Fé (Cordel)

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 25 abr 2020

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Por Nando da Costa Lima

Pode ser Nossa Senhora

Ogum, Oxossi ou Xangô,

quando a fé é verdadeira

tanto faz, padre ou pastor

É tanta gente partindo

tanto choro, tanta dor

tanta cova enfileirada

esperando morador

Nessa hora tudo é válido

as orações nas igrejas

as promessas dos romeiros

benzedeira e rezador

Clame aos santos guerreiros

Ogum, Oxossi e Xangô

E preste mais atenção

na pregação do pastor

Cristo sempre está ao lado

dos que cultivam o amor

No rufar dos atabaques

ou nos cânticos de louvor

E a tal desigualdade reflete na humanidade

diferença até na morte

Nos mostrando que na vida

não existe azar nem sorte

Só a fé, doce amiga, pode curar a ferida

dos que choram as partidas

sem flores, sem despedidas

tentando engolir a dor

Depois do enterro, a fila

para conseguir comida

e poder sobreviver

nesse filme de terror

Coronelas, recados e rezadores (Ficção)

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 25 jan 2020

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Por Nando da Costa Lima

João Profiro mandou chamar o cumpade Neca com um recado que chegou a assustar o cumpade rezadô. O vaqueiro nem desceu do burro:

— Acode, Seu Neca. Teu cumpade João tá nas últimas, só o senhor pra rezar a barriga dele pra mode ele poder evacuar. O home tá sem peidar e arrotar desde ontem, parece coisa feita.

— Mas eu já falei pra parar com aquela ignorância de mandar cozinhar uma galinha só pra ele e outra pro resto da casa. Vai acabar quebrando o bucho, aí não tem reza. Eu já tô perdendo a paciência!

— Mas dessa vez não foi galinha não, Seu Neca. Foi um bode…

— Ele comeu um bode sozinho? Se foi isso, tá fudido!

— Não, ele comeu só metade e deu a outra pra família.

Quando o amigo chegou, João já tinha queimado até vela, e o padre também já devia estar a caminho. O vigário era mais tranquilo, sempre ia dar a extrema unção já sabendo do que se tratava. Mas o cumpade Neca já tava cansado, era quase todo dia aquele homem chorando e pedindo por “rezação”. E olha que ele já tinha explicado pro amigo que homem de bem como ele, que tem o corpo fechado e lê o livro de São Cipriano, não morre assim. Antes ele apaixona pela ex-mulher (se tiver), ex-namoradas, até a mulher atual ele começa a tratar bem. E o cumpade João nunca teve essas manifestações. Seu Neca explicou que ele tava com 65, que não podia tá fazendo essas extravagâncias. Mesmo assim, benzeu a barriga do amigo, fez o mesmo com uma garrafa da legítima Jurubeba Leão do Norte e bebeu toda com o cumpade. Antes de terminarem, Profiro já estava apresentando melhoras.

Quando já estavam na segunda garrafa do vinho milagroso, o cumpade Profiro já tinha ido ao banheiro duas vezes. Fedeu a casa toda, mas isso o rezadô resolveu queimando chifre de boi com mastruz. Eles já estavam jogando baralho quando o padre chegou fingindo estar preocupado. O dono da casa foi logo acalmando:

…Leia na íntegra

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 18 jan 2020

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Por Nando da Costa Lima

Minha mãe tinha comprado meu primeiro velocípede… Eu estava passeando na porta da igrejinha e parei pra escutar aquele homem gordo que vivia elogiando Pedral, tinha muita gente em volta quando ele disse na maior altura que o Prefeito era comunista, o exército tinha as provas; o padre mandou ele ir falar de política na porta do batalhão, ali não era lugar! Eu corri pra casa e disse pra Dida que tinha um ho­mem falando que “Zé Pedral” era comunista, ela ficou retada e disse que devia ser algum safado vira folha, aí que eu notei que o homem gordo daquela vez não estava elogiando! Fiquei sa­bendo no mesmo dia que comunista era vermelho e gostava de comer criancinha, esta revelação me intrigou: Zé Pedral não era vermelho, disso eu tinha certeza! Eu estudava na escola de Tia Lícia, sua primeira esposa, e das vezes que ele entrou lá deu pra ver que era branco. Quanto ao churrasco de criança, disso eu não podia ter certeza.. .Da terceira vez que indaguei sobre comunismo me cortaram definitivamente falando que política era coisa de gente grande e dava cadeia. Mas por mais que eu ten­tasse aquilo não me saia da cabeça…, fiquei mais confuso ainda quando fui com meus pais buscar J. Pedral, ele tinha sido solto. Não dava pra entender porque prenderam o homem se to­do mundo da cidade gostava dele, nem porque soltaram já que era um comunista. Mesmo na dúvida não perguntei nada, era coisa de gente GRANDE.. .mas ficava sempre ligado nas con­versas dos adultos, uma vez eu escutei um político cassado fa­lar pra meu pai que Castelo era um bosta. Lembro-me que gostei de escutar aquilo, acho que foi porque ele tinha cassado São Jorge, um dos santos preferidos de Dida, a imagem que eu tinha de Castelo era a pior possível! Mas quando o avião dele explo­diu fiquei com pena, achei até ruim quando soube que aquele político cassado tinha soltado uma caixa de foguetes pra come­morar. Pensei que a revolução tinha morrido com Castelo, aí meu irmão mais velho falou que o exército continuava mandan­do. O exército passou a ser o vilão da minha infância. Além de ter prendido o marido de minha professora, cassou o São Jorge de Dida e o Cosme e Damião de minha mãe.

