Condenados do mensalão estão no presídio da Papuda, na capital federal

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Publicado por Roberto Silva | Colocado em Brasil | Data: 17 nov 2013

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Agência Brasil

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Às 16h48, horário de Brasília, eles iniciaram a última reunião juntos. Mas, dessa vez, sem conluios para a compra de votos de parlamentares. O último voo dos mensaleiros foi feito ontem em um avião da Força Nacional, de Belo Horizonte até Brasília, onde, por determinação da Justiça, devem ficar presos na penitenciária da Papuda, onde já estão alojados até que se defina onde cada um vai cumprir sua pena. A primeira informação era de que os réus seriam levados para a Superintendência da Polícia Federal.

A bordo do jato ERJ 145 da Embraer, nove dos 12 condenados que tiveram mandados de prisão expedidos na sexta-feira. Seis deles começam a cumprir prisão em regime fechado, a exemplo de Marcos Valério e Kátia Rabello. Os outros cinco em regime semiaberto, como Delúbio Soares, José Dirceu, José Genoino.

Os advogados desses dois últimos já entraram com petição para garantir que as penas sejam realmente cumpridas em regime semiaberto. O representante legal de Genoino, que teve uma crise hipertensiva durante o voo, alega que ele tem problemas cardíacos. Kátia Rabello e Simone Vasconcelos irão para outra unidade prisional, já que na Papuda não existe ala feminina.

Ausência  
Na aeronave, porém, faltou um passageiro ‘ilustre’. O ex-diretor de marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, que, aproveitando-se da sua dupla cidadania, fugiu para a Itália (veja coordenada ao lado).

Enquanto a PF confirmava que Pizzolato era foragido do país, hoje com nome na lista de procurados pela Interpol, o avião seguia seu plano de voo, resgatando mais condenados do julgamento do mensalão a cada escala.

Tudo transmitido ao vivo por canais de TV aberta e fechada. Primeiro, o avião decolou, por volta das 11h30, do aeroporto de Brasília para buscar os que se entregaram em São Paulo. Por volta das 13h, a aeronave pousou no Aeroporto de Congonhas, na capital paulista, e pegou o ex-ministro José Dirceu e o ex-deputado federal José Genoino.

Depois, até Belo Horizonte para o embarque de outros sete passageiros: o publicitário e operador do mensalão Marcos Valério; a ex-diretora das empresas de Valério Simone Vasconcelos; os ex-sócios de Valério Ramon Hollerback e Cristiano Paz; o ex-deputado federal Romeu Queiroz; a dona do Banco Rural Kátia Rabello e o ex-vice-presidente do banco José Roberto Salgado.
O ex-presidente do antigo PL Jacinto Lamas (DF) também se apresentou espontaneamente. Mas foi de carro, já que estava na capital federal.  Até as 22h50 de sexta, 10 dos 12 condenados já haviam chegado às sedes da Polícia Federal em São Paulo, Belo Horizonte e Brasília.
Restavam, então, Delúbio Soares e Henrique Pizzolato. Com Pizzolato no exterior, o ex-tesoureiro Delúbio acabou sendo o último a se apresentar. Mora em Goiânia e foi de carro até a capital federal. Por volta das 11h20, chegou à sede da PF, a  8 km da Superintendência, onde era esperado.

Pelo Twitter, o próprio Delúbio, o 11º a se entregar, anunciou que estava se entregando. “Apresentando (sic) às autoridades em Brasília para o cumprimento da pena que me foi imposta em julgamento de exceção. Viva o PT! Viva o Brasil!”, escreveu o ex-tesoureiro, dando à sua condenação a mesma conotação política do ex-ministro José Dirceu e do deputado José Genoino, ao se entregarem, na sexta-feira.

Manifestações
Às 16h48, o avião com os condenados deixou o Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, e seguiu para a capital federal. Uma hora depois, horário de Brasília, todos desembarcavam no Aeroporto Internacional de Brasília, tendo o publicitário Marcos Valério, condenado como operador do mensalão, como último da fila.

Antes de entrarem no voo que os reuniu pela última vez, os mensaleiros ficaram entre as sedes da Polícia Federal e o Instituto Médico Legal, onde realizaram exames de corpo de delito e testemunharam alguns incidentes. Na porta dos prédios, ocorreram manifestações a favor e contra os presos.

Ao saírem do prédio do Instituto Médico Legal de Belo Horizonte, sete dos condenados foram hostilizados por cerca de 50 manifestantes que os xingaram de ladrões e bateram na van que os transportava.

Já militantes petistas levaram um carro de som para a porta da PF, em Brasília. Cerca de 20 pessoas gritavam: “Dirceu, guerreiro, do povo brasileiro” e “Genoino é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo”.

Já na descida da van que chegava ao IML em Belo Horizonte, Marcos Valério resolveu andar à frente dos policiais. Um agente federal foi pegá-lo pelo braço. Ele deu um empurrão de leve no policial e lhe disse: “Bela incompetência, incompetência total”.

Dia simbólico 
Desde a noite de sexta, em pleno feriado da Proclamação da República, Dirceu e Genoino já haviam se apresentado na sede da PF. O presidente do STF, Joaquim Barbosa, escolheu um dia simbólico para proclamar a lista dos 12 condenados com prisão imediata.
Dizendo-se inocentes, Dirceu e Genoino saíram de suas casas levantando os braços com os punhos fechados. Repetiram o gesto na chegada à sede da Polícia Federal.

Ambos disseram que foram condenados sem provas e acabaram vítimas de um julgamento político. “Sou preso político. Viva o PT”, gritou Genoino. “Porque é só ler os autos para ver que sou inocente, que fui condenado não pelo que fiz, mas pelo que represento. É uma condenação política”, declarou Dirceu.

Separados
Dirceu e Genoino passaram a noite em celas separadas. Ao amanhecer, eles receberam pão com manteiga, café com leite e uma fruta. Os condenados de Belo Horizonte passaram a noite em duas celas. As mulheres, a banqueira Kátia Rabello e Simone Vasconcelos, dividiram o mesmo espaço.

Na outra, ficaram os cinco homens presos. Como cada cela só tem duas camas, no caso dos homens, teve gente que dormiu em colchões no chão. As mulheres dormiram em camas de alvenaria.

A prisão dos mensaleiros se dá um ano depois do Supremo Tribunal Federal (STF) condenar 25 réus do processo do mensalão. Em julgamento realizado em 2012, sete anos depois que o escândalo estourou no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o STF considerou que a operação comandada por José Dirceu, então chefe da Casa Civil, atuou num esquema de compra de votos no Congresso Nacional.

Prisão de mensaleiros tem repercussão mundial
A prisão dos condenados do mensalão repercutiu na mídia internacional. Para a rede britânica BBC, o julgamento é visto como um teste para a capacidade do Brasil de combater a corrupção: “Julgamento do mensalão no Brasil: chefes da quadrilha presos”. Já o americano Wall Street Jornal vê a condenação  com dois lados. Em primeiro lugar, as prisões poderiam prejudicar a campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Por outro lado, a própria Dilma poderia utilizar o episódio para mostrar que o governo dela é imparcial na repressão aos corruptos. “Líderes do caso de corrupção do mensalão são presos”:  a revista The Economist chega a afirmar que brasileiros ainda duvidam que os condenados ficarão presos. “Corrupção política no Brasil”: o episódio também teve espaço na Espanha. O caso foi a manchete do site do jornal El País, que anunciou “Dirceu e outros oito condenados pelo caso do mensalão se entregam à polícia”.

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