Era uma vez no Nordeste

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 23 fev 2019

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Por Nando da Costa Lima 

Zeca Açougueiro viajou pro Rio de Janeiro à procura de uma mulher à sua altura. Todo mundo foi contra a ideia, tanta mulher bonita dando sopa aqui na Bahia. Mas, como era riquíssimo , ninguém ia contra. Tinha Maristela de Seu Leôncio, uma moça linda e prendada. Tá certo que tinha aquele problema com os dentes (era banguela), mas com o dinheiro que ele tinha, aquilo podia ser corrigido. Naquele tempo, ou o cidadão era banguelo ou usava chapa quando era mais remediado. Dentista formado era coisa rara. Dor de dente era um problemão, quando aparecia, só fazendo a extração… A meninada morria de medo, mas se você examinar as ferramentas de trabalho de um dentista no início do século XX, vai pensar que eram instrumentos de tortura da Idade Média. Apesar de que tinha gente com os dentes perfeitos e mandava arrancar tudo só pra usar chapa, era quase que uma moda. Um sorriso “portátil” era o sonho de muitos. Naquele tempo era difícil ter uma cabeceira que não tinha um copo d’água pra colocar a dentadura. O casal quando era romântico usava um copo pra guardar as duas. E eles achavam aquilo lindo. Noca da Farmácia deixou Mariana apaixonada depois que a convidou pra botar as dentaduras pra dormirem juntas. Foi a cantada mais fatal de que se tem notícia, a menina “gamou”!

Mas Zeca Açougueiro queria uma mulher moderna, por isso foi procurar no Rio de Janeiro, de preferência uma carioca legítima. Foram dias de viagem, naquele tempo nem a Rio Bahia estava toda asfaltada! Zeca era um homem com seus 50 anos, viúvo e tinha dois filhos já adultos. Só sabiam dirigir e comer, os gêmeos já estavam com quase trinta anos e agiam como adolescentes “passados”. E foram os três que fizeram a viagem pro Rio num Jipão. Só um dirigindo cansava muito e ele queria que a escolhida conhecesse a família logo, queria tudo às claras, não queria problemas futuros. Naquele tempo não tinha esse negócio de malhação, o máximo eram as aulas de ginástica duas vezes por semana no ginásio, eram as famosas aulas de educação física. “Malhação” era palavrão!

Lindonésia já tava beirando os cinquenta e cinco! Mas se cuidava, e ele já tinha explicado para os filhos que queria uma mulher madura mas consistente, como a Jurubeba Leão do Norte: boa em qualquer quarto de Lua. Zeca ficou pouco tempo no Rio de Janeiro. Estava com pressa, pois a fazenda tinha ficado na mão do vaqueiro. Não passou três dias, ele bateu os olhos na mulher ideal: era madura, elegante e com certeza era muito popular. Zeca a notou da janela do quarto do hotel Paris, ela não saía da esquina que ficava o semáforo, e ele ficou intrigado sem saber por que ela nunca atravessava. O sinal abria, fechava, e ela lá. Só quando alguém oferecia carona que ela não perdia tempo. Lindonésia era persistente, enquanto um carro não parava, ela não arredava o pé da “sinaleira”.

Da varanda do hotel, Zeca ficava encarando Lindonésia e fazendo planos para o futuro. Os filhos já estavam ficando retados com a prosa ruim daquele velho chato apaixonado. Ela já tinha cadeira cativa no coração do viúvo. Um dia, já doido de paixão, Zeca fez um bilhete de três páginas convidando-a para um jantar íntimo no hotel. Quando os rapazes chegaram acenando o bilhete, Lindonésia foi logo alertando: “Pra ficar com os dois é mais caro”. Eles não entenderam nada. Apesar de adultos, foram criados naquele fim de mundo. Só entregaram o bilhete à piranha. Ela começou a ler e perguntou se era alguma brincadeirinha. Quando leu direito o bilhete e percebeu que se tratava de um pedido de casamento e viu que os dois rapazes estavam esperando a resposta, concordou com tudo que foi posto e aceitou o convite para jantar. Chegou a ficar emocionada, já tinha descartado essa história de casamento. Mas agora era coisa séria, ela não podia perder aquele pretendente. Já tava ficando coroa, e pela foto enviada junto ao bilhete, ele não era de se jogar fora.