Em nossa casa raramente se falava de política, meu pai evitava, eu imaginava que era porque médico tinha que tratar e ser amigo de todo mundo, até de comunista! A visita que eu mais gostava era seu Gilberto, nosso vizinho, ele sempre co­mentava sobre a revolução, segundo ele o exército jâ tinha to­mado “as rédeas do poder”, sô uma revolta popular podia conter aquele processo. Eu não entendi bem aquilo, mas uma vez eu vi o dono da venda falar pra um freguês na hora que ele passou pela porta -“Aquele ali se fudeu com a revolução”. E isso qua­se me fez levar uma surra, é que um dia logo depois que seu Gilberto saiu lá de casa, eu virei pra minha irmã e falei crente que tava abafando “Esse aí se fudeu com a revolução”. Dida me deu um beliscão e ameaçou contar pra meu pai caso eu re­petisse; Vô Almirante tava na hora e não falou nada, eu senti que ele deu as costas só pra não ri em minha frente. E mais uma vez me pediram pra parar com aquela bobagem de revolu­ção, política era coisa de gente GRANDE…

O tempo passou, e do menino que andava de velocipede e estudava pré-primário na época da revolução só ficou a famosa foto que todos tiravam sentados na escrivaninha de Tia Lícia folheando um livro e ten­do ao lado um globo terrestre e a bandeira brasileira. Vieram os filhos, e hoje quando eles procuram explicação para a situação atual do país. Dessa revolta sem líderes nem partidos. Não tem como deixar de imaginar: Se as forças cujo dever é manter a ordem e proteger nossas fronteiras resolverem punir os vândalos e unirem-se às concentrações passivas reivindicando junto a eles??? Seria coerente que nossos politicos de direita, de esquerda e até os que ficam em cima do muro, ao invés de aproveitarem da situação, analisassem esta probabilidade com mais veemência, sem esquecer que democracia não é só um termo para ser usado em frases de efeito ditas em palanques. Deixa a politica de lado “minino”, politica é coisa de gente…

E ele nunca mais fez gol…(Ficção)

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 11 jan 2020

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Por Nando da Costa Lima

E João Carne Seca, o “Canhotinha de Ouro”, que batia falta como ninguém e não perdia um gol do meio de campo pra frente nunca mais irá sair de campo carregado pela torcida… Foi operar de fimose e, não se sabe porque, amputaram seu pé esquerdo. Erro médico, errar é humano (Quem inventou esse ditado popular deve ter sido a mãe de um médico). Foi aí que Pedrão “Três Bago” (irmão de “Carne Seca”) ficou puto e desabafou: “Também, a gente entra num hospital e encontra um cidadão com roupa de médico, pose de médico, estetoscópio pendurado no pescoço, as enfermeiras bonitas chamando o sacana de doutor, a gente acaba botando fé. Só que de médico ele não tem porra nenhuma, a não ser o diploma conseguido sabe-se lá como. Daí o time perde o melhor ponta esquerda da região e fica por isso mesmo. Médico uma porra!”.

Se for qualquer tipo de doença que os exames laboratoriais não possam localizar, o médico com certeza lhe dirá ou chamará alguém da família e informará que é tudo psicológico. Não seria também a medicina catastroficamente praticada um estado retroativo da ciência? O óbvio, a sensatez, a investigação estão sendo deixados de lado. Foram naturalmente substituídos por quem vê a lógica como uma deformidade neurológica. O lado psicológico está dando novos rumos à ineficiência de nossos médicos (nem todos, só 80%). É até engraçado diagnosticar uma doença não detectada com outra. Como a medicina mudou e ficou fácil de ser praticada depois de oficializado o politicamente correto. “Estado psicológico”. Tudo é naturalmente psicológico. E assim vamos levando, acho até que a grande maioria dos médicos acham que o juramento de Hipócrates não passa de uma sandice. Ele (Hipócrates) deveria estar num estágio evoluído de depressão quando escreveu aquilo. E os responsáveis por tudo isso lavam as mãos. Por que pelo menos não age como a OAB que só deixa o bacharel começar a profissão depois de conseguir a tão sonhada carteira? Isto evita que muita gente despreparada exerça uma profissão sem saber nada (nem sempre dá certo). É melhor do que deixar que anualmente as faculdades lancem no mercado milhares de jovens sem a mínima condição de exercer as ciências médicas. É isto que leva as massas a se convencerem de que a maioria dos seres humanos sofre de depressão, os que não concordam é porque estão num estágio evoluído deste mal. A depressão é o meio mais fácil para justificar o que grande parte dos médicos não consegue decifrar, algo que vá além do que foi ensinado nos bancos das sucateadas universidades (nem todas). E a indústria do “pavor a tudo” (fabricantes de antidepressivos) agradecem e enriquecem com a “bestialidade médica”. Existem três tipos de médicos: o “semideus”, aquele que enxerga o paciente como uma “coisa” que pode ou não dar lucro. Tem o médico verdadeiro, aquele que vê o paciente como um ser humano igual a ele e exerce a medicina como um sacerdócio, chegam a dar bom dia, boa noite, o paciente até relaxa. Tem também o truculento (ou cavalo batizado, como queira): já recebe o cidadão com cara fechada e dando bronca, o paciente fica se achando o último dos últimos. Parece até que não saber explicar o que está sentindo é um delito grave. Mas enquanto os “semideuses” vão ganhando espaço com seus erros e acertos, a causa psicológica vem se tornando cada vez mais natural. E aí morre gente diariamente… Será que a morte também é um estado psicológico? Nossos “médicos”, com raras exceções, já escolhem esta profissão esperando dias melhores, não passam por nenhuma avaliação antes de ingressarem no mercado de trabalho. O treinamento é feito nos pacientes do SUS, isto é um absurdo. E ainda tem o agravante da ética médica, os erros médicos só veem a público quando denunciados por familiares de pacientes mais bem informados e raramente são apurados, pois a maioria é questão “psicológica” dos parentes “deprimidos” pela perda de um ente querido. E o finado provavelmente morreu por não acreditar que o que tinha era psicológico. Ainda bem que inventaram o raio X, caso contrário fratura só seria levada a sério se fosse exposta. Sorte nossa que os odontólogos (dentistas) ainda não aderiram ao “estado psicológico”. Já imaginou? Enquanto isso, nós continuamos nos lascando em mãos erradas. Temos que ter a sorte de cair nas mãos de médicos que praticam a verdadeira medicina. Coisa rara, muito rara. Mas Deus não iria nos deixar tão desprotegidos, são raros, mas ainda existem aqueles que podemos chamar de médicos.

E enterraram o pé esquerdo de João Carne Seca com chuteira e tudo debaixo de um pé de jaca do campo das “sete casa”. Foi triste, até a filarmônica tocou o hino da cidade no dia… Dona Cotinha, mãe do atleta, uma santa que sempre se conformou com tudo, chegou a comentar com a nora: “Pelo menos ele se livrou daquele calo seco”.

