Um olhar para trás

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Publicado por Editor | Colocado em Vit. da Conquista | Data: 31 ago 2013

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Vida  atormentada

Por Alberto David

 

iAlberto David Saímos definitivamente da Rua Francisco Santos para um novo endereço,  já  mencionado   em textos anteriores,  dos infortúnios e as vicissitudes por que ali passamos .  Para se ter uma idéia,  o apartamento ficava nos fundos  e, para chegarmos até ele , tínhamos  de  seguir por um corredor . Além disso, éramos obrigados a  conviver com o mau cheiro e os insetos peçonhentos  e com  outros  considerados  inofensivos que vinham  da fossa  localizada no fundo do quintal.

Vivíamos ali,  três adultos, com três  crianças pequenas , numa  situação precária.

Com os cabelos compridos,  minha presença parecia ser motivo de vergonha e constrangimento para a família. O meu a atelier,  se é que posso chamá-lo assim , era um pequeno cômodo de poucos metros quadrados que não dava para movimentar-me, a não ser  um espaço para pôr o banco , o cavalete. Quando pintava, ficava  muito agitado, andando  de um lado para o outro a observar  uma melhor  perspectiva , uma posição melhor para ver as cores , uma melhor colocação dos elementos,  enfim, uma expressão que   deixasse  a obra de uma forma que me satisfizesse.  Ali pintei apenas dois trabalhos, em quase uma década,  pela falta de espaço. Preferi  dedicar-me aos desenhos  e depois houve alguns  problemas de saúde com o meu  filho, já do conhecimento dos leitores  destes textos , Um olhar para trás ;  mas, em compensação,  viria produzir com intensidade  na  próxima moradia .

Vem-me à lembrança “ A tragédia de minha vida “ , de Oscar Wilde,  que revela  uma escrita “desnuda”,   numa linguagem clara , e é assim que gosto de dizer,  de forma clara e verdadeira os  fatos da minha vida artística. Um percurso que não foi  fácil . Eu tive que percorrer  um longo caminho , tortuoso e agreste , tendo  uma pedra em cada curva  e adversidades, que me foram sucedendo a cada jornada. É  bem verdade que contei em minha travessia com importantes amigos  , minha mulher  e dentre eles o maior deles,  Jesus ,  que me amparou  nas descidas , nos trâmites de minha vida ingrata.

Por  volta de l996 , trabalhava ao lado do meu pai,  e era muito comum  colegas  meus passarem por mim e sorrirem dos macacões encharcados dos estrumes,  oriundos  das cargas do gado para o  abate  na região. Também  cheguei a trabalhar no posto de gasolina e, durante o abastecimento  dos caminhões a óleo diesel , acaba me sujando  e os  sujos de graxas e óleo diesel , naquele tempo usava o codinome de  bombeiro,  hoje é frentista. Ficava exposto a este vexame,  mas não ligava. Nas horas vagas desenhava  e escrevia meu pensamentos,  nunca fui preguiçoso,  sempre   dei porrada na  vida.. Trabalhava duro ali  ao lado de meu pai , diga-se  de  passagem, uma linda amizade,  mas que ia se deteriorar-se com  o tempo.  E  só voltaria ,após um longo  tempo …   Afastamo-nos  durante muitos  anos ,  tentei  de  todos os meios me reaproximar de meu pai , já quase na fase final  das crises, mas  sentia que me esquivava  , mesmo assim insistia,  queria o seu amor de volta , trocávamos algumas idéias,  não  era, porém,  como antes ,repito foi difícil , repito  sentia que  ele me evitava , por motivos óbvios , preocupado que viesse precisar de dinheiro,  eu era um artista muito pobre ; mas  não era nada disso, quem ia ali era meu coração,  Deus sabe disso,  e já deve ter falado com ele. Os que pensam ao contrário  não me importa, e, depois,  sabia que o  carma  que ora passava era meu .e tinha que perdoar.  E,  no final das contas,  dei a entender que , Graças a Deus,  era o afeto,  motivo  que o  procurava. Na  véspera de sua morte , Dia dos Pais,  lembro-me,  como se fosse hoje,  que , ao dar-lhe os parabéns,  disse a ele:  “ O senhor é um homem de valor “ e sorrindo respondeu-me:  “ Obrigado”.

Estava selada  a  amizade,  como nos   velhos tempo  de amigos  verdadeiros.

Naquele momento,  saiu   da sala e trouxe alguns documentos dentre os quais  um documento original da Prefeitura,   ou seja,  que dava  licença à  sepultamentos  e me disse:  “Fique com ele, Bertinho  (chamava-me assim), pode precisar e depois é difícil de procurar,  porque é tanta confusão  na hora  para  encontrar este papel “ . Eu fiquei atônico.  Peguei o documento e o guardei em casa, para cumprir  o  pedido.  Passados uns dois  dias , ele partiu , em paz e sem sofrimentos  inerentes à  partida, a  não ser uma única dor,  proveniente de um infarto fulminante.

Voltando a trajetória artística,  por volta de l980, estava na  fazenda Jaqueira , que  tanto   amamos  e onde vivenciamos  grandes momentos de nossas vidas, não estava bem , apesar de minha lucidez . Vim para Conquista,  para lançar  mais um livro,  “ O sonho de um guerreiro”, que, na verdade,  não fiz para este fim , quando o escrevi ,  o fiz  mais como terapia. Precisava pôr meus pensamentos em  ordem .  E,  daquela bendita  árvore,  uma enorme Jaqueira  que ficava ao lado da casa da sede da fazenda ,  comecei a pôr no papel  os  meus  pensamentos que  resultaram no livro, “O sonho de um  guerreio”. Deus foi muito generoso  comigo .

