Um olhar para trás

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 28 Maio 2019

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Por Alberto David

O início da minha carreira artística nasceu de um ambiente entre graxas, cheiro de gasolina e óleo diesel. Era no Posto Sheel , antigo posto de gasolina de propriedade do meu pai, primeira casa comercial do gênero, onde trabalhava nas horas vagas , pintava ali mesmo. Os trabalhos eram grosseiros, sujos e mal-acabados, mas tinham força e muita expressão. A exposição improvisada nesse estabelecimento comercial, chamava a atenção de todos, pelos quadros distribuídos pelas paredes daquela casa que comercializava gasolina, situado ali no Centro de Conquista, na praça Marcelino Mendes, inclusive, na época, abastecia a Prefeitura Municipal cujo prefeito era Gerson Salles.

Era um sonhador

Não estava preparado para as vicissitudes deste caminho. E logo me desiludi das artes e parei de pintar.

Teimoso, retornava às atividades na arte por volta de l980. Até aí, só foi mesmo um breve início.

Sem apoio dos familiares, vinham os conflitos e suas manifestações: “ pintura não dá dinheiro“, era o que diziam. Além disso, sem emprego , sem suporte e a família só crescendo (4 filhos), as coisas não se tornaram fáceis, passei a viver um inferno. Faltavam-me tintas e pincéis. Não dá para relatar todas as vicissitudes, para a construção da minha carreira e nem os obstáculos e a miséria pela qual passei. Toda a minha vida artística e pessoal foi marcada por situações conflituosas , constrangedoras e humilhações e pela falta do dinheiro. Essa é a verdade. Meu primeiro lugar para morar, logo que saí da vida de solteiro, mal cabia a esposa e filhos, então pequeninos . Sem espaço, socorria-me numa mata , ali nos arredores da região de Caatiba. Era um boqueirão cheio de vales , águas em abundância , numa fazenda de pequeno porte. Para chegar ali no boqueirão, não era fácil. A estrada era ruim, e quando chovia, então, nem pensar. Para carregar os materiais de pintura, levava no transporte de tropeiro, ou seja, amarrados nos lombos dos animais. Apesar de tantos obstáculos, ali era bom para mim e toda a família . Longe das preocupações e, depois, a falta do dinheiro compensava com riqueza da natureza . Colocava o atelier nos ombros e ia trabalhar fervorosamente , enquanto as crianças brincavam e a mulher ia para o fogão. Mas curtimos com amor, pois assim a dor é menor, e outro fator positivo era que a mata ficava às margens do Rio Catolé, por onde passeávamos muito a cavalo até a cidade mais próxima ( Caatiba), para fazer a feira e matar a sede com uma gelada.

Minha mulher me acompanhava em tudo. Impulsionada pela convivência do meu amor à arte e o seu talento, então escondido, começou a pintar também, mostrando uma pintura incomum , foi uma passagem como um meteoro , mas uma passagem marcada por belas telas e vários prêmios em salões oficiais, que sobressaltaram os críticos de arte na época dos eventos .

Ela estava lá sempre presente do meu lado nos momentos mais aflitivos da minha vida pessoal e artística, em especial ante os conflitos familiares que surgiam a todo tempo, em decorrência da falta de entendimento e do apoio que nos era negado. Ela cobrava e resistia a tudo com coragem , abnegação e renúncia. Sou muito grato a ela.

Da cidade, eu trazia a vontade de pintar, mas era ali, junto às margens do rio Catolé , nome que ficou conhecido do lugar que vinha a inspiração como rio que procura seu afluente e vinha com uma força transbordante. E pintava sem parar, quase todos os dias. Abro aqui um parênteses para o tema “Cenas campestres”, coleção que mostrei em Salvador, com grande sucesso. E pintava e chamava a atenção daquele povo humilde, que não entendia de arte, mas achava maravilhoso o que eu fazia. Era hora de voltar. E daqui região, selecionava meus trabalhos e fazia as exposições em Salvador , era ali o meu desejo de morar um dia … mas, infelizmente, não deu certo .

Mas havia outras dificuldades. E como era penoso conseguir uma galeria de arte para expor os quadros , em especial, se o artista fosse do interior. O preconceito era grande. Lembro-me da vergonha que passei quando era recusado pelos marchands, mesmo assim, consegui meu espaço .Precisava de muita insistência, mas a próxima porta sempre se abre. Toda a coordenação da mostra era comigo. Todo o trabalho, distribuição dos convites , divulgação na mídia , fazia os releases , as fotos e enviava por sedex ou ia pessoalmente aos jornais e aos programas de TV – na “cara de pau”. E Muito bem recebido por todos. E dava certo, no dia seguinte, eu estava em todos os jornais soteropolitanos. No dia do evento, vários canais de televisão estavam presentes na vernissage, cobrindo a mostra , daí um dos motivos para morar em em Salvador. Crescia na capital do estado enquanto aqui continuava marginalizado . E foi assim. Vale ressaltar que sempre levava, a tira colo, minha esposa e os três filhos, ainda meninos pequenos , que, por falta de passagens, o condutor deixava entrar e os mesmos se acomodavam sobre os nossos pés. Parodiando o título do Best- seller de Simonal “Vocês não sabem do duro que dei”.

Retornava a minha terra como um herói , sentia-me assim, pois sem um centavo no bolso conseguia essa glória de expor e ter a polarização da imprensa ao meu lado. Após tanta aflição e uma luta desesperada, conseguia!

Continuava o trabalho, à vezes não dava para seguir a jaqueira, e me virava por aqui mesmo. O meu atelier, se é que posso chamá-lo assim, era apenas um pequeno cômodo da casa , onde se guardavam coisas velhas ou sem valor e não conto das vezes em que as caçarolas caíam, ou melhor, voavam sobre mim , no momento da criação . O cômodo era muito pequeno e as caçarolas ficavam penduradas. Quando crio, fico distante , nervoso , estressado. Não sei como explicar isso, se bem que, mesmo no desconforto, me alegrava saber que bons trabalhos saíam daquela bagunça.

Fico pensando no “duro que dei” para levar adiante minha insistência, sacrificando minha família, “comendo o pão que o Diabo amassou” , sozinho sem família, quase sem amigos , sem os poderes públicos , mas, através da vontade de vencer os percalços da carreira e poder transpor os obstáculo que vive o ser humano desvalorizado , pois ninguém acreditava que um dia um trabalho meu pudesse ser premiado, uma poesia premiada . Um nome. Realmente, numa coisa eles tinham razão, a arte não dá dinheiro. Como diz um grande compositor, do qual não me recordo o nome, “ O artista nasceu para sofrer “ . E, talvez, tudo poderia ser melhor para mim , ou seja ,se não houvesse tantos percalços, humilhações , miséria mesmo, falta de apoio de todos , parentes , familiares e amigos para investir ou acreditar na minha arte .

Mas estava mais para eles como louco do que um valor da terra .

Talvez não tivesse a consciência de que pelo menos tentei romper as barreiras sozinho, barreiras da ignorância , do egoísmo , do preconceito e no tratamento como filho no seio do meu lar, pelo amor e coragem de vencer – ou quase vencer, no ideal que escolhi.

Mas Deus escreve certo em linhas tortas e foi recompensador de outras formas, deixando-me numa situação privilegiada. Tive sorte.

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