Gordini

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 16 set 2017

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Por Nando da Costa Lima

E a roda foi formada no jardim da praça central, era ali que Teodoro, o solteirão, contava suas aventuras e matava o povo de inveja. Ele tava falando da vez que foi num cruzeiro na costa brasileira e pelo que ele contou, comeu o navio quase todo, até a mulher do capitão! Começou pegando as arrumadeiras, depois as noivas que estavam em lua de mel (17, segundo suas contas), duas viúvas e nove divorciadas. Pra um cruzeiro de dez dias, ele caprichou.

Um dia, Teodoro “das Cavada”, no meio de uma farra, anunciou que tava pensando seriamente em se casar. A mulherada da região ficou toda assanhada, teve até gente que terminou noivado e namoro. Todas sonhavam entrar na igreja e se tornar esposa do maior bom partido daquelas bandas da caatinga, o homem tinha até uma ruralzona Willys e já tinha um Gordini novinho na garagem pra presentear a noiva, é mole?! Teo não era o que se podia chamar de homem bonito, mas dava pro gasto. Era baixinho, branquelo, mas sabia fazer dinheiro. Era comerciante, criava bode e tirava leite de umas vaquinhas. Era o homem rico das redondezas. E é claro que pra casar teve que fazer umas compras na capital, inclusive uma dentadura com novinha e tudo.

Tinha o povo do contra, os invejosos que falavam que Teodoro não era homem para casamento, pois, além de beber muito, só andava acompanhado de macho. Parece que nunca tinha namorado sério. Quanto a ir pra cama com alguém, nisso ninguém se metia, era um problema particular que nem as putas comentavam. Mas ele era gente boa, até o puteiro funcionava em uma de suas residências e não pagava aluguel nem nada. Sendo assim, mulher nenhuma ia cair na besteira de comentar o desempenho dele na cama. Quando falavam, era pra elogiar. Tonhão, que administrava o puteiro, tava sempre elogiando o caráter e a humildade do amigo de vários anos. Só que Tonhão era noivo da moça mais cobiçada do trecho, e até ela se entusiasmou com a notícia de que Teodoro estava querendo casar. Já pensou, o homem além de ter tudo, ainda ia dar um Gordini “novim”. Marycler tava pensativa, aquele negócio de ser noiva de dono de puteiro nem pegava bem pra ela… Tonhão foi quem primeiro notou que a noiva tava querendo dar de banda. E agora? Quando Marycler falou que tava pensando em “dar um tempo”, ele quase saiu do sério. O que o dinheiro não faz? Mesmo assim, tentou se conter e argumentou.

– Por que isso, minha linda? Nós sempre nos demos tão bem, até as alianças eu já encomendei.

Marycler estava irredutível, sempre quis ter um carro.

– Mas isso não quer dizer nada, nós ainda nem marcamos a data do casamento, da muito bem pra dar um tempo.

Tonhão, quando viu que a noiva não ia mudar de opinião, resolveu contar a verdade sobre Teodoro das Cavadas, só assim pra resolver aquele impasse. Não queria perder nem a noiva e nem a amizade, mas pelo visto ia ter que sair perdendo alguma coisa…

Marycler quase morre de raiva quando soube da verdade, se descabelou de ódio. Aquele sacana tava iludindo as moças da cidade só porque tinha dinheiro. Adeus Gordini, sem falar o tempo que ela perdeu com o mala do noivo…

Pra resumir a história, porque se eu for falar muito sobre o caso dos dois vão me chamar de homofóbico. Tonhão foi quem ganhou o Gordini!

E o bloco dos “caçadô” nunca mais saiu…

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 02 set 2017

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Por Nando da Costa Lima

Bejalviro estava comemorando os seus 75 anos junto aos parentes no seu sítio no interior de “Sompaulo”. Tinha sobrinhos, irmãos e afilhados, só não filhos e netos. É que o anfitrião, apesar de já ter sido casado, havia separado. Marinalva aprontou tudo que podia com ele, tanto que até Bejavalviro, que era meio passado, acabou descobrindo. E nesse dia ele resolveu contar porque nunca mais tinha pensado em casamento, e olha que tava se sentindo vingado, de alma lavada. É que tinha recebido uma carta da ex-mulher dando os parabéns pelos 75 anos e implorando para acabarem esta caminhada juntos: “O tempo apaga tudo…”. Mas, para Bejalviro, o tempo não apagou nada, e ele fez questão de responder a carta à altura. Antes de enviar, como vingança, leu a missiva para todos os presentes na comemoração do seu aniversário. Teve até fundo musical… Ele fez questão de caprichar, pois tinha muito parente da ex-mulher na festança, e a maioria dos convidados conhecia a história. Quem entregou a carta de Marinalva para Bejalviro foi seu ex-cunhado, a quem ele não via a muito tempo. Mas Beja nunca esqueceu de ele contar um caso e em vez de falar seu nome, falou “o corno do meu cunhado”. Bejalviro ia chegando na hora… Isso fazia parte do rancor do velho pelo “amô” do passado.