Deusinete do pênalti (Ficção)

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Publicado por Rafael Gusmão | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 04 jan 2020

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Por Nando da Costa Lima

            Seu Leôncio ainda tinha a marinete…

Tava na cara que ia ser uma partida de lascar, as duas cidades há muito vinham esperando este confronto. A seleção de Ibicuí contra o Iguaí Futebol Clube, o time mais forte das redondezas! Já tinham surrado até a seleção de Poções, um timaço! O jogo foi em Nova Canaã, que era território neutro. O campo nunca esteve tão cheio, tinha mais de trezentas pessoas, fora os meninos e as filhas do tenente Ló que assistiram o jogo dentro da rural pra evitar falatório, as três estavam grávidas do mesmo safado. Como ele não podia casar com as três, o tenente matou o safado, ficava mais fácil para as meninas explicar que eram viúvas.

Celsão, que já jogou até no Botafogo, foi emprestado por Belo Campo para a seleção de Ibicuí, falou que ia marcar dez “gorro” pra cada namorada, três moças desmaiaram na hora! Juca Pranchão, atacante do Iguaí, exibia a chuteira feita especialmente para aquele jogo, tinha 32 birros em cada pé, todos travados com um prego! Antes de começar o jogo, o vereador Heleno de Zinha fez um discurso, prometeu um jogo de camisa e uma caixa da legítima Jurubeba Leão do Norte pro time ganhador, cantou o hino nacional, e quando tentou recomeçar o discurso, o juiz, que era da oposição, mandou ele ir fazer política “nos inferno” e começou a partida.

…Leia na íntegra

No Cine Madrigal

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 07 dez 2019

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Por Nando da Costa Lima

Fica pra lá de onde se possa imaginar, é longe…, muito longe! É saudade…

Eu estava matutando no passado de minha Conquista e acabei descobrindo que nós  nunca tivemos um lugar fixo para ter saudade, cada geração teve seu ponto de encontro, e isto vem de muito tempo, desde o Gato Preto até a Praça do Gil. Teve um tempo que a grande onda da rapaziada da terra dos mongoiós era ficar sentado na curvinha do amor, ali aconteceram grandes flertes (paqueras). Todo “playboy” que se prezasse tinha que ficar pelo menos uma hora por dia plantado na curvinha do amor que nada mais era que uma das esquinas do Jardim das Borboletas (Hoje Tancredo Neves), onde Aurelino vendia o seu famoso acarajé. Este ponto teve vida curta!..  Outro lugar que marcou época foi a alameda Ramiro Santos, não sei porque o pessoal achou de fazer dali uma passarela, era de segunda a sexta depois das seis horas. Muito sapato “Motinha” foi gasto subindo e descendo aquela alameda como se estivesse procurando alguma coisa…, o movimento acabava rápido como começava…, talvez até querendo alertar que a vida era bem mais que aquilo… Muito tempo depois o pessoal começou a frequentar a Praça do Gil, eu até falei na época que a pracinha lembrava uma adolescente provinciana pronta a se soltar ao primeiro acorde de um trio elétrico. Não sei porque a pracinha se apagou de uma hora para outra. Talvez devido ao crescimento da cidade.

 Mas o que marcou mesmo toda minha geração foi a primeira sessão do Cine Madrigal. Segundo o Aurélio, Madrigal quer dizer “Galanteio”, e apesar de quase ninguém saber disso, o cinema era usado como um verdadeiro salão de galanteio, mas tudo na maior pureza do mundo! A gente passava a semana toda ensaiando a possível cantada que ia dar na “menina” na primeira sessão do Madrigal, era concorridíssima! O pessoal de sapato novo fazia questão de chegar mais cedo para sentar na primeira fileira e exibir o “cavalo de aço” com mais “naturalidade”. A mistura de perfumes impregnava o salão, ficava um cheiro enjoativo…, mas aos olhos do adolescente magrelo e desengonçado, tudo era lindo…! Principalmente naquele domingo que ele, depois de muito tempo criando coragem, conseguiu marcar um encontro com a menina que há meses vinha lhe tirando o sossego, estava nervosíssimo…, foi o primeiro a chegar, sentou-se na primeira fila e ficou esperando com o coração na mão…, ela chegou atrasada, o filme já tinha começado, imaginei que fosse por timidez!  Entrou tateando segurando a mão de uma amiga, por coincidência sentou-se ao meu lado, meu coração quase saiu pela boca, tava mais emocionado que vereador quando recebe abraço de governador. Pensando que ela estava me enxergando quase me manifestei…, só não o fiz porque antes da minha tentativa ela cutucou a amiga e falou confidencialmente: “Tomara que aquele magrelo cabeçudo não me encontre, se ele sentar perto de mim eu vou embora”. Saí despistando pra não ser notado, fiquei tão traumatizado que só fui arranjar uma namorada dois anos depois, e por obra do destino foi no Cine Madrigal…

Em memória do Sr. Nivaldo Araújo

Diplomacia

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 23 nov 2019

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Por Nando da Costa Lima

Panela de barro, fogão a lenha, cortado de maxixe com carne seca… O cheiro da comida de Alvina tomou conta da Rua Grande. Era dia de feira, tinha gente de todo o canto, o barracão tava que não cabia mais ninguém. Tinha bêbado, tinha pedinte, tinha de tudo que uma feira exige. Até ladrão! Um vendedor de passarinho tava querendo que um soldado comprasse uma araponga já mansa. Segundo ele, o negócio não deu certo: o soldado estava bêbado e quebrou a gaiola toda, o passarinho aproveitou para ser livre novamente e o vendedor foi recolhido por afronta a autoridade. Foi engaiolado no lugar do passarinho. Dona Nita do arroz-doce gostou de ver, “É praquele amarelo parar de armar arapuca pra pegar os bichinhos…”. Por que, em vez disso, ele não catava lenha? Tinha quem comprasse! Mas não, o sacana do Bertulino só queria saber de passarinho. Era uma profissão como outra qualquer, só que quem a exercia ficava mal visto, era coisa de gente preguiçosa. E quanto mais quando se tratava dos Araponga, o pai de Bertulino ficou famoso depois que ensinou um papagaio a falar “Aldagisa filha da puta” e deu de presente pro vizinho da avó. A velha não podia mexer na cama que o sacana do louro começava a assoviar e xingar. O Dr. falou que Dona Aldagisa infartou de tanto passar raiva. Coitada. Mas Bertulino não abria mão da profissão, ele vinha de uma linhagem de passarinheiros que há muito tempo comercializava arapongas, tanto é que todos da família assinavam o nome da ave como sobrenome. Bertulino Araponga era da quarta geração. Mas era comum os feirantes adotarem o nome do produto que vendiam: era João do Fumo, Zé do Bode, Maria do Andú… O pirão de rabada da barraca de Zenilda era famoso, vinha gente de fora só pra provar. Todo mundo sabia quem era Zenilda do pirão.

