Sonhos

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 20 out 2018

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Por Nando da Costa Lima

Marilda e Marlúcia eram irmãs e faziam de tudo para os maridos se darem bem. Viviam se visitando, mas não tinha acordo. Os dois brigavam desde o tempo do colégio. Marculino era gozador, e Crispiniano, “ferrado”. Naquela noite, as irmãs estavam decididas a por fim naquela briga idiota. Até eles estavam bem-intencionados… E foi Crispiniano que puxou prosa:

— Já imaginou, Marculino! Você sentando numa cadeira de balanço, num casarão colonial, se deliciando com o doce de queijo em calda de Araxá, escutando Milton Nascimento em vinil, e tendo como fundo as montanhas de Minas ecoando o aboio de um vaqueiro trazendo a boiada e avisando à amada que está chegando… Isso pra mim é um pedaço do Céu!

— O compadre Crispiniano tá inspirado hoje, só faltou uma locomotiva! Quando você falou eu cheguei a sentir o gosto do doce de Araxá. Deu pra ver que você gosta mesmo de Minas. Eu também gosto, sou um grande apreciador da “Catira Mineira”. O bom da catira é que é fácil de dançar, basta ter um par de botas, sapatear e bater palmas.

Aí começou o bate-boca…

— Eu sempre achei que você fosse meio “passado”. Estou falando de um sonho poético e você vem com “Catira Mineira”. Essa dança é tão sem graça que só quem participa é velho e menino, e só quem assiste às apresentações são os parentes. Eu gosto muito da música, da poesia e da comida dos mineiros. Mas em se tratando de dança, não tem como. A Catira é dançada em todo o estado. Ô coisa esquisita! Eles colocam as calças por dentro das botas e fica um grupo de frente pro outro sapateando e disputando passinho. É triste! Mas vamos deixar isso pra lá e falar do que importa. Esse sonho eu tenho desde menino, se fosse espírita iria achar que é a tal da reencarnação, mas como eu sou da igreja…

— E se for reencarnação mesmo, compadre? Eu conheço muita gente séria que acredita. Será que em vidas passadas o compadre não foi Dona Beija?

— Espera aí, Marculino. Eu estou revelando um sonho que tenho desde criança e você vem com essa esculhambação. Tá me achando com cara de quê?

— Mas compadre, eu não quis ofender. É que parece que no espiritismo o homem pode reencarnar como mulher e vice-versa. Isto é, eu acho!

— E por que você foi escolher logo Dona Beija? Por que não Tiradentes?

— É porque esse sonho que você me contou parece sonho de mulher. Esse negócio de ficar sentado em cadeira de balanço, comendo doce e escutando aboio de vaqueiro. Sei não…  Tiradentes não tinha tempo pra isso.

— Se não fosse por minha cunhada eu te enchia de porrada, seu sacana.

— Para de violência, compadre. Eu e Marilda viemos aqui pra gente se acertar e parar com essas implicâncias. Além do mais, Dona Beija foi uma grande mulher, tanto é que faz parte da História.

— Marculino, se você continuar insistindo nessa prosa eu vou acabar pedindo pra você parar de me chamar de compadre. Onde já se viu, Dona Beija… E se essa prosa ruim cai na boca dos filhos da puta? Eu vou logo lhe avisando, se você for com essa conversa de Dona Beija pro meio da rua, eu não respondo por mim.

— Calma, compadre. O senhor embananou tudo, eu tava querendo elogiar o senhor…

— Me elogie com o meu nome, Crispiniano da Silva! Dona Beija é o rabo da…

— Pera aí, compadre. Calma, essa conversa vai morrer aqui. Eu pensei que o senhor fosse compreender, mas você é limitado!

— Limitado é o cú do…

— O que é que meu pai tem com isso? É melhor o compadre parar com essas ofensas e me contar o fim do sonho.

— Eu não vou contar merda nenhuma. Você só dá palpite errado, parece que tem inveja do meu sonho.

— É isso, compadre, deve ser inveja. Já pensou o senhor sentado numa cadeira de balanço, comendo doce e esperando o vaqueiro?!

— Marculino, Marculino. Cê tá pensando que o inferno é longe?

— Ué, compadre. Todo homem sonha, e como disse o poeta “os sonhos não envelhecem”. E o doce, a cadeira de balanço e o vaqueiro estavam no seu sonho…

Aí Crispiniano acabou metendo a mão na cara do compadre. Quebraram a casa quase toda, eram dois homens fortes! E desse dia em diante, nunca mais se falaram. As próprias esposas desistiram!

Marculino já morreu faz tempo. Crispiniano continua vivo e, na cidade, se alguém por ele perguntar, ninguém sabe quem é! Após aquele “quebra-pau” ocorrido há quarenta anos, o pessoal da cidade só conhece “Seu Beija”. No início, chamavam de Dona Beija, mas depois de ele quebrar uns dez na porrada, mudaram pra Seu Beija. Ele se acostumou com o apelido e até hoje gosta de contar a origem nos almoços com a família… Todo mundo conhece a história decorada. Eu acho que isso acontece com toda família, sempre tem uma história de algum parente que será lembrada toda vez que a família se reúne. E quanto mais o tempo passa, mais diminuem os ouvintes, e mais a gente aumenta o causo. A saudade sempre aparece.

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