E começou a ler a carta resposta: “Pois é, Marinalva, lá se vão anos e anos, esse tempo deu pra eu botar a cabeça no lugar, saí daí traumatizado com a experiência que tive com você. Foi duro suportar tanta humilhação, mas graças a São Jorge eu sacudi a poeira e consegui me reerguer em Sompaulo. Mas até tirar você da cabeça eu engoli muita cachaça, nem sei como não morri de pinga. A primeira coisa que fiz pra começar a me ajustar foi parar de beber e nem pensar em casamento, você me maltratou demais. Eu acho que até hoje tem gente que lembra da sua safadeza, em plena lua de mel você conseguiu me trair com todos os integrantes do bloco dos ‘caçadô’, aquilo foi um absurdo, e gerou o primeiro dos muitos apelidos que ganhei por sua causa: ‘Corno Caçadô’. Foi o caso mais grave de cornitude que ocorreu por aí, se fosse pra matar os ‘Ricardão’ eu teria que comprar uma metralhadora e um caminhão de bala. Mas é isso, em tudo o tempo dá um jeito. Hoje eu tô aqui, tranquilo, em paz comigo mesmo, e na hora que abri uma cervejinha pra prosear com um vizinho, chega uma carta sua… É que apesar das suas safadezas, eu nunca deixei de pensar em você. Noêmia de Noca me deu logo uma bronca, perguntou se eu tava pensando em virar corno depois de velho, porque segundo ela, você me deu o título de ‘rei dos cornos’. Eu até dei risada, mas no fundo ela tem razão… Você só não foi com meu avô porque na época não tinha viagra. Quando a mulher é muito fogosa, o povo fala que é porque tem ‘fogo no rabo’. Você então devia ter um crematório. Teve gente que me contou que você passou a lixa até em Cafezinho, e tia Dulce me garantiu que você chegou a engravidar de Mania, além de ter passado três dias no mato com Vitório Cocão. Resumindo, nem os doidos você deixou escapar. Tem anos que saí daí pra não morrer de vergonha. Agora eu queria saber onde é que você tá com a cabeça pra imaginar que eu poderia cair na sua conversa de que eu fui seu único amor, e de repente voltar logo agora com 75 anos nas costas. Cê tá achando que corno com o passar do tempo acredita em tudo? Se toque, sua piranha velha, graças a você até hoje eu nunca mais consegui ter relação com mulher nenhuma, nas vezes em que tentei, falhei. Era só pensar em você me traindo e pronto, já era… Só estou respondendo sua carta porque me falaram que você está muito doente, e como espiritualista não podia fazer a desfeita de não responder, e principalmente lhe alertar: quando você partir pra outra, não se esqueça de que o Capeta, mesmo tendo chifre, parece que não gosta de ser traído”.

E pra vingança ficar completa, encerrou a narrativa cantando o tema do bloco dos “caçadô”: “Ô, leva eu minha saudade, eu também quero ir”.

Unindo Forças

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 19 ago 2017

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Por Nando da Costa Lima

– Pois é, seu Venâncio. Eu sou filho do deputado Osvaldo e neto do também deputado federal Osvaldo do Pé da Serra… O senhor deve conhecer.

– Ai, ai, ai…

– É o quê, seu Venâncio. Falei alguma coisa que o senhor não gostou?

– Não, meu filho, eu só tava lembrando que um dia jurei que nunca mais ia passar raiva por causa de porra de política. Tô vendo que até sem querer a gente fica retado.

– Retado por que? Meu pai é um dos homens que mais prezam a democracia, como o meu bisavô, que foi o primeiro prefeito daquela cidade que o senhor nasceu.