Foi numa barraca que só vendia fumo de rolo e pinga (E é claro que rolava um joguinho apostado). Foi ali que um jogador, já meio tomado, começou a falar sobre uma surra que ele tinha dado num professor a mando de seus próprios aliados. A história contradizia toda a versão conhecida pelos demais. Apesar de terem certeza de que era mentira, eles insistiram que Emergildo de Duda contasse a versão da surra que um professor e poeta tinha tomado no início do século, o que atiçou a curiosidade do pessoal. A surpresa foi quando ele disse que foram os próprios aliados: todo mundo sabia que quem encomendou a surra foi o outro lado. É que se fosse pra decidir só com o pessoal daqui, o lado do juiz ganhava. Eles tinham que convencer o coronel em Macarani, pra entrar pro lado deles. Mas a disputa era entre parentes, e este não queria se meter na briga dos primos. A forma achada foi essa: o coronel tinha sido aluno do professor poeta e tinha um respeito muito grande pelo mestre. Era claro que quando soubesse que o seu professor tinha sido espancado por um dos lados ele tomaria partido do pessoal que tinha o professor como um de seus líderes. Essa decisão foi fundamental.

— Não se sabe quem, mas eu garanto que quem contratou era gente do mesmo lado. Eu sei porque eu ajudei a dar a surra, foi fácil… O poeta nem pôde reagir. Seu amigo, então, nem teve tempo de descer do cavalo. Morreu lá mesmo.

Aí uma senhora conhecida do poeta que estava passando pelo local, ao escutar a conversa, retrucou:

— Agora que o povo tá em paz, já nem se fala mais em briga, você vem com essa mentira, seu cachaceiro. Daqui a pouco você vai falar que foi papai que mandou bater no professor Manoel. Cê tá lembrando da tropa que sumiu com os animais arreados? Imagina você que só anda só, é tão miserável que nem amigo tem.

— Se a senhora tá me ameaçando, é melhor mandar seu marido tomar frente na briga. Meu negócio com mulher é só na cama. E tem que ser bonita!

— Não foi isso que Marluce falou. Ela tá decepcionada. Foi enganada. Viu alguém te chamando de jumento e pensou que era fazendo alusão. Casou com você e até hoje reclama da falta de atividade sua. Foi propaganda enganosa.

— A senhora agora quer se meter até na minha vida particular. Também, Marluce fica dando ousadia pra qualquer uma.

— Qualquer uma é a senhora sua mãe. E isso nem é segredo aqui, seu linguarudo. Quer mudar a história da cidade? Filho de jagunço, neto de jagunço… Quem é que vai acreditar? Além do mais, tem muita gente que se ficar sabendo dessa sua mentira vai fazer fila pra te mandar pro inferno na hora. É melhor você calar essa boca antes que eu costure com agulha de sapateiro.

— No dia em que uma mulher me fizer calar a boca, eu mudo de cidade ou visto uma saia.

— Então acho bom cê picar o burro antes da feira acabar. Se ficar, eu não me responsabilizo. Palavra de Belinha, e eu não tô aqui pra ver homem de saia.

          Quando Emergildo escutou o nome “Belinha”, gelou da cabeça ao dedão do pé. Só deu tempo de ajoelhar, e gaguejando tentou se explicar:

— Perdão, Dona Belinha. Eu inventei essa história pra ver se causava alguma sensação, a feira tava muito sem graça, não tinha um fuxico rodando… Foi por isso que eu fiz essa besteira. Pelo amor de Nossa Senhora, esquece isso

— Mas agora você já falou. Então é bom picar a mula, ainda dá tempo, a feira mal começou.

— Tá bom, Dona Belinha. Meu nome é Emergildo, eu sou filho de Dona Duda, ela mora na passagem pra fazenda da senhora. Fale pra mãe que eu fui em direção à guarita de Minas e que de lá vou pra Sompaulo, não tem tempo pra voltar… Sua bênção, Dona Belinha.

— Deus te abençoe. Cria juízo e esquece de voltar. Pode deixar que eu falo pra sua mãe que foi melhor você viajar do que ficar plantado aqui.

          E graças à diplomacia, correu tudo bem na feira da Rua Grande… Só Bertulino Araponga foi preso por se desentender com uma autoridade.

Pavão Enfeitado

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 16 nov 2019

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Por Nando da Costa Lima

Até os anos 1980, o termo “bem casada” era dirigido a casais que tivessem dinheiro sobrando ou se o noivo fosse “dotô”. Todo mundo tinha uma ponta de inveja do casal mais elegante da cidade: Dona Eufalazia e Seu Demétrio eram tudo que muitos queriam ser, e eram até imitados por outros casais. Muitos diziam que os dois eram almas gêmeas… Eram ricos, e enquanto ele tava ganhando dinheiro, ela fazia caridade para os necessitados. Era uma válvula de escape para a madame. O marido era ciumentíssimo, e onde ela ia, tinha que levar a sobrinha. Quando não estava visitando os desafortunados, tava pendurada no telefone querendo saber de tudo que se passava. E era chic falar que Dona Eufalazia tinha ligado…

— Jozilda, você deu duas gotas de Benzocreol pra Juninho? Ele tá muito amarelo, as caseiras devem tá fazendo festa no bucho do bichin.

— Eu já dei, ele botou tudo pra fora. E eu tentei várias vezes: era dar e ele vomitava. A dotora até falou que Teo tá assim porque intoxicou com o Benzocreol que algum ignorante ensinou dar.

