O homem, a Imagem e o Artista

0

Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 19 Maio 2019

Tags:

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é PEL-1.gif

Por Alberto David

Às vezes a gente não quer pensar, voltar às coisas que já se foram, mas como desligar o botão das lembranças amargas de um tempo de sombras? O destino parecia pregar-me uma peça, voltar a casa onde nasci: “RUA FRANCISCO SANTOS”. Era como nos velhos tempos, lembranças de uma idade feliz. Tenho doces lembranças do antigo cinema Glória, então do Avant–Premier, do filme “O tropeiro”, do cineasta conquistense Osaná Rocha e a corte de ilustres de atores famosíssimos que vieram de fora, alguns de países estrangeiros, para a grande noite do cinema nacional com o filme rodado aqui na região. Lembro-me das noites festeiras de São João; do primeiro automóvel importado e da grande novidade, a chegada dos primeiros aparelhos de televisão em nossa cidade e também como me esquecer daqueles vizinhos que se cotovelavam pelos cantos da casa de meus pais para assistirem à novela das oito ou o programa de jovem guarda? Naquele tempo, poucos tinham condição de comprar um aparelho de TV. E as viagens à fazenda com meu pai no Jeep, o qual até certo trecho da estrada eu dirigia?

Mas voltemos à RUA FRANCISCO SANTOS, a casa onde nasci, que já não era a mesma coisa, aliás, não deixaram nem rastos de memória, a não ser de uma banheira enorme que funcionava para nós como uma pequena piscina, e que me deixou enormes lembranças, mas não era mais a casa onde nasci, a residência perdera o formato total, parecia ser uma ilusão, só havia na minha memória. A casa foi dividida em diversos cômodos para locações. Vivemos ali alguns momentos de esperança, eu, minha mulher e meus filhos.

Uma nova mudança seria bom para mim? Questionei-me. Iria recomeçar minha vida sofrida do zero, era aquele momento de muitas aflições. Mudei-me para um apartamento muito simples. No fundo, havia um quartinho que aproveitei e montei um atelier. Tristes ficaram as crianças que não podiam brincar, não tinham espaço, o quintal era um metro quadrado, para quem viera de uma casa com um quintal enorme, mesmo locada, ali na Rotary Clube. Eles ficavam ali na porta, distraindo-se, apreciando a rua, ficavam de pé nos banquinhos, para ver pelas frestas da porta o movimento da rua. Quem passava ali, ficavam embevecidos com a beleza dessas crianças e com dó, pois pareciam ser prisioneiras de si mesmas.

Chamo a atenção para a problemática das escolas públicas, que já nessa época era de péssima qualidade. A ironia é que tínhamos bolsas para os colégios particulares, dadas para a família através de um amigo muito influente, mas não chegavam até a nós, e

Com isso iria aumentar as despesas já tão miseráveis. Lembro-me até que deram para os meninos umas mochilas usadas, tudo bem que eram usadas, mas as condições delas eram lamentáveis. “Tomem estes trapos de volta, meus filhos não vão usar isso!” – bradou minha mulher. Interessante que só vim saber, há alguns dias, quando encontrei o amigo e ele me perguntou se meus filhos haviam se formado. Respondi que sim, mas nunca haviam sido beneficiados pelas bolsas. Então ele disse: “Eu passei essas bolsas para os seus meninos”. “Mas não as recebi”, respondi. Ele ficou indignado! Pior. As bolsas foram desviadas para satisfazerem seus egos. Mas lutamos e com muitas dificuldades conseguimos superar tal injustiça, se é que não devo dizer um adjetivo pejorativo.

Foram tantos tormentos e lutas e era muito comum os meus filhos chegarem dos colégios maltratados. Certa vez, uma das minhas meninas chegou em pranto da escola, pois jogaram sal em seus olhos. O momento era delicado para mim como artista, homem, e filho. Apesar de estar ali em condições desfavoráveis para seguir com a minha carreira, a família crescia. Com o lançamento de mais um livro, “Atalhos”, ganhei um bom dinheiro, mas o destino me trairia mais uma vez: meu filho adoece e os médicos daqui, de Vitória da Conquista, foram unânimes ao dar o diagnóstico: uma possível paralisia infantil. E eles foram mais além: se ficasse vivo corria o risco de ter de usar um pulmão de aço. Não perdemos a esperança. A criança foi levada a um especialista na cidade de São Paulo e o diagnóstico dizia: “a criança é portadora de uma intoxicação neurológica, causada por ingestão de substâncias tóxicas, encontradas em tintas a óleo”. O receituário fora simples: um vidro de cálcio e fisioterapia. E o doutor ainda enviou uma carta ao médico que o indicou para o caso, dando uma alerta. – “Os médicos daí têm de estudar mais”, disse Doutor Antônio Levi. Eu briguei para conseguir um especialista, meu pai tinha recursos para isso, tanta guerra para no fim das contas ficar no preço de uma consulta, e a criança sobreviveu, com pulmão e tudo. Três meses depois, a criança já corria. Na Francisco Santos, não havia espaço suficiente para pintar, e tive de abandonar as tintas a óleo, por serem tóxicas. Passei a usar o gauche e logo me defini no acrílico sobre tela, uma tinta à base de água, sem risco de nenhuma intoxicação. Não tínhamos móveis nenhum, naquele apartamento, lembro-me do sofá velho, uma televisão em preto e branco, e do mau cheiro que vinha do subsolo que, de repente, ficava a céu aberto e os escorpiões que proliferavam em abundância, flechavam pela casa até picar a minha mulher que se encontrava grávida, na expectativa de dar à luz.

Pedi tanto ao meu pai para me dar uma casinha para os netinhos dele, mas nada lhe fazia juízo, meu pai não era assim, algum inimigo agia por trás, uma força obsessiva ou egoísta. E então, perdi o norte. Vem-me à lembrança “A tragédia de minha vida”, de Oscar Wilde, que revela uma escrita ” desnuda”, numa linguagem clara, e é assim que gosto de dizer, de forma clara e verdadeira os fatos da minha vida artística, Um percurso que não foi fácil. Sim. Minha vida foi um inferno, vocês não sabem o que eu sofri. Tudo

parecia desmoronar. Mas minha mulher era igualmente uma espartana. E ficava horas e horas pensando. Eu tinha mais é que ser como D, Pedro parodiando em outras formas de expressão: ” levantar a cabeça, isso sim”. Queria reabilitar-me, soerguer, dar um basta. Sem alternativa, sem dinheiro e a família crescendo, nunca mais viria pintar a óleo. Sendo assim, parti para os desenhos. Cheguei até a fazer três exposições em Salvador, minhas mostras eram muito concorridas na mídia. Os lançamentos de livros também se sucediam. Foram várias noites de autógrafo, em Salvador, Biblioteca Pública do Estado da Bahia e em galerias dali. E fui me firmando. Sempre intercalando com idas à fazenda, ora servindo como atelier ou para somente escrever e um espaço para as crianças que adoravam passear.

Como o destino faz surpresas, a rua onde nasci e vivi um período tão feliz, com tantas memórias satisfatórias de minha infância e adolescência, até os dias de rapaz, jamais iria imaginar que um dia voltaria, num estado penoso, sofrido e perseguido. Para o meu consolo, ficam as expressões de Francisco Otaviano que ilustram muito bem minha trajetória: “Quem passou em brancas nuvens, em plácido repouso adormeceu. Quem não sentiu o frio da desgraça. Quem passou pela vida e não sofreu, foi espectro de homem, não foi homem, passou pela vida e não viveu”.

Os comentários estão encerrados.