– Alto la, seu bisavô foi interventor de Getúlio. Prefeito é outra coisa, é o povo quem elege…

– Tanto faz, nós não podemos julgar ninguém sem ter vivido o que viveram. Interventor, prefeito… Dá no mesmo se for para o bem do povo! …Leia na íntegra

Era uma rapaz de quarenta e tantos anos

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 05 ago 2017

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Por Nando da Costa Lima

Médici ainda era presidente… Estamos na pensão de Dona Gumercinda, que era madrinha de Teodomiro. Este aproveitava o parentesco pra morar de graça em Salvador sendo mais bem tratado do que os hóspedes que pagavam… Isto é, agora nem tanto. É que o dito afilhado, há cinco anos e meio, passou no vestibular de direito. Quando estava cursando o 1º período na Universidade Federal da Bahia, era tratado como um príncipe, mas já tinha dado o tempo de ter virado advogado e ele continuava lá, um eterno universitário revoltado com o sistema e sustentado pela madrinha que agora já andava pegando no pé, achando erro em tudo que o folgado do afilhado fazia. Mas não era pra menos: cinco anos e meio e nada de diploma, todo hóspede já ficava sabendo que aquele cabeludo com jeito de hippie era o preguiçoso do afilhado da dona da pensão que fazia direito há quase dez anos… Frase grande pra quando se quer falar que o cidadão era um zero à esquerda! Mas ele já estava acostumado a ser olhado assim naquele “universozinho pequeno burguês” da pensão.

Já lá fora… ele era o cara, tinha até comido aquela hippie que vendeu uma pulseira pra Janis Joplin em Arembepe, não era todo mundo que ia ali! Tinha que ser “cabeça”. Edmara “Joplin” assumiu o sobrenome da “amiga”, dava mais charme, a rapaziada encostava pra saber “Por que Joplin?”. Aí ela caía matando. Ela era o máximo, só dava em inglês: “Fóque-me, mailove. Ai laique ferro, gudi, gudi. Ok, Ok. Not para. Ai loviiúúúú”. Teodomiro estava no meio de uma dessas paixões, e se achando o dono do pedaço. Chegava mais de duas da madrugada pra entrar na pensão sem chamar a atenção de ninguém, principalmente da dinda, que passara de fada madrinha a madrasta má. Grudava no seu pé dia e noite, aquele estrupício já devia ter voltado pra casa dos pais em Conquista, mas não, só ia visitar a família uma vez ou outra, até as férias ele passava na pensão.  Ia deixar Salvador nas férias? Tá doido?! …Leia na íntegra

Big Bang

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 29 jul 2017

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Por Nando da Costa Lima

Segundo o poeta Affonso Manta: “Esse negócio de mulher, amigo: é caro, perigoso e divertido”.

Clemente acordou assustado e suando frio. Sua mãe, Dona Janoca, logo viu que ele tinha tido outro sonho profético… Tava virando rotina!

– Foi o quê, Clemente? Tá com cara de quem viu assombração.

– Outro sonho daqueles, mãe. Só que esse é muito sério, eu sonhei que o mundo vai explodir e que não vai sobrar ninguém pra contar história.

– Tira isso da cabeça. Desde que o mundo é mundo tem gente sonhando e profetizando que ele vai acabar…

– Mas a senhora sabe que sonho meu sempre se torna realidade. Lembra da vez que eu falei que Cholinha, a cadela de Seu Jaime, ia morrer? Lembra da vez que eu falei que Viriato ia virar a Kombi e não ia ter nada?.. E da bicheira do reprodutor de Etevaldo? Foi dito e certo, no outro dia o cavalo tava bom de tudo. Sonho meu não falha, isto sem contar com prefeito e vereador que eu sonho votando e todos se elegem. …Leia na íntegra

A baleia

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 15 jul 2017

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Por Nando da Costa Lima

Eu nem cheguei a ver esta baleia, acho que nem era nascido, mas escutei meu pai e Zé Pedral comentando e dando risada deste fato, e a tal exposição realmente existiu…. Foi numa época em que a Pituba ainda era estação de veraneio para os moradores de Salvador. Aconteceu que uma baleia encalhou nas praias da Pituba e acabou morrendo. Pra quem morava na beira do mar, a baleia só chamou a atenção por alguns dias, foi muita gente ver o animal encalhado, mas na visão de um empresário e empreendedor aquilo era uma mina de dinheiro. Belmiro teve a brilhante ideia de colocar a baleia na carroceria do seu caminhão e entrar pelo interior mostrando o bicho para o pessoal que nunca tinha visto um “peixão” daqueles, ia encher os bolsos de grana. Investiu pesado: comprou a lona de um circo que quebrou em Sergipe, tinha que cobrir o caminhão e a baleia, senão quem iria pagar ingresso? Causaria impacto em muita gente que nunca tinha ido ao litoral e nem imaginava que chegaria a ver o maior dos animais do planeta sem sair do interior. Ele começou sua jornada para mostrar o “Monstro dos Mares” pelo interior da Bahia, seu plano era chegar até o norte de Minas e quem sabe até Belo Horizonte, só que ele esqueceu de um pequeno detalhe: baleia também apodrece!

