Que diabos então estão fazendo com o amor?

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Publicado por Editor | Colocado em Cultura | Data: 14 nov 2013

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por Valentina Vaz

Prefiro não acreditar que a cultura da propriedade privada tenha transformado o amor em posse.

fotosSempre achei que, em terra onde tudo tem dono, havia um sentimento que fosse escapar à propriedade privada. Esse pensamento [ingênuo], me faz lembrar a época em que, “vendiam-se” esposas, àquela época em que, resolveram cercar com arame farpado toda liberdade absoluta.

Com tudo preso e de papel passado no cartório, nem o amor escapou. E eu aqui, achando que nos restaria ao menos a livre escolha do coração. Culturalmente meu amigo, sem perceber, somos todos propriedades privativas de alguém.

Estava lendo um livro da Alexandra Kolontai dia desses e, num capítulo sobre as relações entre os sexos, a autora traz uma reflexão sobre o ideal da posse absoluta, não só do eu físico, mas também do eu espiritual. É esse ideal que admite uma reivindicação de direitos, inclusive, sobre o ser moral das pessoas. Depois de ler sobre isso, a primeira pergunta que me fiz foi: A alma tem dono? Alguém aí fora pode roubar-me de mim?

 

Manoel de Barros se adiantou e, antes que o questionamento me viesse à tona, disse: “De dentro de mim, não saio nem pra pescar”. Que diabos então estão fazendo com o amor? Resolveram transformá-lo em sinônimo de pertencer à outra pessoa (como se isso fosse possível), criou-se a ideia equivocada de que, amar alguém, implica no direito de possuí-la. Eu, definitivamente, só posso ser minha.

Para minha loucura não ficar sã, se é que seja possível separar amor e pessoas em duas coisas distintas, prefiro não acreditar que a cultura da propriedade privada tenha transformado o amor em posse. Prefiro pensar que as pessoas é que estejam se intitulando como algo “possuível” e que o amor não tem nada a ver com isso. Sobre o assunto, no romance de Lasswitz, um habitante de Marte disse a um habitante da Terra: “Vossa terra é maior, talvez, mais bela que nosso planeta, mas eu certamente morreria em sua densa atmosfera. Pesados como vosso ar são vossos corações.” Por isso senhores, deixem o amor de fora disso e livre dos impostos. Resgatemos o amor culturalmente sem dono, livre e habitante dos corações leves. Até porque, “amar sempre, amar profundamente, é o destino ardente de todo grande coração”.

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