Zeca chorou quando os filhos falaram que ela ficou emocionada quando viu o retrato que ele enviou junto com o bilhete, quase desmaiou… No dia marcado, ele já foi encontrá-la na porta do hotel com um anel de noivado, um diamante enorme. Isso deixou Lindonésia ainda mais interessada, e ele entendeu que aquilo era amor à primeira vista. Na hora que foram para o restaurante, eles já estavam noivos. Ela até se fez de difícil, perguntou se os filhos dele não iriam achar ruim. Os rapazes se prontificaram a acalmá-la. E tudo correu “como nos conforme”, Lindonésia já saiu do hotel com o casamento marcado. Zeca tinha pressa, tinha encontrado o que procurava. Ela era o máximo! Não podia escutar tango que chorava, era muito sentimental. Não voltou ao velho ponto de guerra nem pra se despedir. Já tinha tomado raiva daquela sinaleira, a idade não a estava deixando trabalhar direito, a juventude da concorrência já tinha espantado os clientes. Estava ficando difícil, aquele viúvo rico tinha caído do céu! Quanto aos filhos, estes não iriam causar problema. No quinto dia dele no Rio, o casamento já estava marcado. Casou-se no cartório e deixou a cerimônia na igreja pra fazer em sua terra, e a noiva concordou prontamente. Ele voltou pra roça com os filhos e ela ficou no Rio arrumando o enxoval, tinha menos de um mês pra arrumar tudo, até o vestido de noiva, uma das exigências do marido. Ele ia matar muita gente de inveja quando aquela “loirona” entrasse na igreja toda de branco.

Quando ele deu a notícia na venda cheia de gente, já foi de propósito, queria esnobar, e pra fazer inveja pro pessoal, mostrou uma foto de Lindonésia só de maiô. O viajante Zé “Bico Doce” bateu o olho e foi logo falando: “Essa aí eu pego toda vez que vou pro Rio. Ela faz ponto debaixo da sinaleira do Hotel Paris, teve até uma vez que ela me empestiou de chato…”. Mal ele acabou de falar, Zeca Açougueiro passou a mão na “canela seca” pra tirar satisfação, aquilo era um absurdo! Bico Doce foi mais rápido e acertou Açougueiro. Quando os gêmeos escutaram o estampido, entraram correndo. Zé se sentiu intimidado e atirou nos dois. Foram três tiros fatais, uma tragédia. Bico Doce sumiu caatinga adentro. Era neto de cangaceiros, conhecia a terra na palma da mão e vivia na sombra da valentia do avô cangaceiro. Nem o cabo Josimar “Cabeleira” tinha coragem de ir atrás. Mas a coisa ficou mais triste quando Lindonésia chegou poucas horas depois da tragédia. Chegou pra enterrar o marido e os enteados. E na hora da missa de corpo presente, jurou que nunca mais tiraria o luto fechado. A viúva Lindonésia passou a ser um sinônimo de fidelidade e sinceridade nos quatro cantos da caatinga, teve um cantador de feira que fez uma embolada falando do amor interrompido. Usou o luto fechado até sua morte, como prometido… Mas só andava “à paisana” pra não perder tempo.

Viveu 86 anos e era famosa por ser a única fazendeira que tinha 9 vaqueiros, 6 jardineiros e 4 jagunços pra proteger o patrimônio e tocar o latifúndio pra frente. Uma mulher forte, não se sabe porque não entrou pra política. Talvez porque tinha aquela suspeita de que foi ela que contratou Zé Bico Doce pra dar um sumiço no marido…

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