Em Feira a bicha já tava cheirando mal, mas dava pro pessoal encostar. Quando chegou em Jequié o fedor já espantava gente, ainda assim dava pra expor. Parou em Poções só pra remendar a “bichona”, usou pedaços de lona para tampar os buracos que já apareciam com a decomposição. Teve até um poeta de lá que escreveu um verso que ficou famoso na época: “A BALEIA NADA, NADA, NADA, NADA E NADA…”. (E olha que nessa época nem se falava em minimalismo). Quando chegou aqui em Conquista já tava com um cheiro insuportável, mas mesmo assim foi exposta na Praça da Bandeira.  Fedeu a cidade toda, o prefeito mandou Belmiro ir embora com aquilo no mesmo dia, o cheiro tava de matar. Quando chegou em Minas a polícia o obrigou a voltar ou a dar fim naquela coisa tão fedorenta, foi o jeito enterrar a baleia. O dinheiro que ganhou foi todo embora com a empreitada pra cavar um buraco e enterrar o animal. Só ficou o apelido: Belmiro Peixe Podre.

Só não sei exatamente onde foi o enterro, mas foi até bom escrever isso pra servir de alerta: se por acaso algum arqueólogo encontrar a ossada da baleia que foi enterrada no norte mineiro, não vá deduzir que aquilo é uma prova concreta de que Minas já teve mar. Foi só um empreendimento que não deu certo. Se você conquistense tiver algum parente beirando os noventa, pergunte pela baleia. Dr. Ruy Medeiros, que é historiador, deve saber desse causo mais detalhadamente, deve até ter tirado uma fotografia da “baleiona”…

Clarivaldo Trincheira

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 08 jul 2017

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Por Nando da Costa Lima

Quem viu tudo foi seu Pedro, apesar dos seus 97 anos e as vistas curtas o seu depoimento era a única pista da polícia. O velho foi testemunha ocular de um crime: ele só sabia que o matador era pequeno. A polícia prendeu uma cacetada de baixinhos, mas foram todos liberados por falta de provas. As investigações continuaram com a prisão de um anão fisioterapeuta, mas este tinha o álibi que nesse dia estava massageando a coluna de Abinal na Rua da Granja. Passou o dia todo friccionando a região lombar do butequeiro, muita gente viu. A polícia arquivou o caso e a família do morto apelou para Clarivaldo Trincheira, investigador profissional e competente formado por correspondência cujo único defeito era não gostar de tomar banho. Tava ruim pra Clarivaldo, um caso simples pra sua capacidade e ele dependendo de uma testemunha quase inválida. Pegou o endereço da vítima e partiu na sua Rural afim de achar uma pista mais nítida. …Leia na íntegra

O aniversariante

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 03 jul 2017

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Por Nando da Costa Lima

A família tava toda curiosa, é que um tio que morava no Paraná há mais de 50 anos resolveu que tinha que comemorar seus 85 anos aqui em Conquista, sua terra natal. Dos parentes daqui a maioria nem tinha conhecido Tio Norberto, só Dona Beatriz, três anos mais nova que o visitante, conheceu pessoalmente o parente que estava retornando. Ela chegou a comentar com os filhos, netos e bisnetos: “O que aquele traste vem fazer aqui, aquilo já era chato quando novo, imagina agora! ”. O pessoal não levou a sério, Dona Beatriz implicava muito com os parentes. Seu Norberto, apesar da idade, ainda estava lúcido e forte, segundo os primos do Paraná. Isso já era um conforto para os daqui, pelo menos não iriam ter que tomar conta dum velho caindo pelas tabelas durante um mês, tempo que ele mesmo determinou que passaria na terra do frio… A família foi recebê-lo no aeroporto no dia marcado, e ele foi o último a descer do avião, acompanhado por dois funcionários da empresa aérea. …Leia na íntegra

