MAIS QUE HOMENAGEM, UM TRIBUTO

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 17 out 2012

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Esechias Araújo Lima

Outubro de 2012

Estamos aqui reunidos para uma homenagem a Dário Ciacci. Mas, como bem significa o termo, homenagem  tem a ver com cortesia,  favor. Talvez fosse mais apropriado chamar este  ato de tributo. Tributo remete a imposto, algo devido a alguém. Ora, no caso de Dário Ciacci, quero crer que estamos a prestar-lhe um tributo, sim, ou seja, algo que lhe é devido.

Mas por que  alguém,  oriundo das Minas Gerais, especificamente  das paragens serranas de Varginha, mereceria tal tributo?

É possível que seja pelo senso de futuro espelhado nos olhos daquele  jovem que desceu a Vitória da Conquista, numa remota tarde nevoenta dos idos de maio de 1962, a bordo de um rudimentar bimotor,  e se rendeu de pronto aos seus encantos de cidade fria, mas hospitaleira?  Foi, segundo ele,  um alumbramento, um encanto entre  filho e mãe adotivos.

Quem sabe se pelo olhar de espanto daquele jovem que, por certo, se perguntava em que esquina de galáxia  o destino lhe havia reservado  aquela brusca mudança de vida.

Talvez  seja pelo enorme talento demonstrado desde os primeiros momentos em que, empossado no Banco do Brasil, começou a ver a vida por uma ótica social,  àquela época não muito em voga.

É possível que este seja um preito de gratidão a quem mergulhou por inteiro num trabalho respaldado na sinceridade, na dedicação, no desprendimento, marcas indeléveis de sua passagem pelo Banco do Brasil, àquela ocasião um potente propulsor do progresso e da alavancagem agroindustrial.

Quando Vitória da Conquista teve seu foco econômico-financeiro deslocado do eixo puramente comercial e viu suas terras se cobrirem do branco floral do cafeeiro, ali estava Dário, na antiga CREAI, atendendo com seu sorriso e gentileza aos agricultores, do pequeno meeiro ao expressivo latifundiário, com a mesma atenção, com o mesmo respeito, com o mesmo desvelo.

Eis que o sentimento maior lhe fisga o coração. Era tudo que lhe faltava para fincar raízes nestas terras. A Bahia havia de lhe dar mais que “régua e compasso”. Dera-lhe Nadir Quadros, sua musa,  filhas e netos, sua mais importante e preciosa herança, pedras inseparáveis do seu sedutor  jogo de xadrez com a vida.

Certo é que  Dario Ciacci merece nosso tributo também pelo artista que lhe habitava a alma. Demonstrando o imenso amor por esta terra, não buscou lá fora sequer uma peça.   Quadros e esculturas de grandes artistas conquistenses faziam das suas salas um acervo singular somente visto em quem se capitula perante a transcendência do belo. Juntamente  com Vicente Quadros, nome respeitado pela generosidade com que atuou na seara artística, fomentando-lhe as mais diversas manifestações, Dário ajudou a pavimentar o caminho de muita gente das artes plásticas, da música, da pintura e do teatro,  dentre elas Diana Pequeno, Orlando Celino, Paulo Soares, para citar alguns.

Dário Ciacci faz-se digno deste momento também pelo cunho social e místico com que atuou na Ordem Rosacruz, capítulo de Vitória da Conquista, promovendo mutirões para distribuição de alimentos, roupas, cobertas, e marcando sua presença em projetos sociais, como alfabetização, construção de moradias, dentre outros. Tudo sem alarde, cercado de muita discrição – traço marcante da sua personalidade.

Dário é merecedor do nosso tributo, também,  pelo desportista que foi, participando de vários projetos desta AABB, nos seus primórdios, além de restaurar o então combalido Clube de Xadrez, que hoje agrega, em seus torneios, pessoas de todo o País, em evento que entrou para o calendário desta cidade.

Sabe-se que, no coração do silêncio, moram os sonhos e os ideais. Destes, Dário fez os lances mais importantes da sua existência, infelizmente tão curta, contudo marcada pelo altruísmo, ética, retidão, empatia. E a pedra  final nesse imenso tabuleiro de Xadrez que é a vida foi mesmo o amor por Vitória da Conquista, amor que lhe rendeu esta imensa família hoje aqui presente, pois de Dário Ciacci cada um de nós tem, por certo, um pouco de irmão, um pouco de companheiro, um pouco de amigo e uma imensidão de saudade.

Mário Quintana, o grande poeta gaúcho, afirma que “a amizade é o amor que nunca morre”. Caetano Veloso, por sua vez, canta: “entre o amor e a amizade quem há de negar que esta lhe é superior?”

Rainer Maria Rilke assegura, em seu livro “Cartas a um jovem poeta”, que “o futuro permanece firme, mas nós nos movemos no espaço infinito”.  Dário  Ciacci soube se mover com sabedoria para forjar um futuro feito de solidariedade e justiça.

Assim, entre nós e ele, interpõe-se a imensa ponte da amizade que vai dar no coração do Eterno. Parabéns, família Ciacci. Parabéns, Vitória da Conquista por abrigar, em seu seio, um cidadão desta estatura moral e humana.

Esechias Araújo Lima

Outubro de 2012

 

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