Agripino

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 03 nov 2018

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Por Nando da Costa Lima

Antes dos antibióticos as doenças contagiosas eram vistas com mais temor devido ao grande índice de mortalidade, principalmente a tuberculose cujo único tratamento era arranjar um clima que não variasse muito, isso não curava, mas evitava que a doença se tornasse ainda mais penosa. Estar tuberculoso era ter certeza que logo visitaria São Pedro, o pior era o isolamento devido ao medo do pessoal. O cidadão que sentisse qualquer problema pulmonar, mesmo não estando tuberculoso, era olhado como um foco de contaminação, ninguém encostava, a doença pegava até no vento. Se o sujeito desse uma tossida um pouco além da conta, a família já separava seu talher e lavava a roupa separada, eram os cuidados mínimos, isto se o cidadão fosse parente, se não, o remédio era distância. Muitos poetas morreram tuberculosos, uns pelo excesso de boemia, eram tão bons que estavam sempre sendo festejados. Já outros morriam de tanto perder noites escrevendo porcaria e bebendo cachaça. Foi nessa época que D. Maurícia passou por um grande aperto, ela, uma senhora conhecida pela bondade, teve que passar por um teste que mulher nenhuma gostaria de passar, seria melhor ter fama de má.

Um belo dia D. Maurícia recebeu uma carta, antes de abrir ela predisse – “Deve ser alguma visita avisando o dia da chegada”. – Não deu outra, era uma prima em terceiro grau pedindo pra ela ter a bondade de hospedar Agripino, seu filho, por tempo indeterminado, até ele melhorar os pulmões, o clima daquela cidade era o ideal para a recuperação do rapaz. Só que não era um pedido, era um descarrego, pois quem entregou a carta foi o próprio Agripino, tava mais arrepiado do que passarinho de papo seco e com a bagagem na varanda da casa, trouxe até o pinico. Dona Maurícia nem teve tempo de recuar e com um lenço no nariz foi mostrar os aposentos ao sobrinho. Antes de entrar na casa ele recitou “Último Fantasma” (interrompido a cada frase por uma crise de tosse), pra tia sentir que estava hospedando um poeta. Ele era daqueles que pendurava no pescoço do ouvinte e só largava quando acabava a narrativa, além de ter a famosa “boca de chuveiro”, era terrível. Enquanto o candidato a defunto se acomodava, D. Maurícia reuniu a família e explicou a situação, como precaução, pediu que todos da casa evitassem contato direto com Agripino, como apertar a mão, sentar em lugar esquentado por ele, etc. Mas tudo isso sem dar na pinta, pois além de se tratar de um parente, era um dever de todos como cristãos amenizar os enfermos, mesmo contra a vontade.

Agripino dava mais trabalho que filho de rico na adolescência, não que ele fosse rebelde, não fumava nem bebia, o trabalho que dava era por ser caseiro demais, passava o dia todo querendo abraçar o pessoal da casa em sinal de agradecimento, o pior era aquela mania de recitar Castro Alves pra quem aparecesse. A única vantagem dele é que dormia muito, era o tempo que o pessoal aproveitava para desinfetar a casa e o corpo. Os vizinhos há muito haviam sumido, quem era doido de ir ali com aquele homem amarelo parecendo um morto vivo recitando e tossindo em cima dos outros. Mas não há mal que sempre dure, um dia Agripino acordou com saudade da família, já tinha dezoito meses que não via os pais. Dona Maurícia e Seu Paulo explicaram que no estado que ele se encontrava a saudade podia ser letal, eles já tinham visto muita gente sã morrer de saudade, imagine um doente do pulmão. Aconselharam Agripino a partir o mais breve possível, ele alegou não ter dinheiro para a passagem, Seu Paulo meteu a mão no bolso e tirou a passagem, explicou que tinha comprado há muito tempo porque sabia que mais cedo ou mais tarde a falta dos pais viria perturbar o sobrinho, só faltava marcar! Dermival, o filho mais velho, pegou a passagem e foi logo perguntando – “Você quer que marque para agora meio dia ou deixa pra noite, primo?”.

No dia que Agripino saiu com as malas rumo ao ponto de ônibus, a casa ficou em clima de festa, as despedidas foram ali mesmo, na saída ele recitou “O Navio Negreiro” pra cada um dos primos, e olha que eram nove. Quando Agripino deu as costas, D. Maurícia correu para o quarto que ele ocupava e deu ordem para queimarem tudo que o doente usou, da cortina ao colchão seminovo foi tudo pro fogo, tudo que Agripino tocou foi destruído em menos de uma hora. A família estava livre daquele fardo, fizeram até um jantar especial para comemorar a partida do primo, estavam todos reunidos na mesa grande, aliviados da presença do parente, na hora que a campainha tocou. Quando D. Maurícia abriu a porta a surpresa foi geral, era Agripino. No caminho ele havia passado na igreja pra orar pelos que ficavam e graças a Nosso Senhora de Santana, ele refletiu e achou que o frio de São Paulo iria lhe fazer mais mal que a saudade de casa, e família por família, eles como parentes eram mais atenciosos que seus próprios pais. Sendo assim ele resolveu ficar mais uma temporada.

D. Maurícia além da ameaça de desmaio, teve uma crise de choro que comoveu a todos, inclusive Agripino que entendeu logo que aquela reação era de pura alegria… E depois de uma crise de tosse mandou a obra-prima de Castro Alves “Stamos em pleno mar…”

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