Pamonha, canjica e lero lero

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 24 jun 2017

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por Nando da Costa Lima

– Eu comprei um chapéu de primeira em João Couto e já encomendei uma botina 44 bico largo em Seu Zé Pereira, daquelas que aguente um cabra retado pois vou dançar até rachar o chão, tem mais de nove anos que não danço um forró em Conquista. Desde São Paulo eu venho sonhando com isto. Agora que estou por cima da gaita posso até pedir Isidora em casamento sem correr o risco de ser esculhambado pela família dela. Cê lembra né, compadre Néu, quase que os irmãos dela me mataram de porrada só porque eu falei em namoro. Gente é um bicho difícil, se o sujeito não tiver dinheiro não pode nem sonhar em casar com uma mulher bonita. E naquele tempo eu era franzino, não sei por que juntou tanta gente pra me dar pancada. Se fosse hoje eu botava todo mundo pra correr com o meu “três oitão”. Sompaulão além de me deixar com dinheiro, me ensinou a mexer com gente ruim. O compadre também não se esquece que eu saí daqui só com a roupa do corpo, o dinheiro que levei só deu pra pagar uma semana numa pensão barata. Quando acabou o dinheiro eu comi o pão que o diabo amassou: dormi em banco de praça, apanhei da polícia, passei muita fome. Só não morri porque Deus é grande. Mas o que mais me perturbava era a saudade de Isidora e de Conquista. …Leia na íntegra

Fogueiras e bandeirolas

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 17 jun 2017

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Por Nando da Costa Lima

A rua já estava toda decorada 24 horas antes da véspera da noite de São João, o pessoal da Granja sempre gostou de forró, todo mundo colaborava para o sucesso da festança, era bom demais! A gente bebia e comia tudo que tinha direito e não gastava quase nada. Tinha fogueira de todo jeito, só dependia do bolso do festeiro. Mas nem que fosse uma fogueirinha de nada, tinha que ter. Só que teve um São João que a alegria foi quebrada com um problema seríssimo: é que escolheram a maior e mais ornamentada fogueira da rua e deram uma cagada tão descomunal que parecia que tinham jogado de pá. O pessoal ficou na dúvida se era de gente ou de algum extraterrestre cagão. Do jeito que ficou, nem pegar fogo ela ia pegar. Não dava pra secar até o dia 23 (isto aconteceu um dia antes). E o safado além de fazer o serviço pesado ainda usou uns 10 metros de bandeirolas pra se limpar. O dono da fogueira era muito conhecido pois adorava festa e era um cabo eleitoral fortíssimo, vereador que ele apoiava podia se considerar eleito! …Leia na íntegra

O iluminado

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 10 jun 2017

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Por Nando da Costa Lima

O missionário naquele dia tava inspirado, já tinha feito mais de 30 milagres, e ainda havia uma fila de mais de um quilômetro para ele consertar. Tinha tirado a cachaça de uns dez, curou cegueira, corrigiu defeito físico. Era só ficar de olho fechado e estender o braço direito que conseguia o que quisesse. Dinheiro então nem se fala, enchia os sacos. Aurélio era um orador de mão cheia, um dom herdado de seu avô, Zé falador. Da família da mãe herdou a religiosidade: tem tio padre, tio pastor, tio pai de santo. O sobrinho sofreu influência dos três, daí que veio sua vocação pra missionário, mas preferia ser chamado de “iluminado”.

As coisas nem sempre foram boas para Aurélio, passou muito aperto até chegar onde está. Primeiro tentou a política, mas como pra se eleger era preciso muita grana, pra ele não deu. Além disso, esses empregos já não são mais tão vantajosos como antigamente. Na sua profissão de formação sempre foi discriminado, ninguém queria seus serviços como advogado. Mas não sem razão, a última causa que lhe deram para resolver o cliente só não foi condenado à morte porque no Brasil não tem isso. E olha que o crime só foi se embriagar e mijar na frente da Prefeitura. Mas como missionário sua ascensão foi rápida, ficou conhecido no mundo todo, tão famoso que vai lançar um livro contando sua gloriosa carreira e revelando como descobriu seus poderes para a prática do bem, sentiu que era um iluminado. Só que a história que ele conta no livro não tem nada a ver com a realidade. …Leia na íntegra

