Verdades secretas

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 24 set 2017

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Por Alberto David

Já faz algum tempo que fatos incríveis e misteriosos ocorrem lá pelas bandas da fazenda Jaqueira,  linda propriedade rural, que um dia foi de Seu Emilio, meu pai, que transformamos num lugar, paradisíaco. Vivemos ali, eu e minha esposa, um amor cigano de tirar o fôlego.  Mesmo tendo de voltar a Vitória da Conquista, nunca abandonei meus amigos dali, ou melhor, agregados,  lavradores e vaqueiros,  também os animais como  cavalos, éguas  cachorros e gatos. Aproveitava os janeiros  e levava minhas ferramentas (tintas, pincéis e telas) para pintar. Certa vez, retratei as coisas principais dali e fiz uma mostra em Salvador; exposição bastante concorrida, com cinco emissoras de TV cobrindo o trabalho.

Mas o assunto aqui é outro. São casos  secretos, verdades secretas,  que se sucederam comigo, enquanto estive por lá e só agora vem à tona.

Perto  desta paisagem paradisíaca,  costumávamos ir até a Caatiba, cidadezinha mais próxima, dava uma légua montado,   para cair nos braços de uma lourinha gelada,  como era o meu caso, ou melhor dizendo,  o nosso caso,  eu e minha musa  .No sábado, então, dia de feira, era uma festa . Tomávamos  todas  e quase, ao anoitecer, voltávamos para a casa. Lá vivíamos as intimidades,  mas…poupem-me dos detalhes!

Na Fazenda,  a inspiração era latente,  muito fácil, dada a beleza natural da fazenda,  em especial as águas do rio Catolé que, quando chovia, passava por cima da ponte. Hoje  é quase um riacho,  tamanho o retiro das águas, sem fiscalização do IBAMA.

O rio está  agonizando.  E era ali na cachoeira que escrevia meus poemas, e para achar um lugarzinho era difícil,  pois à água tomava todos os espaços.

Certo dia,  desci para a cachoeira e me ajeitei  no cantinho,  mas, mesmo assim, corria  uma  trombazinha de água que molhava os meus pés, era muita água . Com as ferramentas na mão (lápis e papel), iniciava os trabalhos. Quando,  de repente, um peixe sobre os meus pés. “Meu Deus, o que é isso?” –  gritei comigo mesmo.

Fiquei apavorado,  não sabia o que fazer,  e o peixe se debatia , e logo eu que nunca pesquei nada. Pior,  a dó de matar o bichinho. Pensei nos peixes que Jesus ajudou os discípulos a pescarem, e resolvi,  peguei um pedaço de galho seco que estava próximo e finquei nas guelras do pobrezinho,  também, doeu em mim . Eram cinco e meia da manhã e lá vou eu segurando o peixe, preso a um galho enorme que encontrei pelos arredores da cachoeira., Voltei para a sede.  Minha mulher  e os vizinhos saíam das suas casas,  perplexos ao ver o quadro. David está voltando cedo de seus  escritos e  vem com uma vara, segura um peixe  ou coisa parecida. – Meu Deus!   – Parece que traz um peixe preso nela –  exclamou o vaqueiro !

– Mas como?! David nunca pegou numa vara de anzol –  disse a minha mulher.

– Mas agora está pegando peixe com a mão! Meu Deus, David me aparece com umas coisas, que me dão até medo –  disse Manoel.  E foi um blá, blá. Não é história de pescador,  mas o peixe de tão grande serviu de uma gostosa moqueca e todos se fartaram . Nós e as famílias que presenciaram a cena.

A verdade virou lenda,  se é que pode dizer assim. E não parou por aí teve mais àquela da vaca parida …

Acabava de chegar da feira de Caatiba, num sol abrasador , chegando na sede saltei da égua, e fui logo tirando a camisa para tomar um banho no riacho, fato que serviu de espanto a todos , em especial ao morador mais velho dali, seu Manel, morador mais antigo de  lá. Este,  quando soube que ia ao banho ,  endoidou, vi o  medo em seu olhar, e mal pronunciando as palavras – Não,  de jeito nenhum! Não vá. Há uma vaca parida no caminho e das mais bravas que já conheci,  desde que sou morador daqui.  – Você perdeu o juízo? –  Disse-me . Eu nem estava aí.  Ajeitei-me e desci para o banho sobre os gritos do Manel: – Mida, Mida , David tá descendo, a vaca vai pegar ele! Viu que Mida não se importou,  foi falar com a esposa dele.

