A Engenharia Atual

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Publicado por Editor | Colocado em Bahia, Brasil | Data: 11 mar 2013

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Eng. Paulo Teixeira da Cruz

Prof. da Escola Politécnica da USP – Conselheiro da ABMS

E-mail: ptcruz@terra.com.br

ENGENHARIATalvez as 6 pessoas que estavam dentro da Van que caiu na cratera do Metrô sejam as únicas pessoas que não tem nada a ver com o acidente.

Porque nós, engenheiros de S. Paulo e do Brasil, as nossas Associações de Classe, as nossas empresas de Consultoria e de Engenharia, os nossos Empreiteiros e Donos de Obras, os nossos órgãos públicos, as nossas instituições de ensino e de pesquisa, os nossos prefeitos e governadores, e a nossa querida imprensa temos assistido de braços quase cruzados à crescente derrocada da engenharia brasileira e a um número crescente de acidentes nas nossas obras de engenharia.

Alguns casos, ou causos, como dizem os mineiros, podem ser lembrados. Em 1996, quando buscava apoio para editar o meu livro das 100 barragens, eu recebi um auxílio fundamental na edição do livro de uma importante empresa de engenharia. Dez anos depois, ou seja em 2006, eu procurei fazer um contato com a empresa e comecei a telefonar aos meus conhecidos de 96 e já não encontrei nenhum.

 

Todos tinham “saído” da empresa. Passou dos 60, a empresa agradece pelos serviços prestados. Com que objetivo uma grande empresa abre mão dos seus membros mais antigos e seguramente mais competentes? Não foi da competência que se tratava, mas talvez da forma de trabalhar e de encarar os projetos e a sua execução. Os “novos” contratos já não permitiam que certas práticas mais tradicionais fossem adotadas, e talvez os “velhos” pudessem começar a criar dificuldades.

Não sei. Os novos contratos, ou a nova maneira de se fazer engenharia, estão aí: sempre discutidos, modificados, adaptados, questionados, mas todos contêm dois germes nos seus embriões: os custos e os cronogramas.

Para qualquer projeto de engenharia, e principalmente num projeto de infraestrutura, só há duas questões na cabeça dos empreendedores: quanto custa e quando fica pronto? Afinal por que motivos um investidor vai colocar o seu dinheiro num investimento que rende menos do que as ações dos bancos, ou do petróleo? Prejuízo é coisa para o governo. Obras têm que ser, portanto, de menor custo e de curto prazo, para atrair o dinheiro privado (que quase sempre é do BNDES, mas que é repassado para o investidor).

E nós, engenheiros e geólogos e administradores e gestores e coordenadores e gerentes e fiscais e supervisores e engenheiros do cliente e engenheiros do proprietário e engenheiros dos construtores e representantes dos clientes e consultores, entramos todos nesta canoa furada que se chama de Engenharia Brasileira.

Quando eu escrevi, em 1996, na introdução do livro das 100 barragens, que fosse por sorte ou fosse porque fosse, que nas 100 ou mais barragens com as quais eu estive envolvido não havia ocorrido nenhum acidente importante, eu não fazia ideia de que nos 10 anos seguintes eu estaria envolvido em vários acidentes, em soluções de projeto de maior risco, em situações de absoluta falta de engenharia, e assistisse à destruição de instituições de pesquisa e à redução dos salários de profissionais, a níveis tais que desincentivaram a entrada na área de novos engenheiros que encontrassem espaço em empresas de projeto e de construção, onde pudessem completar a sua formação profissional.

Já não existem empresas de engenharia no Brasil. Existem aglomerados de profissionais autônomos, reunidos por um curto espaço de tempo, para desenvolver um projeto sem recursos de investigações e de tempo, para ser executado no menor prazo e ao menor custo, com um processo de autofiscalização aprendido em cursos de informática.

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