História de Amor

0

Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 28 jul 2018

Tags:, , ,

Por Nando da Costa Lima

Marineide Escapulária do Esplendor era filha única do finado coronel Dodô “Todo Ruim”. Ela estava na varanda do casarão quando um conhecido desapeou do burro e lhe dirigiu a palavra. Ela reagiu irritada:

– Não é possível! Isso é invenção de alguma “piranha” que deu em cima dele e ele nem deu bola. É gente que não tem coragem de se vingar e fica “estrumando” os outros pra cima dos seus inimigos. Você acha que Dagoberto, o Rouxinol do Sertão, ia perder tempo costurando a boca do jegue do velho Zé “Morroida”? Isso é invenção dos linguarudos da marca do senhor.

– Não, dona Marineide, tem muita gente que acredita que o problema é que ele deu em cima da filha do “véi” e ela mandou ele procurar o lugar dele. Tirado do jeito que ele é, não se conformou com a desfeita, encheu a cara de pinga e costurou a boca do animal com agulha de sapateiro e uma corda de sua própria viola. Uma maldade, o jegue do “véi” ir pra feira.

– João Boca Lisa, João Boca Lisa. Pare de trazer conversa da rua pra dentro de minha casa.

– Não, dona Marineide, quem contou tudo foi a irmã do vigário, ele estava presente!

– Não meta o reverendo em fofoca, e por favor saia da minha casa. Onde já se viu um homem de bem, que vive de cantoria, perder tempo costurando boca de jumento por causa de “uma qualquer”. Bastava ele cantar “Justiça de Deus”, com aquele vozeirão, ui, ui, ui! Aquilo que é voz…

– Ué, dona Marineide, eu nem tinha notado que a senhora tinha gostado tanto desse homem.

– Gostei da voz do artista, seu ignorante linguarudo. É desse tipo de conversa que surgem os boatos. Passa daqui, seu corno, se você continuar eu vou contar pro capitão Vavá, meu noivo. Ele gosta muito de fuxico.

– Mas dona Marineide, pra quê essa agressividade? A cidade toda sabe que a senhora é a maior admiradora do “cantadô”, deu até uma casa pra ele morar com a família.

– Dei porra nenhuma, avalizei. É claro que achei melhor que ele me pagasse na próxima campanha cantando pro deputado que eu apoiar. Enquanto isto, ele fica fazendo os showzinhos lá em casa, pra ele não se sentir jogado.

– Ué, dona Marineide, então a senhora tá dando festa em casa todo dia. Pra pagar uma casa daquelas no centro…

– Escuta aqui, seu Boca Lisa filho de uma puta, se você estiver pensando em sair daqui já com o fuxico pronto, eu garanto que será a última vez que você fuxica na vida. Quem vai tampar a boca do conversador é o capitão Vavá, meu noivo. Já imaginou quando ele souber?

O fofoqueiro já estava de orelha em pé, sabia que tinha plantado um fuxico no lugar errado. Foi o jeito apelar.

– Dona Marineide, não tá mais aqui quem falou que Florisberto “Cantadô” costurou a boca do jegue do “véi” Zé “Morroida” só porque a filha dele não deu ousadia e ainda mangou dele, falando que só gostava de cantor da capital.

E, ajoelhado, jurou pra ela que da boca dele não saía um “a” daquela conversa besta. Sabia que dona Marineide não estava brincando. Não por causa do noivo, este nem existia. Ela só falava isso pra afastar os pretendentes, todos queriam a mão dela. Cansou de rejeitar pedidos, e olha que ela não era tão bonita. Lembrava o finado seu pai sem bigode e usando vestido. O “cantadô” encarou sorrindo, o coronel era dono de léguas de terra!

Mesmo depois de pedir desculpas ajoelhado, Boca Lisa saiu meio desconfiado. Ele não seria o primeiro que dona Marineide mandaria seus cabras “dar um jeito”. Mas, como todo fofoqueiro, tava se sentindo realizado, conseguiu plantar o fuxico. Anoiteceu no lugarejo. Dona Marineide, como fazia sempre, mandou chamar o “cantadô” pra fazer um recital particular, como era de costume. Ele já tinha até uma entrada secreta pelo muro dos fundos. Quando a moça que foi dar o recado voltou falando que seu Florisberto tava sem poder tocar viola porque um jumento enfurecido mordeu suas mãos (era o jegue do “véi” Zé “Morroida”), dona Marineide virou um bicho. Aquele sacana tava brincando com a mulher errada! Mandou três camaradas trazerem o cantador, mesmo que fosse à força. Quando os cabras voltaram, o músico já tava um pouco machucado, mas ainda aguentava falar, mas quando ela confirmou que as mãos dele estavam todas cheias de mordidas de jegue, ficou tão retada que mandou costurar a boca do cantador traidor com o elástico da sua própria caçola. Provou que era filha do coronel Dodô “Todo Ruim”. Usaram agulha de costurar sola, e ela fez questão de assistir a tudo. Não deixou rolar uma lágrima, tinha que ser firme. Desse dia em diante ela nunca mais se interessou por homem nenhum, Ele teve que fugir pra “Sompaulo” no mesmo dia, ela deu 24 horas para que sumisse de vista…

Dona Marineide tinha o coração bom, deu tempo pro safado fugir. Ela até comentou com cara de menina desprotegida e mimada:

– Se papai fosse vivo, esse filho de uma égua tava lascado.

Os comentários estão encerrados.