Politicamente incorreto

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 03 jun 2017

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Por Nando da Costa Lima

Tudo era festa na vida do prefeito Onorino Pranchão e de seus seguidores. Ninguém incomodava nem se metia na administração da velha raposa política. Já tinha tentado morar em Brasília diversas vezes, mas nunca conseguiu os votos suficientes para se eleger, sua região mal fazia um deputado estadual! Devido a esse pequeno problema, Onorino apesar de se julgar um gênio político, nunca conseguiu destaque além de seus domínios. Como vereador se destacou com um projeto para racionamento de água, lançou a campanha “Só dê descarga em serviços pesados”. Ele achava um desperdício dar descarga em mijo. Por isso o velho político estava se despedindo da vida política como prefeito de sua terra natal, ali ele podia descansar sem a interferência dos abelhudos da esquerda. Estava coberto: os veículos de comunicação pertenciam aos seus parentes, dali não saía uma vírgula contra a sua administração. Como a equipe de funcionários era composta só por parentes ele, para evitar burocracia, recebia o total e distribuía as mesadas. Nunca ninguém reclamou… aliás, teve Nôzim que achou ruim, mas logo foi transferido da Secretaria de Saúde para a portaria do cemitério. Depois disso ninguém nunca mais fez queixa da mesada. Onorino era um homem de poucas palavras, gostava mais de refletir… Teve uma vez que invocou que foi um grande líder numa encarnação passada, se impressionou tanto com isso que resolveu ir fazer uma consulta esotérica na capital, recorreu à hipnose para voltar a vidas passadas. Ninguém teve acesso ao resultado final, mas segundo as más línguas, depois de hipnotizado Onorino começou a relinchar e quebrou o consultório todo no coice. Isso eu não sei se é verdade… só sei que o jornal da cidade deu o furo dizendo que o prefeito tinha amansado o cavalo de São Jorge em vidas passadas. …Leia na íntegra

Conquista é poesia

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 27 maio 2017

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Por Nando da Costa Lima

Conquista é uma poesia, mas para entender seus versos, é preciso conhece-la. Não é uma poesia comum que a gente lê de bate-pronto, entende e torna a esquecer. Ela é leitura difícil que exige mil artifícios para poder compreender, mas depois de assimilada é impossível esquecer. O seu passado é poesia, mesmo quando veio a fome (seca de 1899) a salvação foi em versos, ela veio com as pombas… O povo já estava desesperado, não havia mais recursos, a fome era vigente. De um dia para o outro milhares de pombas invadiram a Serra do Periperi, fizeram dali um ninho e os ovos por elas produzidos foram a salvação da população carente. As pombas só se foram da serra depois que a chuva voltou a molhar o sertão.

Conquista é poesia, para lê-la é preciso paciência, seus versos surgem aos poucos… Na política houve poesia… Nos idos de 1919 nossa gente estava em pé de guerra pela luta ao poder. Os coronéis é que mandavam, mas quem falou mais alto foi a poesia que se incorporou na parteira Laudicéia Gusmão. Ela pegou um rifle papo-amarelo, um instrumento dos coronéis, pendurou um lenço branco na ponta, atravessou a rua principal, reuniu os coronéis responsáveis pela luta e exigiu PAZ, evitando uma tragédia de grandes proporções.

Tenho para mim que um dia a poesia Mongoió vai se destacar. É que ela é meio lenta, não sei se por culpa dos órgãos culturais ou se é o tempo que aqui demora a passar. Mas um dia, tenho certeza, todo mundo vai saber que aqui viveu Maneca Grosso, um poeta genial que viu Conquista “Do Cimo do Morro da Tromba”. Viu e sentiu como ninguém, e quando o cito como pacifista é porque julgo que só um homem de paz responderia em versos a surra que lhe causou a morte. Conquista é terra de poetas: Camilo, Íris Silveira, Jesus Gomes, grandes poetas! Conquista é tão mágica que quem por aqui passa, sempre volta. Nosso principal ponto turístico é a personalidade de nossa gente, nós sabemos agradar de acordo o agrado. Aqui não se dá o outro lado da face para ser esbofeteada, e tenho certeza que Cristo entende essa nossa atitude. É que aqui é muito frio, e se um tapa de um lado já dói, imagine receber dois tapas! Gosto tanto de Conquista que às vezes sinto falta até das coisas que não vivi, como o “Magassapo” poeticamente descrito por Camilo, ou o “Velho Mulungu” que levou o poeta Erathóstenes Menezes a dedicar os versos que se tornaram antológicos em nossa literatura (Nem o poeta nem o pé de Mulungu são de Conquista, mas a inspiração de Toti é genuinamente Conquistense): “Buscando a tua sombra, a evocar o passado, a ti eu me comparo, amigo abandonado. Tu já não tens mais vida –  eu já não canto mais”. 

Conquista é poesia… ela é tão sensível que todo fim de tarde seu céu fica corado de saudade pelo dia que se foi.

