Literatura e os bons poetas já não existem mais, estão mortos.

0

Publicado por Roberto Silva | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 15 jan 2013

Tags:, ,

Por/ Alberto David

Alberto-David4Não se pode falar em literatura, sem se lembrar do notável Mozart Tanajura e sua importância para o cenário cultural de Vitória da Conquista.

Foi o escritor mais completo da história literária desta cidade, pois atuava como critico literário , prefaciador, memorialista , historiador , romancista , colaborador de vários jornais de conquista , inclusive para o jornal A Tarde , professor , autor de livros infantis , monografias , enfim , dominava qualquer texto ou assunto com maestria .

Mozart era um escritor popular e humilde, que atendia a quem o procurasse para instruir sobre diversos assuntos, pois com o seu conhecimento, passava muita confiança. Um exemplo disso pude constatar na ocasião de desenlace de meu pai , em 2000, em que estava bastante emotivo e escrevi sobre ele , prestando a minha última homenagem à sua história, através de uma crônica cujo título era “Pai, sinto muito a sua falta”, publicada em página inteira, de um jornal da terra , seria minha surpresa para Mozart, pois até aquele instante eu não sabia que ele já tinha o jornal em mãos. Seria , também , um desafio para mim, pois todos os artigos que publicava tinha que ter o aval dele. Este não teve ; daí a surpresa. Pensei: “Vou aguardá-lo na Alameda Lima guerra, local dos nossos bate- papos e, na hora certa… mas, de pronto, Mozart mal chegou perto de mim e abriu o seu classificador, tirou o jornal e fez a referência: “ Li o artigo que você fez para o seu pai, tem passagens muito bonitas , está muito bom, é o melhor texto que você escreveu. E eu, emocionado, disse-lhe : “Mozart, dê uma nota para mim de zero a dez” . E rapidamente, respondeu: “Sua nota é nove e meio “.

Todos nós escritores e interessados em escrever usufruímos do seu conhecimento . Sinto muito sua falta, principalmente quando ando pelas ruas da cidade e não o encontro para colocarmos as fofocas e as letras em dias .

Tudo isso vem a calhar com a morte de mais um conhecedor de literatura, que convive com todos os gêneros literários, um romancista premiado com o livro “ Um olhar para trás “ , prêmio Zélia Pitton . Sua monografia para o curso de Letras foi um trabalho extraordinário sobre o cordel, escrito em várias laudas . Quando Digo vem a calhar, é porque Geraldo se assemelha, em muitas coisas , ao escritor Mozart, pela humildade , conhecimento , espírito tranquilo , mesmo ante as intempéries, e no talento e na inteligência privilegiada .

Geraldo Xavier, há tempos, vinha sofrendo de graves problemas de saúde em especial do coração e precisava de apoio financeiro para viajar e poder tratar da saúde que estava precária, precisava de acompanhamento médico e cirurgias . Não tinha um tostão . A verdade dói, mas não envergonha a quem sente , muito pelo contrário , revolta . Não tinha nem as passagens necessárias de ir e vir, fora outros problemas financeiros. Um dia nos reunimos para ajudá-lo a quitar o imposto predial e vi lágrimas no rosto de Geraldo Xavier , talvez pela emoção de ter conseguido o objetivo ou ter que passar por isso. Ele era licenciado em História e tinha outros cursos que não chegou a completar , daí a sua intelectualidade também comprovada . Isso tudo é revoltante .Muita coisa se assemelhava a Mozart, visto que dominava todos os gêneros, era humilde, popular , rezenhista atendia com boa vontade a quem necessitava de uma orientação , de uma instrução . Era de um espírito tranqüilo que me assombrava, em momentos difíceis que ora passava , só teve uma vez , em que, nele, com o cigarro em punho e cabeça baixa, dei uma bronca:

“Geraldo , o que está acontecendo, cara ? Joga este cigarro fora, mas será possível ?! Geral do, você não se toca, como pode você nessa fase necessitando de tratamento e continua fumando deste jeito! “ Ele, com o ar tristonho e o olhar perdido, obviamente de tantas decepções , falta de amigos , ajuda , reconhecimento, pois Geraldo, o Xavier, teria de estar na capital para os exames e as cirurgias já por diversas vezes marcadas.

Disse-me: “ Alberto, já estou em outra, vou fazer uma viagem … não estou mais nem aí ” . E eu insisti: “Mas Geraldo, eu não acredito no que estou ouvindo. Não faça isso! Se cuide! E em seu olhar dizia:

“Mas como ?”

Voltando ao prof. Mozart , naquela tardezinha, já ao pôr do sol de 20 de agosto de 2000, ali na alameda , gente descendo e subindo, atrás me lembrou do grande Drumonnd , quando da janela de sua casa observava as pessoas passando , indo e vindo e, de repente, se chatear e antes de fechar a janela , diz : ÊTA VIDA BESTA ! , e entre os olhares do ir e vir – meu pensamento voltou à Alameda Ramiro Santos:

“Mozart , aqui não adianta publicar mais nada, tudo que você publicar por aqui não vai dar em nada , nem que seja uma obra importantíssima , vai morrer por aqui mesmo. É como andar em círculos”.

“Você tem razão Alberto” – ele concordava com o meu posicionamento.

Conclusão : Geraldo se foi , faltou a fraternidade , a irmandade, a o amor pregado por Cristo. Ele estava só ! 1!

Os maiores exemplos estão aí, na complexidade das trajetórias destes dois monstros da literatura : de uma trajetória literária esplêndida, mais em conta de uma passagem miserável pela vida, ainda mais para o Geraldo Xavier.

Que descansem em paz Geraldo e Mozart ! Vocês serão bem mais aproveitados como secretários de Deus .

A literatura e os bons poetas já não existem mais. Estão mortos. Esta é a grande verdade, doa a quem doer !

Geraldo se foi, sem mais nem menos. Ele estava só!

Isso tudo é revoltante !

Os comentários estão encerrados.