O seu sorriso me cegou

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 10 nov 2018

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Por Nando da Costa Lima

No dia em que Cremildo “Boca Mole” declarou sua paixão pra Marionete no meio da praça, no aniversário da cidade, jamais imaginou que ela teria aquela reação: primeiro, teve uma crise de tosse que acabou engasgando; em seguida, desmaiou… Ele ficou apavorado. Guardou o anel de compromisso no bolso do paletó e foi socorrer a futura noiva, aquele desmaio só podia ser um “Sim”! Pensou errado! Assim que recuperou os sentidos, esculhambou com Cremildo. Mandou ele ir procurar o lugar dele, ela já tinha sido Miss Primavera em mais de dez cidades e  não estava a perigo pra aceitar pedido de qualquer um. Quem tava em volta parou pra ver o “barraco”, ela acabou com a “raça” do pobre do rapaz! Só que ninguém entendia porque aquela “perua coroa” tava esnobando um rapaz educado e trabalhador (se Miss recebesse aposentadoria, ainda ia). É claro que Cremildo não era essa “lindeza” toda, mas era bem situado na vida e tinha uns 30 anos a menos que Marionete Miss. O pessoal não entendia porque ela desprezou aquele partido, iria acabar sozinha. Já tava pegando no tombo! Isso segundo o povo que estava assistindo a “lavagem de roupa suja” em público.

Boca Mole, mesmo estando apaixonadíssimo, não deixou de responder à altura. Quando enfezava, ficava mais grosso que cano de passar tolete. Mandou ela calar a boca aos gritos e ainda disse que era a “piriguete” mais rodada do Planalto da Conquista. Aí Marionete rodou a baiana. Ficou mais de meia hora xingando, esculhambou até a família do rapaz. Foi a maior baixaria. Cremildo, mesmo com o coração partido, ficou tão retado que deu a lista dos nomes dos homens que ela tinha namorado, só escapou o vigário… Ela rebateu com classe: “Você só esqueceu de dar o nome do seu pai”. Aí o pessoal do “deixa-disso” se envolveu, todo mundo falando a mesma coisa: “Deixa a família fora dessa ‘cachorrada’”. Então os dois se tocaram, e foi cada um para o seu lado.

Cremildo Boca Mole ficou tão envergonhado que se picou pra “Sompaulo”, aquilo lhe deixou de calundu. Naquele tempo ainda se usava pouco o termo “depressão”. Marionete continuou na cidade, e de tanto pensar naquela briga logo no feriado do aniversário da cidade, também ficou toda sem graça. Parou até de sair. Na cidade já se comentava que ela estava ficando doida.

Dois anos se passaram, e na mesma data do aniversário da cidade, Marionente e o recém-chegado de “Sompaulo” Cremildo Boca Mole bateram de frente na praça. O pessoal fez a rodinha já esperando o bate-boca. Ela tava toda produzida e, pra espanto do pessoal, se atirou aos pés de Cremildo e desabafou: “Me perdoa por aquele dia, amor. Eu volto atrás e aceito o seu pedido”. Os espectadores já estavam ensaiando uma salva de palmas quando ele pediu silêncio e falou em “paulistês”: “Ô, meu. Quem gosta de coroa é rei”. Dessa vez ela não desmaiou, ficou mais retada do que nunca. Leu a cartilha do palavrão de A a Z pro sacana metido a merda. Procurou pelo chão alguma coisa pra arremessar na cara daquele bostinha. Tentou tirar os sapatos pra usar como arma, mas aquela bota de cadarço daria muito trabalho. Foi aí que teve a ideia que acabou causando aquele triste acidente. Na falta de uma pedra pra jogar naquele safado, ela meteu a mão na boca, tirou a dentadura e jogou na direção do rosto do “filho duma égua”. Por obra do destino, a chapa de Marionente acertou em cheio o olho esquerdo de Boca Mole. O pessoal ficou apavorado quando viu aquilo. Pegaram o rapaz e lavaram para o a casa de um “dotô” que retirou a dentadura que vazou o olho. Ficou pendurada, parecia que ela tinha mordido. O médico estancou o sangue e falou para os presentes: “Infelizmente, ele perdeu o olho esquerdo”.

Devido ao ocorrido, Cremildo não retornou pra “Sampa”. Aproveitou o tempo que teria que ficar em tratamento para compor uma canção e se inscrever no festival de música que iria acontecer no Cine Conquista. Chegou até a ficar entre os dez primeiros. Quem ganhou foi o cantor do Clube Social cantando “Nádia meu bem”, de Aroldão. Messias cantor ficou em segundo lugar cantando “Até setembro”. Mas, para Marionete, a melhor música foi a de Cremildo. Foi com aquela “belíssima” letra que eles se aproximaram. A música “Seu sorriso me cegou de amor” serviu para unir os dois, que fizeram questão de casar no dia do aniversário da cidade só para calar a boca dos fofoqueiros… E entraram na igreja ao som da composição pacificadora: “Quando vi o seu sorriso, vindo de encontro a mim, nem deu tempo de piscar…”.

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