Porque viver é bom demais (Cordel)

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 20 maio 2017

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Por Nando da Costa Lima

Todo mundo vai um dia

Todo mundo um dia vai

Mas na hora da partida

Não tem como dar pra trás

Temos de ficar atentos

Fazendo de cada momento

Uma festa sem lamentos

Pois viver é bom demais! …Leia na íntegra

O último baião

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 13 maio 2017

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Por Nando da Costa Lima

Teotônio já tinha mandado dar uma meia dúzia de surras nos safados que insistiam em lembrar do passado de sua esposa e o pessoal acabou se convencendo e aceitando Ritinha como grande dama da cidade, invejada pelas mulheres e desejada pelos homens. Mas tudo no maior respeito possível… Só Abreu Pé de Valsa que não conseguia tirar Rita da cabeça, já tinha apanhado três vezes e não se emendava. Mas valia à pena, Ritinha era bonita até sem a dentadura.

Um dia a “boa notícia” correu pela cidade: o tenente reformado Teotônio Cascavel tinha sofrido um derrame e perdido noventa por cento dos movimentos para sempre. Virou um vegetal (se é que podemos comparar um sacana daqueles com um vegetal), era transportado de um lado para o outro numa cadeira de rodas, ela ia na frente com um capanga empurrando a cadeira do marido, ele era muito gordo! Atrás vinham dois pistoleiros que não deixavam o patrão um só minuto. Mesmo naquele estado ainda tinha gente que o preferia morto, sua presença incomodava mesmo desmemoriado e paralítico. Mas uma coisa era certa: ali quase todo mundo era sério, ninguém desrespeitava a “semiviuvez” de Ritinha… Isto é, quase ninguém, como eu já disse tinha Abreu Pé de Valsa (obteve aquele apelido por ser o melhor dançarino da região) que não podia ver Rita sem dar uma cantada. Ela já tava perdendo a paciência com o desrespeito daquele traste, mas num fim de mundo como aquele não tinha jeito de evita-lo, tinha que suportar. Ficava chato mandar os camaradas despacharem aquele pau de bosta em público. …Leia na íntegra

O gigante adormecido

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 06 maio 2017

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Por Nando da Costa Lima

 


Este causo aconteceu num tempo em que ainda não se vendia tesão nas farmácias…

Abdias saiu arrasado do Magassapo, nem a saideira que costumava beber no puteiro ele tomou. Tava nervoso e cabisbaixo. A “moça” até tentou dar uma força mandando ele se acalmar, aquilo era normal, outro dia ele voltava e quem sabe o seu gigante adormecido reagia. Isso o deixou mais retado ainda, fez ela jurar que não ia contar pra ninguém, pagou até mais do que o combinado praquele segredo jamais ser revelado. Caso ela contasse seria o fim de sua fama de bom de cama. Ele chegou empolgado ao Magassapo, ficou sabendo lá no Departamento que tinha uma nova beldade de fora que levantava até defunto. Teve que inventar uma desculpa bem convincente pra que Dona Filomena nem desconfiasse que ele ia passar a noite no brega pra conhecer a novidade e manter sua fama de garanhão. Falou pra esposa que ia dormir na casa do patrão pois este tinha viajado a negócio e não podia deixar a casa sem ninguém. A esposa acreditou na hora, sabia que ele era o homem de confiança do patrão, o único que o Dr. Confiava em deixar a chave da casa. A mentira colou bem. …Leia na íntegra

Conquista transcendental

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 29 abr 2017

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Por Nando da Costa Lima

Passam vários santos em nossas vidas… pessoas que enxergam em nós o que nunca conseguimos ver. Anjos, santos e querubins que quando não tinham em quem se apoiar eram taxados de loucos, putas ou bandidos. Para ser conquistense não é preciso nascer aqui, basta se apaixonar pela cidade. Tem muito cidadão parido aqui, mas felizmente não é daqui. Contudo, ninguém tem culpa de não poder transcender. Convivi com muita gente acima da média, tão acima que chegava a disfarçar… Um disfarce tão perfeito que eu só vim ver mais nitidamente agora, já começando a descer a ladeira. Conheci grandes poetas que nunca escreveram um verso, convivi com escritores que nem sabiam ler, mas eram tão geniais que bastava assimilar suas ideias para entrar no enredo de seus versos e histórias.

Conquista é linda graças à energia desses anjos que por aqui sempre andaram sem nem serem notados, tão apaixonados por nossa cidade que até quando partem deixam toda a energia positiva pairando na terra do frio. De vez em quando eu vejo um passar voando. Nossa Conquista tem a magia de atrair estas legiões que preferem sobreviver no “anonimato”, criando, ajudando, fazendo de tudo para agradar a quem, como eles, amam esta terra. Indiferentes aos que se sentem melhores, que olham de cima pra baixo, sendo que eles que sabem até voar só olham as pessoas de frente. Mas não quero falar do outro lado, estou falando dos anjos, santos e querubins que habitam Vitória da Conquista desde sua fundação… Espíritos livres… Gente! Descendentes diretos de uma santa caatingueira que se apaixonou por um índio mongoió que morava no Poço Escuro e sabia voar.