— Eu não acredito que Demétrio teve a coragem de mandar você levar o filho pra uma dotora que dá injeção em cachorro só por causa de umas vermezinhas.

— Não é assim também não, Dona Eufalazia. A Dr.ª é veterinária e tem um curso técnico de enfermagem, todo mundo confia nela. E sempre que o caso é sério, ela mesmo encaminha pro hospital de Conquista.

— É assim mesmo. Depois que tenta curar e intoxica o cidadão, liga pros médicos de Conquista… Quem é que não conhece a história dessa cascavel de quatro ventas? Nem casar consegue! Também, quem é que suporta aquela ignorância? Acorda e vai dormir xingando. Só se for “dotora”… É cada uma!

— Fala baixo, Dona Eufalazia. A Dr.ª tá perto, tá vendo a temperatura de Junior.

— Eu tô falando alto de propósito, eu quero que ela escute que se acontecer alguma coisa coisa com essa criança ela vai logo em seguida pedir desculpas na porta do Céu, depois ela toma o destino dela!

— Cruz credo, Dona Eufalazia. A senhora acha que só de examinar a dotora pode matar um? Isto é pecado, fazer mau juízo de quem vai ajudar. Deus castiga!

— E você acha que Deus vai ficar do lado de quem? De mim ou daquela praga que eu tive o desprazer de ser amiga?.. Até hoje eu me arrependo de ter andado com aquela égua.

— Não fala assim não, Dona Eufalazia. A dotora tem vontade voltar a ser sua amiga.

— Só se for em outra encarnação…

— Mas por que tanto ódio?

— Foi aquela vigarista que me apresentou ao meu marido. Se eu tô casada com aquele traste é por culpa dela. Ô ódio! Aquela magrela um dia ainda me paga, foi ela quem enfeitou o pavão.

— Mas não foi a senhora que se apaixonou por tio Demétrio?

— Apaixonei pela história que essa égua metida a dotora inventou. Desenhou um príncipe pra mim, e eu caí que nem besta. Se arrependimento matasse…

— Ué, Dona Eufalazia, foi a senhora que quis casar.

— Casei enganada. Demétrio era noivo dessa jararaca dotora. De tanto ela falar bem dele, eu acabei apaixonando.

— Mas aí foi a senhora que fez errado, traiu a melhor amiga. Eu vi até o poema que ele fez comparando a dotora com o Jardim das Borboletas, a coisa mais linda!

— Só se for comparado com a parte em que ficavam as onças: fedia tudo.

— A senhora não tem jeito, Dona Eufalazia. Bem que seu filho me falou.

— O que Marculino lhe falou?

— Falou nada não. Só disse que quando a senhora não gosta de uma pessoa, sai debaixo.

— E é assim mesmo, foi essa fulana que me fez casar com esse merda que só pensa em ganhar dinheiro.

— Mas Dona Eufalazia, a senhora é a mulher mais rica da cidade, seu marido faz todas as vontades da senhora. Até uma casa no formato de piano ele mandou construir, sem falar do carrão, que troca todo ano. Enquanto isso, a pobre da dotora já casou mais de dez vezes. Isso sem falar dos namoros e noivados. E o pior é que não sossega, já rodou o mundo todo e não conseguiu um amor sincero como o da senhora e Seu Demétrio. A cidade toda inveja!

— Inveja quem tem sou eu. Só conheço até Salvador. Aquela perua já rodou o mundo umas dez vezes, sem falar do tanto de homem que ela namorou enquanto eu tô aqui com Demétrio parecendo jogo de time ruim, só dá empate. Não sei pra quê tanta riqueza. Se pelo menos Demétrio fosse morredor. Mas na família dele os homens vivem mais de cem anos. E ele não bebe, não fuma nem fode. Vai viver 120. Tô lascada! Enquanto ela namora mundo afora, eu tô aqui receitando Benzocreol pro filho dos outros e vendo a vida passar… É nisso que dar ter o olho grande. Tchau, querida. Vou ter que desligar. Demétrio acabou de chegar… Mais uma noite de tédio. Ô ódio!

            E do outro lado a amiga pensou: “Tem gente que não se contenta com nada”. Mas hoje em dia não existe mais esse tipo de martírio.

Hoje por mim…

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 15 set 2019

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Por Nando da Costa Lima

Daqui as coisas são bem diferentes, dá até pra pensar no que passou, eu não queria que fosse desse jeito, mas quando a gente começa descer não consegue parar, vai até o fundo. Minha infância não foi das melhores, tive que trabalhar duro na roça, vim pra cidade já adolescente e fui logo me apaixonando pela boa vida, fiquei obcecado pelas mordomias da cidade grande. Decidi que tinha que enriquecer, virar patrão. Isso eu não tirava da cabeça. Depois de trabalhar três anos e não conseguir nem me alimentar direito com o salário, vi que estava no caminho errado, honestamente não dava pra ficar rico nem se vivesse mais 500 anos.

