Velhos, eis a questão

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Publicado por Editor | Colocado em Cultura, Vit. da Conquista | Data: 26 mar 2017

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Por Alberto David

 

  “Como difícil é salvar a casca da reputação das pedras da ignorância”

Petrarca

Desde os tempos de rapazinho,  em vez de  ir às festas , tomar os chopes,  ir  paquerar, como é peculiar à mocidade,   preocupava-me  com outra  coisa, com  a complexidade da vida, a começar pelas desigualdades sociais e etc. e tal.  É  por isso me viam como um  jovem diferenciado,  mas, na verdade,  eu queria entender melhor e tirar minhas conclusões.

Certa vez, em plena época de carnaval,   fui chamado a atenção de um amigo cliente do posto de gasolina no qual trabalhava , que foi de meu pai,  onde fui bombeiro ( hoje  se diz frentista). Ele me chamou e disse: ” Poxa, frentista, você  em  vez de estar no clube brincando o carnaval,  fica com este macacão sujo de graxa  atendendo à freguesia  em plena festa. Hoje à noite tem mais um grito de carnaval, seu pai é um homem bem-sucedido e ainda  sócio patrimonial  do Clube Social e você fica ai marcando bobeira” –   disse o amigo . Após abastecer o automóvel, disse a ele:  “Hoje à noite dou um pulinho por lá!”.  E fui ao grito de carnaval,  peguei o carro de meu pai, um  Austin inglês,  e fui ao clube. Para quem não tem conhecimento,   nesta época já havia  carros importados por aqui.

Muito tímido, quando  rapazinho,  ficava nos cantos do  clube e não pulei nada. A timidez  me congelava e eu virava uma estatua , achava que as garotas não queriam nada comigo,  só com os outros,  mesmo sob os olhares delas. Já que o tempo passou,  não vão me chamar de pernóstico ou de “Narciso”, como uma lenda , dizem que eu era um rapaz muito bonito. Não deu mesmo para voltar as outras noites carnavalescas, achei o grito esquisito, tudo esquisito, muito esquisito,  o povo pulando , se agarrando…,  mas  foi ali que me descobri poeta. No percurso de volta para  a minha casa, percebi um homem jogado ao relento sob aquele frio  sueco de Conquista e  eu ali de carro, bem agasalhado…  Não me lembro do que se passou, sei que fiquei chocado com a cena. Aquilo não me saiu da cabeça! Já era madrugada  e  queria dizer alguma linha sobre o fato, mas como, se não havia escrito nem um verso antes? Foi quando peguei uma caneta e comecei a escrever,  tinha que dar um título para ver se acontecia algo e me veio: “ Desespero do Mendigo”. Fiz o poema que iria marcar a minha carreira como poeta.

Sempre digo às pessoas que sou autodidata da vida e das artes,  o que sei aprendi  perguntando, mesmo sabendo da resposta. Temo em perguntar  as coisas que não sei e até mesmo as que já sei, mas pergunto para minha enquete.

Lembram-se do pintor Gauguim que ficou imortal quando perguntou a si mesmo: “De onde viemos ? O que somos e para onde Vamos ?”. Sofri bastante com minhas dúvidas sobre o mundo,  as pessoas, ou melhor, aonde fui parar, tentando consertar a vida , coitado de mim e iria acabar tomando cicuta também,  cicuta do Paraguai ! Para não pensar que estou me assemelhando a Sócrates,   se não parasse com tantas perguntas e indagações,  até porque tudo no meu inicio de pensador coincidiu. Em 64, na época do Golpe Militar, pensei, obviamente, em tomar cicuta, mas refleti e cheguei à conclusão que  isso não era  comigo.  Decidi seguir o conselho daquele  velho amigo que um dia me disse: “ Deixa de ser tolo e vai brincar o carnaval! La tá cheio de garota e você é um menino bonito !”

Mas as gasturas iam e viam, eu fazia vista grossa no que via e deixava passar  em branco. Era a minha cachaça… é difícil  parar assim, quando se têm determinadas coisas que me incomodam bastante .Virei pensador ainda muito jovem, diferentemente dos pensadores de outrora. Estas linhas vêm a calhar com os sábios que, na maioria, eram senhores de idade avançada  e, com suas trajetórias,  adquiriram experiências  desde os tempos da mocidade

E   o que me incomoda , nos tempos de hoje , a todo instante,  é o modo e o tratamento que fazem  de  chamar de “velhos”, um  adjetivo pejorativo , como uma coisa descartável, ou seja, a partir de determinada idade, é como se algumas pessoas, não servissem para mais nada, daí inventam encontros  de  idosos, termo que serve agora para mascarar  o adjetivo “velho”. As reuniões das  lembranças de outrora que não voltam mais, rodinhas,  marchas de mãozinhas dadas e outras coisas que,  na verdade,  trazem melancolias . As pessoas não se enxergam.  Se olharmos para trás,   até mesmo antes de Cristo, deparamo-nos  com homens que, quanto mais  envelhecem, mais  procuram o conhecimento e tornam-se sábios , conselheiros, ativos, exímios professores da vida, com todas as “pós-  graduações”  autodidatas que se podem imaginar . Daí o porquê do meu preâmbulo, desde cedo procurei conhecer, ter conhecimentos perguntando, perguntando… A vida não volta atrás.