Política…

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 22 abr 2017

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Por Nando da Costa Lima

Ano que vem nós vamos ter que voltar às urnas, isso se sobrar alguém solto. Mas eles sempre dão um jeito… Geralmente só sobra para os “bois da piranha”, com os caciques a coisa é diferente. É até capaz de a Lava Jato ir por água abaixo.

Existe aquele político que nessa época torna-se o mais humilde dos homens. Tem aquele que promete até o que não tem. Uns ficam puritanos, outros rasgadamente liberais. Alguns tornam-se espiritualistas, tem até aquele que toma scoth o ano inteiro mas ao aproximar-se das eleições torna-se bebedor e conhecedor de pinga pura, e como vocês sabem, a cachaça é um dos três dos maiores cabos eleitorais do País. Os outros dois, apesar de competentíssimos na arte de conseguir votos, perdem de longe pra “pinguinha”, são eles: cerveja e jurubeba. Na caça ao voto tudo é permitido. e eu acho natural desde quando os caçadores eleitos (perdão, candidatos) desenvolvam um trabalho sério a favor do meio que o elegeu. Sabemos que existem pessoas bem-intencionadas, que submetem-se até perder o prestígio adquirido ao longo dos anos apenas com a finalidade de servir, digo isso porque é natural na política um “Sacana” subir num palanque e arrasar com a vida particular de um homem íntegro, apenas por ser um adversário político. …Leia na íntegra

A amiga de Janis Joplin

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 15 abr 2017

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Por Nando da Costa Lima

Nessa época a pátria ainda usava coturno… O poeta colocou o traje padrão: bota indiana da Barroquinha, calça boca de sino, chinelo e bolsa tiracolo de couro. Forrou o estômago com uma porção dobrada de arroz integral, fumou um baseado, tomou três cachaças no espanhol e engoliu três comprimidos de anfetamina, que na época era moda aos universitários revoltados com o sistema. Só queria viajar e encontrar Esmeralda, uma hippie velha que ficou famosa por ter vendido e amarrado uma pulseira no braço de Janis Joplin quando esta passou por Arembepe. Depois desse contato de minutos transformou-se na amiga de Janis. Todo mudo queria comer a hippie que era amiga de Janis. Era como entrar pra história… Pegou o ônibus Graça-Praça da Sé e na primeira curva sentiu a vista turvar. No corredor da Vitória o pesadelo começou, só agüentou chegar ao Campo Grande, o comprimido fez efeito rápido. Pulou pela janela do ônibus em movimento. Achou que estava cercado pelo Dops e o exército ao mesmo tempo. Foi salvo pela estátua do Caboclo que o aconselhou fugir logo pra casa da amiga de Janis e esperar o efeito passar. Era o sistema… Sorriu dos que dele sorriam e do amontoado de cacos d’uma sociedade avessa ao que imaginava. Continuou sonhando, continuou poeta, continuou fugindo…

“Ama, bebe e CALA. O mais é nada”

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 08 abr 2017

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Por Nando da Costa Lima

Quando a gente entrava em casa bêbado e tomando cuidado pra não chamar a atenção do “velho” e o encontrava roncando em frente à televisão ou talvez fingindo que estava dormindo pra não ter que suportar prosa ruim de biriteiro, tinha a impressão de que ali estava um homem com a verdadeira sensação de missão cumprida… Mas hoje vemos que estávamos redondamente enganados, acho que ninguém parte com a sensação de ter feito tudo que queria na vida, só os mentirosos. Somos todos ventilados por aquele poema de Borges que quando lemos ainda jovens achamos que podemos mudar o rumo da História, mas 20 ou 30 anos depois vamos notar que nem andamos pelo mundo, quando muito demos foi uma voltinha. Passamos a nos sentir solitários mesmo quando acompanhados, nos sentindo como profissões que hoje já nem mais existem, como telefonista, professor de datilografia, datilógrafo, etc. É uma porra se sentir obsoleto mesmo ainda tendo pique pra jogar várias partidas. É assim que me sinto, estou com quase sessenta anos e acho que não fiz quase nada e que já não tenho tempo pra fazer o que gostaria. …Leia na íntegra