– Lita  ,Lita a vaca vai matar David! A pobre da mulher paralisou diante  de suas palavras. O Manel, coitado, ainda desceu um pouco e jogou pedras na ” inofensiva vaca”, para que ela saísse do caminho, mas acabou desistindo e voltou para trás, foi  quando Lita gritava: –  Manel , Manel,  pode abrir os olhos, David tá pegando nos chifres da vaca!

– Meu Deus do Céu!!! Como isso pode ter acontecido, se a vaca já enrabou todos que ousavam passar perto dela, ou até com uma certa distância? Deus seja louvado!  –  Deu um suspiro, de alívio, lembro-me que cheguei perto da vaca  conversei,  fiz carinho, só isso.  Manel quase morre naquele dia.

Fechando  ” Verdades Secretas “,  vamos para outra aventura.  Certo dia,   fui até a cidade passear e tomar uma cervejinha, para quebrar a monotonia.  Arreei meu grande amigo Valete. Este animal tinha uma grande estima e apego comigo, era hábito de chegar à cidade e todos também perceberam a nossa amizade. Diferente de todo os outros cavaleiros, que iam ali montados ou não  prendiam seus animais nas cercas, Eu não ,  como era um amigo,  seguia a pé e ele do meu lado,  acompanhava-me,  fosse onde eu fosse, no caso fomos para os barzinhos à procura das lourinhas geladas e jogar conversa fora . E o Valete me olhava, parecia dizer o momento de ir embora,  coisa assim. Já era tarde e vi que o cavalo estava inquieto, era hora de cair fora. Quando bati a  última cancela que sai da cidade,  me deu vontade de conhecer a torre de TV,  ficava logo acima,  numa ladeira íngreme. Para chegar à  torre,  era difícil, muito mato, capim alto  e já estava anoitecendo,  mas, mesmo assim,  fui. Da torre,   avistei todo o panorama da região. E depois não me lembro mais de nada.

Neste ínterim,  devo ter caído,  tinha muitas pedras por lá,  e devo ter batido a cabeça em alguma delas, tentei levantar-me, mas não aconteceu,  suponho. Devo ter é desmaiado.

O  cavalo chegou sem mim,  e o desespero foi total , pois já estavam preocupados comigo.  “Alguma coisa de ruim havia acontecido comigo”, intuiu a mulher,  e planejaram as diligências, as  buscas, imediatamente,  pois poderia anoitecer antes de me encontrar. ” Este cavalo gosta muito de David e ele veio pedir socorro, arreia dois animais e vou com Mande ( um jovem esperto e amigo morador de lá, parente de Manel ) em busca de David. E lá se foram … Valete foi na frente, solto. Mida passa a ordem para Mande: – Vamos acompanhar Valete passo por passo,   ele vai mostrar onde está David, disse com firmeza .

E durante a viagem,  o cavalo ia para um canto e outro,  voltava para a estrada , – E Valete  ainda não sentiu o cheiro de David – vamos para a cidade. E, sem êxito, nada,   nenhuma informação. Triste e preocupada,  minha mulher falou ao colega:  – Vamos embora,  está anoitecendo. E seguiu. Quando bateu a tal cancela, de saída da cidade, o cavalo  refugou  e subiu a ladeira Eira do Vale,  que dava para a torre .

– Ele achou David!  Corre Mande! – Será Mida?! Deus seja louvado!

Estava caído com os olhos abertos e os pés inchados, obviamente ia morrer, se não chegasse o socorro  do meu amigo.  Ele voltou à  sede para avisar ao pessoal e a Mida,  muito intuitiva,  parecia conversar com Valete, a tal transmissão de pensamento que acontece com os humanos.

Quando se fala em meu nome na região, o povo se assombra com tais fatos,  que bem poderiam  ser lendas.

 

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