DIRETO DA PRAÇA

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 07 fev 2010

Paulo Pires

Raízes do Mal

Diante da violência desenfreada em Vitória da Conquista, penso que as forças tarefas de nossa inteligência deveriam se debruçar em pesquisas, estudos sobre o que efetivamente está nos conduzindo para esse estado de coisas. Com o dever posterior de apresentar para nossa comunidade o que deve ser feito para que tenhamos uma sociedade vivendo e convivendo no campo da normalidade civilizatória. É inconcebível a aceitação desse feixe de violência afetando nosso quotidiano no nível em que se encontra. Recentemente saiu um livro sobre o assunto [Cadernos sobre o Mal] e o seu autor, Joel Birman, faz no campo da psicanálise e psicologia social um belo trabalho em relação ao tema. Uma sinopse da obra declara o seguinte: “As formas de violência e de agressividade representam um cenário de horror que apavora a todos. Provocam debates que têm eco em diversos campos da disciplina. Nestes cadernos, Birman propõe uma discussão a partir da Psicanálise”. A essa altura do campeonato, posso dizer que não há dúvida que a violência no Brasil hoje é, juntamente com o desemprego e o problema da moradia, o maior desafio com os quais nossa sociedade e o Estado se defrontam.

Mas, acompanhando o desenrolar dos fatos em Conquista, observei que após o inominável fratricídio da semana passada as discussões ficaram circunscritas às esferas policiais e jurídicas, sustentadas por abordagens de direitos humanos e correndo paralelamente a um processo de des-responsabilização das autoridades. Isso me pareceu pouco e fiquei intrigado. Penso, do meu lado, que esta coisa tratada no âmbito apenas policial funcionaria apenas como um médico que quer tirar o sal de um grama de comida para um paciente hipertenso há 70 anos. Foi essa a minha impressão. Essa coisa da violência não pode ser tratada apenas pensando em penalização de indivíduos e construção de cadeias. Daqui a uns dias, de acordo com essa lógica teremos que construir 700 mil cadeias para botar “marginais”, o que em minha visão, não resolveriam o problema.

É preciso atacar o problema com utilização de instrumentos realmente transformadores. Já disse em outra ocasião que nossas autoridades nunca ligaram para a questão Demográfica e parecem demonstrar pouco interesse para questões relacionadas ao Planejamento das Famílias. Estamos construindo uma sociedade com células familiares totalmente desarrumadas ou esfaceladas. Nossas jovens mães [Inocentes da Pátria] estão funcionando como verdadeiras fábricas de indivíduos alienados e desprotegidos e consequentemente “marginais”. Essas crianças, nascidas nessas unidades, jamais compreenderão suas funções sociais e/ou de cidadania porque os seus pais também nunca compreenderam o que é um País, uma Pátria, uma Nação, Sociedade, Direitos e Deveres. Portanto, ninguém em um cenário como este é capaz de entender que regulando as condutas individuais e coletivas existem Estruturas, Códigos, Leis e um Conjunto de Normas. É óbvio que aqui não se propõe uma Eugenia ou coisa equivalente. Isso é seria de um hitlerismo imperdoável. Todo mundo tem direito a ter filhos. Mas o certo é que a todos tem que ser dado o direito de um acompanhamento ou direcionamento com destino certo à inclusão social, capazes de assegurar o surgimento de pessoas livres, probas e comprometidas com a cidadania.

Quantas perguntas deveriam ser feitas para atender as nossas reflexões? Lembremo-nos de que quanto mais hipóteses forem criadas mais dificuldades se apresentarão para responder a questão. Onde, como, quem, quando e o que poderia ser responsabilizado pelo surgimento da violência? Caim e Abel, dois irmãos, conforme a tradição cristã ocidental foram os primeiros a dar início a ela? A frustração individual e a injustiça social contribuem de que forma para que as pessoas se tornem refratárias e/ou revoltadas com o mundo em que vivem? A violência é inerente apenas às classes menos favorecidas ou as classes mais abastadas da sociedade também são e quando não são concorrem indiretamente para alimentar o processo? Os problemas sócio-econômicos seriam os responsáveis diretos pelo problema? Quantas perguntas e respostas seriam necessárias para equacionar este problema? É bom ou seria inadequado viver em uma sociedade de controle?

Uma sociedade de Anjos

Não queremos uma sociedade de anjos perfeitos. Até porque, segundo um famoso dinamarquês, somos anjos deficientes por natureza. Mas também não precisamos ser tão deficientes moralmente. Como diria o Caetano Veloso, alguma coisa está fora de ordem. Ou muitas coisas, no entendimento de outros. A sociedade na qual vivemos, parece sistemática e sintomaticamente muito aquém daquele mundo civilizado que sonhávamos. É um mundo varrido por uma decadência assustadora. A mediocridade impera. Pessoas que a gente tinha como finas não passam de pilantras e cafajestes. Pior é que são essas que servem de espelho aos que veem a delinquência como o caminho mais fácil de “se dar bem na vida”. O fato é que não vai ser com mais presídio e mais policiais na rua que a coisa vai ser acertada. Só ações educativas, sociais, econômicas, políticas, éticas, morais, deverão ser implementadas para que ao longo de umas três gerações [décadas] possamos resolver boa parte deste problema. Apenas polícia, bordoada, discurso bonito cheio de humanismo não vão ser suficientes. Tampouco, repito, construções de mais Presídios e Centros de Ressocialização. Nada disso vai resolver.

Finalizo acrescentando que reuniões do Ministério Público com a OAB, CONDICA e outras Entidades, apesar de importantíssimas sob o ponto de vista do olhar da Sociedade Civil em sua mais elevada representatividade, são ineficazes no que concerne ao ataque direto ao problema. Este é tão grave que só será reduzido a níveis desejáveis, quando houver Política de Estado. Penso que nem mesmo políticas de Governos dariam jeito. A Violência é questão para o Estado [Federal] que tem o dever de desencadear programas e políticas com todos os Canais, todos os Recursos, todas as Inteligências, todas as Entidades, todos os Saberes utilizados epistemológica e transversalmente no saneamento do problema. Fora disso, não há solução. Com a palavra: Pensadores e Executivos. Até a próxima se Deus quiser.

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