Comecei vender contrabando, no início até que dava, depois todo mundo começou fazer a mesma coisa e o meu comércio foi por água abaixo, ainda bem que com o dinheiro que sobrou eu comprei sete tarefas de terra aqui perto. Comecei a trabalhar a terra e me casei logo em seguida, só fiz isso porque o pai da mulher era meu vizinho e dono de quase cem alqueires de terra. No começo as coisas correram bem, o sogro me dava tudo e meu sítio que antes não tinha nada se transformou .num paraíso, tinha de tudo ! Aí eu comecei achar que tava pequeno, como a mulher era filha única, passei a imaginar uma forma de dar fim no sogro. Um dia tomei umas a mais e criei coragem, aproveitei que o velho tinha ido correr a manga sozinho, armei uma emboscada e furei o homem todo de 44, ninguém ficou sabendo quem foi, meu sogro também não era flor que se cheirasse, já tinha jogado muita gente pra trás e o crime foi logo esquecido. Com minhas sete tarefas e mais os cem alqueires da mulher me tornei o maior proprietário da região, besta eu nunca fui; fiz minha fortuna triplicar em pouquíssimo tempo, é claro que pra isso tive que tirar muita gente do caminho. Comecei com um vizinho de cerca que não quis vender a terrinha, deixava o jumento passar para minhas terras quase todo dia, aquilo me enfezou tanto que tive de matar o jumento e o dono. Desse dia em diante eu decidi que a melhor maneira de resolver meus assuntos era na base da bala, pra mim o único advogado de confiança passou a ser um 38 cheio até a tampa, ali sim, eu botava fé, ou o sujeito assinava o documento de venda se borrando de medo, ou então ia pro inferno e a viúva assinava. Eu já tinha terra que dava pra engordar dez mil bois e vários crimes nas costas. Teve um sujeito que eu matei por amizade. Isto é, matei porque ele mexeu com a mulher de um amigo, sentei fogo no safado. Depois de muito tempo é que descobri que a safada era ela, não ele. Mas aí minha consciência já estava anestesiada, quando o povo falava que depois da terceira morte a gente esfriava eu pensava que era brincadeira, mas é certo, chegou um tempo que eu acabava de matar um e ia dormir como se nada tivesse acontecido. Não posso negar, consegui meus objetivos ! Não é qualquer um, muito menos o filho de um vaqueiro, que consegue uma das maiores fortunas do Estado aos quarenta anos. Só errei numa coisa, acreditei demais na minha valentia, nunca imaginei que alguém tivesse coragem de tentar alguma coisa contra mim, vacilei pensando ser o único que não prestava e acabei aqui! Onde estou, as terras que consegui de nada valem. Daqui desse caixão, com o corpo todo furado de balas, inclusive uma no meio da testa que deixou meus olhos abertos, estou vendo tudo que se passa em meu velório, se é que pode chamar isso de velório, só tem duas pessoas ! E logo os dois que planejaram minha morte, eu vi na hora que aquele amigo meu que eu matei por ele chegou por trás de minha mulher e falou sobre o sucesso do assassinato, ela ainda comentou que ruim do jeito que eu era ninguém ia saber quem foi. O que mais me chateou foi quando entraram quatro homens que eu nunca vi mais gordos ! Fiquei sabendo que eram carregadores quando um deles disse para os outros que o sacana do defunto era tão miserável que nâo tinha um amigo, a mulher teve que contratar eles para levarem o caixão. Foram eles que me deixaram a par das festas que estavam acontecendo na cidade por eu ter morrido, pode até ser que eles exageraram na narrativa, mas antes de fecharem o caixão eu escutei o barulho dos foguetes vindo de todos os lados… Parecia até que era dia de São João.

O caso do bigode de mel (Ficção)

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 31 ago 2019

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Por Nando da Costa Lima

A menina de dona Santa levava sua pacata existência como a maioria das moças da cidade, a única coisa fora do comum que aconteceu em sua vida durante todo esse tempo do colégio foi a chegada de João Merlo, o repórter. Ele mudou por completo a cabeça da “menina do capitão”! A carteira de jornalista o deixava mais metido que puxa saco quando é cumprimentado em público por algum político influente. E pra completar o sacana ainda trouxe aquela lambretona invocada pra azucrinar ainda mais a cabeça das meninas, ele era o assunto da cidade quando passava em marcha lenta penteando aquele bigodão, as moças ficavam tão entusiasmadas que nem notavam o tamanho da cabeça de João (nunca encontrou um capacete que coubesse no cocão). Até “dona” Alzira que já estava amarrando o facão quis dar uma voltinha na famosa lambreta…, ele mandou dizer pra ela que quem gostava de couro velho era Moreno Sapateiro.

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Destino

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 10 ago 2019

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Por Nando da Costa Lima

Senta aí, “Dona Repórte”, eu vou lhe contar a história do início, isso que a senhora viu foi só um pedaço, ela ainda está acontecendo. Há dezessete anos esse bairro era mais mato que casas, foi então que apareceu Pedro e Rosário, eles tinham se juntado de novo, ela já tava pra parir. Rosário não tinha quinze anos quando o menino nasceu, Pedro tinha dezoito, e a criança escolheu o pior momento para vir ao mundo, ele tava desempregado há meses. Eu era a vizinha mais próxima e até ajudava quando podia, tinha que ser escondido dele, era tão orgulhoso que preferia passar fome que aceitar esmola de puta, era o que eu fazia na época. Quando a criança nasceu eu passei a ajudar com mais frequência, mas quando ela completou sete meses eu peguei uma “doença ruim” que me impediu de continuar fazendo vida.

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O Código

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 28 jul 2019

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Por Nando da Costa Lima

Pedro Astróbio falava pelos cotovelos. Quando ele pedia a palavra, o povo morria de raiva, e era em qualquer ocasião: aniversário, casamento, enterro… Foi num enterro que aconteceu um caso que deixou o palestrante mais de 15 dias fora do ar. O povo deu graças a Deus, era época de política. Aconteceu que no dia do enterro do sargento Neocelindo ele estava presente. O sargento era muito bem quisto, várias autoridades falaram na cerimônia fúnebre, e Astróbio tava pra endoidar de vontade de falar, mas na fila dos mais importantes ele ficava no final. Demorou de chegar sua hora, e quando chegou o povo já estava querendo fechar o caixão, sabiam que se ele começasse seria no mínimo mais uma hora. Mesmo assim, cederam a palavra. Quando ele levantou os braços pra começar a oratória, saiu um espirro tão brabo que até a dentadura caiu dentro do caixão. Ele fez um sinal pro pessoal que estava perto do caixão para pegarem a dentadura, mas eles entenderam que era pra fechar o caixão. Mesmo banguelo, o orador ainda colocou a mão na boca e falou: “Vai, meu sargento, e leva meu sorriso contigo”. E foi esta atitude que o levou a trabalhar nos bastidores da política.

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O medidor

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 21 jul 2019

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Por Nando da Costa Lima

Cláudio era perito em necropsia, segundo ele, o melhor que a cidade já teve, o único que tinha feito o curso completo (por correspondência). Mas nos botecos da cidade, por mais que ele tentasse explicar que era um dos mais brilhantes especialistas em necropsia, os colegas de copo arranjaram logo um nome que não precisasse dobrar a língua pra referir-se ao amigo. No início se retava com o apelido mas logo acabou aderindo… Claudão Defunteiro era um bom técnico, e tinha orgulho de já ter vendido mais de dez mil caixões na região, só que às vezes exagerava na Jurubeba Leão do Norte e acabava dando alguns pequenos vacilos…, mas isso só acontecia quando misturava com outras bebidas, coisas que acontecem com qualquer profissional! Principalmente se for admirador da água que pinto não bebe.

