sei que melhor seria se eu escrevesse um poema lindo. Mas meu coração pediu palavras de verdade. Quando o coração pede, a gente não nega. Não posso um dia partir sem minha versão. A balança da vida, muitas vezes, tem dois pesos e duas medidas. Tenho as minhas ” meas culpas”. Sim. Atrapalhei-me, rebelei-me. Sim! Eu era polêmico, arredio, mas esses sentimentos eram oriundos dos próprios conflitos que minavam lá fora e dentro de mim.

Se quedarmos a história da literatura e das artes, teremos chances de encontrar grandes autores e artistas com problemas. Vamos encontrar um Frederic Chopin boêmio inveterado, um Euclides da Cunha revoltado com problemas sociais da época, um Eça de Queiroz contra o próprio país, um Noel Rosa alcoólatra inveterado ou um Vicente Vangoh com gestos tresloucados, mas quem sou eu para apontar defeitos ainda mais de gênios ?

Foi um tempo de atritos, período de ditadura militar no Brasil, de censura, de mudança no comportamento dos jovens, de prisões arbitrárias e de perseguições etc , etc. E eu ali como um boi de piranha, um alvo fácil.. Nestas épocas o preconceito ao artista era grande. Eu mesmo senti na pele o que é “ bullying”, termo da língua inglesa, que refere-se à maldade humana, são atos de covardia e de humilhação, praticados por pessoas perversas. E eu não tinha como me defender. Na verdade, artista naquela época era coisa suja… Não se tinha respeito pelos talentos. Realmente só vim ser prestigiado e respeitado na minha terra, com o meu sucesso lá fora, com as exposições e lançamentos dos livros, especialmente em Salvador. Aprendi entre outras coisas que revoltas não compensam e nem devemos jogar fora nossos sentimentos. É necessário viver sem mágoas, sem ressentimentos, para prosseguirmos adiante com muita luz e determinação.
Talvez estivesse marcado desde aquela noite, de um céu estrelado, assim como Um céu estrelado, de Vicente Van Gogh, que seguiu até a sombra de uma árvore e se matou com um tiro no ouvido, talvez sentindo-se incompreendido e assustado com a insensibilidade humana

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