Depois do terremoto, Haiti tem de lidar com seus milhares de órfãos

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 20 jan 2010

Uol

Um bebê de 5 meses que está internado em um hospital israelense em Porto Príncipe tem um número em vez de um nome. Nenhum integrante da equipe de resgate sabe quem deixou a criança no centro médico improvisado depois de retirá-la dos escombros de um prédio, quatro dias depois do terremoto que devastou a capital haitiana.

Agora os médicos têm uma decisão difícil pela frente. “O que vamos fazer com ele quando o tratamento terminar?”, disse o doutor Assa Amit, do departamento pediátrico de emergência do hospital israelense. Ninguém sabe quem é a família do menino e se seus pais estão vivos.

Segundo dados de grupos internacionais de ajuda, assim como este bebê, dezenas de milhares de crianças ficaram órfãs depois do terremoto em Porto Príncipe. São tantas, que os especialistas nem arriscam falar em números. “Com tantos edifícios destruídos e o crescimento constante da violência, é certo que muitas crianças estão sozinhas nas ruas”, disse Elizabeth Rodgers, do grupo britânico SOS Criança.

Nesta terça-feira, entretanto, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alertou que os órfãos devem ser adotados no exterior apenas como último recurso. O Unicef está tentando identificar e registrar crianças que vagam desacompanhadas pelas ruas caóticas da capital.

A porta-voz do Unicef, Veronique Taveau, afirmou que a agência teme a ocorrência de tráfico de crianças. “A posição do Unicef sempre foi a de que, qualquer que seja a situação humanitária, a reunificação familiar deve ser favorecida”, disse Taveau numa entrevista coletiva.

“Se os pais morreram ou estão desaparecidos, devem ser feitos esforços para reunir a criança ao restante de sua família, incluindo avós”, afirmou ela. Uma criança deve “permanecer, na medida do possível, no seu país de nascimento. O último recurso é a adoção inter-países”, disse.

Mesmo antes do terremoto de 7 graus na escala Richter que atingiu o país há uma semana, o Haiti contabilizava 380 mil crianças morando em orfanatos ou lares comunitários e 48% da população do país tinha menos de 18 anos, segundo informações da Unicef.

Muitas crianças haitianas perderam os pais em catástrofes anteriores ao terremoto, como nas tempestades que mataram 800 pessoas em 2008 ou nas inundações que castigam o país todos os anos desde 2000. Outras foram abandonadas em meio à longa disputa política que levou milhares de pessoas a pedirem asilo nos EUA, deixando as crianças para trás.

Ajuda internacional
Na última segunda-feira (18), o governo da Holanda mandou um avião carregado de funcionários da imigração do país para localizar 100 crianças que já estavam sendo adotadas por casais holandeses.

No mesmo dia, a instituição Kid Alive International, que cuida de orfanatos por todo o mundo, enviou uma nota oficial afirmando que levará 50 crianças para as casas do grupo na República Dominicana.

A imigração americana também garantiu que crianças haitianas que tenham parentes residentes dos EUA estão entre os que podem obter permissão especial para morar no país.

Nesta terça-feira (19), os Estados Unidos conseguiram levar do Haiti para a cidade de Pittsburg (Pensilvânia) 53 órfãos cujo processo de adoção estava prestes a ser concluído antes do terremoto.

As crianças viajaram esta manhã para Pittsburg acompanhados do governador da Pensilvânia. Logo depois, foram levadas para um hospital em Lawrenceville para avaliação.

Os 53 órfãos entraram nos EUA com uma visto temporário e são do orfanato Bresma, de Porto Príncipe, onde havia 130 menores. Espera-se que as demais crianças sejam levadas a Pittsburg posteriormente.

A Igreja Católica em Miami quer aprovar uma proposta junto ao governo para permitir que milhares de crianças órfãs sejam definitivamente levadas para os Estados Unidos. Uma medida semelhante, chamada de Operação Peter Pan, trouxe 14 mil crianças cubanas para território americano em 1960.

O chefe humanitário da ONU, John Holmes, disse que a organização está criando um grupo cuja missão no Haiti será o de proteger as crianças – órfãos e não-órfãos – contra o tráfico, sequestro e abuso sexual.

Apesar dos esforços, em uma das macas da ala pediátrica do hospital de campanha israelense, o paciente número 236 – um menino de seis anos – chora de dor. Parentes o trouxeram para o centro médico logo após o desastre. Ninguém sabe o nome do menino e os médicos suspeitam que ninguém virá buscá-lo. Por enquanto, essa é a triste realidade das crianças haitianas.

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