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Antes que o tempo apague tudo…

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 13 jul 2019

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Por Nando da Costa Lima

 E na mente veio imagens lá do fundo do baú, sem saudades, sem rancores, só imagens… Só o tempo mostrando que só ele permanece. Imagens! O passado ganha formas e o pensamento viaja num universo que jamais irá voltar. E nos blocos de carnaval ainda existiam caretas, pierrôs e colombinas…

Minha cabeça girava, naquele momento tudo era passado… Eu senti falta até da rua das sete casas…  Se você nasceu ou mora aqui em Conquista há mais de 50 anos, você deve se lembrar… Jardim das Borboletas, Cidade dos Pássaros, os balanços do parque infantil, acarajé de Olerino, “Zé da baiana”, “Cafézinho” sempre sujo com uma caneca na mão. Os táxis de Juca Fone, Daguimar e Vitório esperando os raros clientes, do Carrascão. Adão, o monarquista, com sua enorme barba branca, xingando alguém. Bar Pinguim, o picolé de coco do Lindoya. A Rádio Clube de Conquista. J. Menezes. O dia que passou “Deus como te amo” no Cine Ritz. O programa alegria dos bairros, o “Magassapo”, a “Mamoneira”, Rosa Bigode, de Bandola com sua guitarra desafinada, os jogos no estádio Edvaldo Flores do Humaitá, do Conquista de Piolho e Naldo. O motel Baú, o Carrascão. O ponto de ônibus que ficava em frente ao hotel Albatroz. Da “Chimarrita”, da lanchonete “Chopp 70”, do sobrado de Nestor, do Bloco dos Caçadores, uma das coisas mais sem graça que se tem notícia. Era um bando de bêbados cantando “Ô, leva eu” em cima de um caminhão velho. De Paulina a poetisa… do lutador Fidelão, do Beco da Tesoura quando só tinha alfaiate, do Natal na alameda Ramiro Santos, da loja de João Couto. Do jegue “Pilera”, do sofá em forma de bolo do Cine Glória, da sorveteria “Riachuelo”, de Márcia Galvão fantasiada de Cleópatra, do “Gato Preto”, da “Fonte Luminosa”, do “Açudão”, das primeiras “catanicas” (ônibus coletivo). Do campo do “cobói”, do caruru de Zé Carote, da farmácia Lia, da oficina do mestre Aurino. Do carnaval no Clube Social, da “Boate Lago Azul”. De Geraldinho cabelereiro penteando as chics da cidade, de Zé Pedral no dia que foi solto. Do italiano Julio que vendia pizza numa Kombi. Da veia da Rua do Gancho. De Carcará comprando ferro velho. E tanta coisa que o tempo já comeu, vem tudo de vez. Cabeça de doido é dose! Se você se lembra de tudo ou quase tudo que acabei de citar, você realmente viveu em Conquista. Se você se lembra de pouca coisa, você só morou em Conquista. Mas se você não se lembra de nada do que foi dito: o que é que você estava fazendo aqui esse tempo todo???

 Sei que me esqueci de muita coisa e de muita figura pitoresca, é a memória que já começa a falhar… Mas juro que vivi Conquista, hoje só moro ou talvez me esconda… Sei lá… Acho que o tempo já ocupou o espaço a mim destinado aqui na terra do frio. Corri tanto que me cansei cedo… Muito cedo. Meus preconceitos, meus medos, meus sonhos… Tudo ficou lá atrás… Cine El Dorado, Shangrilá, Jota Menezes… Tudo na mesma hora, infância, juventude, meia idade, “velhice”, saudade… E esta porra de tempo que não cansa de passar. Parece uma borracha na mão de um menino querendo apagar tudo que foi escrito com lápis no caderno velho pra escrever o agora com caneta esferográfica. Praça do jenipapo, Jeep atolado, bloco das Pistoleiras. Tudo apagado, tudo é passado. Um lança perfume rodouro exalando no salão da memória dos velhos carnavais. O tempo me enganou… Pôs em xeque minha cabeça e levou parte da alegria que a vida me apresentou. Rasgou minha fantasia de um dia morrer de amar.

Para Maria Luisa Cordeiro, que é do tempo que o Hotel Albatroz tinha salão de festas e que homem bonito era chamado de PÃO.                                                                                                             

                                                                                      

A miséria humana

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 06 jul 2019

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Por Nando da Costa Lima

Tem coisa que a gente escreve há mais de duas décadas e fica torcendo para que as coisas melhorem, mas infelizmente a cada ano fica mais atual… É uma pena! Que pena que nada, a culpa é nossa mesmo que concordamos com tudo de cabeça baixa. A sorte é que ainda existem os religiosos e alguns órgãos filantrópicos realmente sérios, pois se nosso país só dependesse dos tecnocratas nós estaríamos fodidos e meio. Aqui em Conquista viveu uma senhora cujo único erro foi não ter deixado um livro intitulado “A ARTE DE SER GENTE”. O nome dela era Dalva Flores (Santa Dalva). Esta mulher foi um dos maiores exemplos de altruísmo que Conquista teve a sorte de abrigar. ”Salve a Senhora da bondade!”

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Marieta da Esquerda (Cordel)

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 29 jun 2019

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Por Nando da Costa Lima

Marieta era mineira

                            Fez direito em Teófilo Otoni

                            Na época da repressão

                            O pai foi torturador,

                            a mãe muitos dedurou

                            tinha um tio que era espião

                            Marieta era direita

                            Tomou gosto pela esquerda

                            Depois de ter apanhado

                            Do soldado Valdemar

                            Que era marido dela

                            Antes do cabo Vavá

                            que também largou a tempo

                            por gostar de maltratar,

                            era mal de militar.

                            Marieta depois disso

                            Tomou raiva da direita

                            Comprou uma boina do “tchê”

                            Decorou O Capital

                            E foi pra a cama com Gabeira

                            Antes dele esverdear

                           Ela era radical

                           Só dava pra intelectual

                           Guerrilheiro e agitador

                           Só pra proteger a causa

                           Trepou com muito “dotô”

                           Mas depois da abertura

                           Marieta sossegou

                           Só ficou a paranóia

                           que sempre à acompanhou

                           Não permite militar

                           no puteiro que montou.