 

Sócrates era considerado pelos seus contemporâneos um dos homens mais sábios e inteligentes, levava  o conhecimento sobre as coisas do mundo e do ser humano de maneira simplória para que todos entendessem. Ele  não foi muito bem aceito, pois defendia algumas ideias contrárias aos regimentos arbitrários e costumes que não ajudavam no desenvolvimento da cultura grega. Suas qualidades de orador e sua inteligência também colaboraram para o aumento de sua popularidade. E com isso,  passa a ser encarado como um inimigo público e um agitador em potencial. Foi preso, acusado de pretender subverter a ordem social, foi condenado a suicidar-se tomando um veneno, isso em 399 a.C .

 

Hoje vemos que quase ninguém mais se importa com a valorização do ser humano, a busca e construção do próprio conhecimento, especialmente os jovens  que, ao contrário disso,  prevalecem na ignorância. Se procurassem seu lugar,  não tratariam os mais experientes como “velhos”.  Falando em ” velhos “,  vemos na enciclopédia da vida  que os grandes gênios da humanidade tiveram suas verves, produções artísticas,  com uma idade avançada,  nunca foram velhos, e sim senhores,  e  sim sábios . Um exemplo desses senhores é, como já mencionei anteriormente, Sócrates que se desenvolveu mais na curiosidade,  nas rodas de gente , perguntando indagando  o povo e fazendo disso uma maneira de adquirir conhecimentos. Eis alguns de seus pensamentos:

 

A vida que não passamos em revista não vale a pena viver.

A palavra é o fio de ouro do pensamento.

 É melhor fazer pouco e bem do que muito e mal.

 A ociosidade é que envelhece,  não o trabalho.

 Chamo de preguiçoso o homem que podia estar melhor empregado.

 Há sabedoria em não crer saber aquilo que tu não sabes.

Não penses mal dos que procedem mal; pense somente que estão             equivocados.

A verdade não está com os homens, mas entre os homens.

Quatro características deve ter um juiz: ouvir cortesmente,        responder sabiamente, ponderar prudentemente e decidir      imparcialmente.

 Sob a direção de um forte general, não haverá jamais soldados             fracos.

 Todo o meu saber consiste em saber que nada sei.

Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo de Deus.

As duas cartas de amor mais difíceis de escrever são a primeira e a             última.

 

Outro exemplo de ” Sábio”  é  Francesco Petrarca que nasceu em Arezzo,  Itália,  no dia 20 de julho de 1304. Durante sua vida, obteve grande influência de um fato curioso de sua vida –  Laura,  um grande amor e musa inspiradora. Petrarca Faleceu em 19 de julho de 1374, vítima de malária. Era também um pensador. E aí me interrogo:  precisa de mais exemplos para fecharmos o mote?  Acredito  que não .

A maioria dos seres humanos que passou pela vida  e se dedicou ao aprender  não pode ser “velho”, e sim “sábio” ; mas  o que vemos  é a ignorância perpetuando na cabeça dos que não querem conhecer a  vida como  deveriam.

 

Não há incoerência no que este escriba diz, mas objetivando acredito que minha  culpa vem dos que vão se envelhecendo  e deixando o seu poder de estabelecer seus valores , seus brios , sua honra. Por outro, a ignorância  é a outra parte da laranja. Dos poderes  das leis que punem aqueles que passam  da meia idade , a dificuldade mais ainda das oportunidades  de uma colocação , dos seus próprios semelhantes  que criaram o hábito de acharem  que a história deles se acaba  ainda em pouca idade . Dos projetos que prejudicam tantos homens inteligentes, sábios das suas próprias  vidas, mas que se deixaram levar pela ociosidade,  sedentarismo e, às vezes, este lhe  faltou a bandeira . E então,  é até um modo de dizer,  que o Brasil é um país de “velhos “. Temos outros exemplos que maltratam a lucidez, como chamar de velha  a poeta Cora Coralina,  ou um   velho arquiteto que faleceu com seus 100 anos, até mesmo irmã Dulce. Ou dos outros que marcaram suas vidas na historia da humanidade – Charlie Chaplin…  Destrataríamos com a pecha de velhos assim ou mesmo aqueles que  não foram sábios, poetas , pintores ,mas  pessoas  comuns que, com certa idade, já não produzem como antes? Não prestam mais para nada?

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