 P.S. O tempo passou e a filha de Marieta, hoje, politicamente correta, permite qualquer um no recinto.

                                                   

A outra banda da história

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Publicado por Editor | Colocado em Geral | Data: 15 jun 2019

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Por Nando da Costa Lima

Foi real demais pra ser verdade… Sei lá, parece até que foi sonho misturado com verdade. Do jeito que ele contava, o ouvinte perdia horas escutando suas histórias sobre a abdução dos índios que povoavam o Planalto da Conquista até o século XVIII. Benevides Cantador falava com autoridade, eu acho que é verdade. Segundo ele, os fundadores da Vila da Vitória não mataram nenhum índio. Tem gente que diz que ele ficou meio amalucado depois que achou uns manuscritos, tipo um diário dos seus antepassados. Se foi isso mesmo, não devia ter mexido. Ficou sabendo de tanta barbaridade que passou 8 dias sem dormir nem falar nada com ninguém. Quando voltou a conversar e a se alimentar, já foi com essas histórias de disco voador levando índio pra morar em outros planetas… E Benevides preparava o ambiente antes de entrar no assunto: falava da altitude da terra do frio, um tabuleiro num descampado! Daí a ser um lugar místico, atrai muita energia cósmica e espiritual. Ele narra a travessia dos Imborés pra Marte em versos…

Uma nave resplandecente, que do céu incandescente desceu na terra ainda bruta, para evitar uma luta que seria desigual. Os brancos vinham armados, e também bem motivados: sabiam que a terra era boa. Lutariam até a morte com os donos do lugar. João estava decidido, fez até uma promessa, prometeu a Nossa Senhora que assim que lá chegasse ergueria uma igreja em sua homenagem. Todos da caravana fizeram questão de jurar junto com o chefe que daquela terra eles não iam abrir mão. Muitos olheiros tinham ido na região e só voltaram com boas notícias, falavam que era divisa da caatinga com a mata, no inverno era só descer a serra pra aquecer os rebanhos e os homens… No alto da serra tinham várias nascentes de águas cristalinas e a vista se perdia no horizonte. João sabia que era o lugar certo pra criar raízes, e assim fez o nosso fundador. Fez daqui a Vila da Vitória. Só que a história escrita diz que houve vários conflitos com os índios, que mantinham uma dura resistência. Para eles era um paraíso, no inverno desciam pra caatinga. Quem mais sabia o quanto a terra valia eram eles. E as coisas foram resolvidas violentamente, era o único jeito… Dizem que os canos dos clavinotes derretiam de tanto atirar em índios. Não podemos julgar as atitudes dos homens sem termos vivido sua época! Uns falam que foi genocídio, outros acham que não. Pra se ter uma ideia formada é necessário que se aprofunde na história real, não em achismos.

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Paletó de aluguel

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 11 Maio 2019

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Por Nando da Costa Lima

Pastor Ariovaldo saiu corrido, nem a mala pegou! Estava devendo uma nota alta pro dono da boate, restaurante, casa de jogo e hotel “Boa Sorte”. Era o ponto ideal para quem gostava da noite, e Ariovaldo usava todos os serviços da boate-hotel. Mas foi o jogo que complicou sua vida, tava devendo muito dinheiro pro dono do lugar. Salustiano emprestava o dinheiro pra qualquer um, mas se atrasasse o pagamento, tava fudido. Depois que ele ficava enraivado, não aceitava nem o pagamento. Só sossegava depois que descarregava o canela seca no filho da puta que o enrolou. Não perdoava ninguém: nem dotô, nem padre, nem pastor, e muito menos parente ou pai de santo… Parece até que ele gostava de levar calote só pra dar uns tiros num sacana.

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Espinhaço de gato

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 04 Maio 2019

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Por Nando da Costa Lima

Não era de hoje que Climério procurava Vitalino, já tinha rodado meio mundo atrás de um curador retado como aquele. Climério era um homem rico e místico, tinha herdado aquilo do pai. O dinheiro ele jogou todo fora fazendo feitiço pra enricar mais ainda, só ficou um alqueire de terra, a sede e uma meia dúzia de guias espirituais que ele ainda conseguia sustentar. Não dava um passo sem consultar estes guias foram eles que indicaram o curandeiro Vitalino como a única solução para aquele problema… era ele que ia ajudar Climério abrir o cofre da prefeitura e recuperar as escrituras dos terrenos que lhe foram tomados. Aquilo nem podia ser considerado roubo, mas para isso era preciso a orientação de um curandeiro de respeito. Vitalino era uma peça rara, além de saber todo tipo de “livusia” ainda “invurtava”, morava socado no meio duma mata onde só ia quem queria algum compromisso com o “tinhoso” e olha que muita gente voltou no meio do caminho. Mas os que lá chegaram acabaram firmando compromisso, teve até conquistense que se deu bem com as garrafadas de Vitalino.

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Pra sempre vice

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 27 abr 2019

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Por nando da Costa Lima

Genebaldo tava cuspindo brasa, tinha surgido um boato de que o vice presidente da fábrica de vassouras 5 Estrelas LTDA. ia assumir o cargo de presidente, que era dele. Tava tão retado que disse o diabo pros funcionários que não tinham nada a ver com o caso. Começou dando um murro em um dos balcões e falou aos gritos que ele só saía da presidência morto.     

— Tão pensando o quê? Vocês já viram alguma empresa ir pra frente quando o presidente é menos capacitado que o vice??? Isso não existe em empresa nenhuma, quando isso ocorre a firma quebra. Eu estou nesse cargo por mérito, tenho curso de administração por correspondência. Não é só porque eu sou sócio que estou presidindo, é por minha competência. Essa conversa de que meu irmão Arquimedes vai assumir o meu lugar é velha, ele mesmo sabe que não tem capacidade… Um homem que quando vê um empresário forte fica parecendo menino querendo doce, isto é um absurdo! Eu sei que pega mal esculhambar com parente em público, mas quando bota o nome da “Fábrica Cinco Estrelas” em jogo, eu perco a cabeça.

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