Antes dos anos 60,  meu pai fecha o posto de gasolina. Fiquei sem chão,   sem nada  para fazer,  gostaria de estar ali todos  os dias. Foi como seu eu tivesse perdido um ente querido, pois ocupava a minha mente,   que era muito fértil  ali. “E  agora José” ?

Acredito que daí,  a falta do trabalho foi o início de minha ruína ,  fiquei sem  rumo, gostava de ter compromissos, pois  nunca fui preguiçoso   e tinha como o hábito o trabalho . Parece que perdi  a direção.  E as coisas deram no que deram.  Com a mente vazia, sem minha  exposição permanente, que dava muito movimento,  foi   a  parte pior , pois era muito feliz  ali. O que fiz? Os leitores devem estar perguntando.  Fiz do meu quarto  de dormir um atelier improvisado,  coloquei  dois cavaletes e sobre eles uma rampa , tamanho em retângulo  e comecei a trabalhar, aliás,  tentei, pois minha mãe, não suportando a  bagunça,  chamou meu pai.

“Emilio,  você precisa conversar com Bertinho,  veja o que ele fez do quarto e mande-o tirar estas porcarias de lá”. O meu pai  via aquilo sem incômodo. Ele via aquilo, se acostumava e gostava de me ver  pintando; já diferente da minha  mãe, sabe como é dona de casa,   é dona da casa. Fiz o que ela quis,  porém pintei uma parede com um Cristo crucificado , que tomou a parede toda. Quando  ela o viu  quase cai de gosta , e logo chamou meu pai: “Emílio! Emílio! Veja o que Bertinho  fez aqui ?! “  Mas, para surpresa minha, o meu  pai gostou , o contrário de minha  mãe que achou um absurdo:   “ Este menino está doente!” , esbravejou.  No entanto, minha mãe gostava muito  de meus pensamentos e, de todos os meus poemas, ela tinha predileção pelo “O desespero do mendigo” , pois achava-o o mais bonito que um poeta pudesse escrever. Chegou a declamá-lo em vários lugares, a Academia Conquistense de Letras, pequenos seminários e centros espíritas. Sabia o poema todo de cor. Quanto aos outros, não tinha a mesma admiração, pois achava que nenhum deles era capaz de superar o “O desespero do mendigo”.

Então,  começaram os embates. Logo  após  “O  sonho de um guerreiro”,  meu pai começou a se opor a minha carreira : “ Como este rapaz pode se sustentar,  fazendo estas coisas ?  Viver de Filosofia!”,   dizia inconformado . Eu sempre fui diferente de meus irmãos que seguiram mais a orientação de meu pai, negociante,   sou o único artista da família, daí o baque.
Quanto aos meus livros,  milhares   e milhares de exemplares eram vendidos em mãos, pois as livrarias não gostavam de poetas da terra, e muito menos emergentes. Tinha que me virar  ,distribuía para as livrarias; outros colocava debaixo  do  braço e ia à luta, viajava pelas cidades circunvizinhas  para vendê-los aos prefeitos vizinhos.  Muitos  compravam  por amizade  ou  pela admiração “daquele esforço sem limite “.

Que exaustão. Não tinha mais o apoio de meu pai,  precisava  procurar patrocínios e outros amigos para me ajudar no meu sonho.

Fui  o único artista da família , a  levar uma vida  como um sacerdote,  sem as riquezas , sem o conforto material … E assim fui peregrinando pela vida  afora .

Com as crianças crescendo,  tive de mudar o meu  comportamento diante da vida , mas não a convicção de meus pensamentos e a  arte , ninguém vive sem ela. O dinheiro não é tudo.

Ali no posto,  sempre estava recebendo visitas de  pessoas de fora  e,  como disse anteriormente,  me distraía bastante , chamava a  atenção de todos  que por ali passavam , a exemplo do prof. Walter Levy, introdutor do expressionismo no Brasil , quando  aqui , de passagem por esta cidade estimulou-me para prosseguir   a carreira, convidando-me a estudar na Escola de Artes  Pan-americana,  em São Paulo, o quanto me arrependo de não ter ido para  lá.

Publiquei   13 livros, não obstante   as pessoas  não imaginam “o duro que dei “ para colocá-los nas livrarias , os projetos requeriam muito de mim e, daí,  vinham  as canseiras e os esgotamentos,  pois tudo era  comigo –  um polivalente. Realmente,  só vim ter prestígio   na minha terra após o meu sucesso lá fora , ainda assim , meu trabalho foi muito rejeitado,, sofria criticas  e restrições,  todas elas movidas  à “ nojenta “  da inveja , parece um carma na minha vida.

Dentre os amigos que me ajudaram nesta fase tomando a minha dor,  cito as palavras de Nilton Gonçalves representando os demais:  “ têm – se manifestado contra a inclusão do poeta e artista Alberto David ; um poeta e artista , que tem sido apoiado lá fora especialmente em Salvador , tem dado entrevistas  em jornais , emissoras de rádio e TV e indiretamente tem procurado elevar o nome no tocante ao setor  cultural (…). Quantos desses filhos de vocação, famosos e inteligentes , em vida contribuíram para eleger esta cidade. Vitória da Conquista , como cidade próspera , mas que recebeu a negligência para com suas memórias”.

Voltando às coisas práticas da vida,  morávamos mal ali na Francisco Santos. Precisávamos sair dali,  urgentemente , havia  focos de escorpiões ,   minha mulher estava grávida, dessa vez de uma menina . Todos avisavam ,  inclusive o meu  pai,   até que um dia a  minha mulher foi picada por  um deles,  só assim , saímos  daquele inferno , indo para uma outra casa, na Rua  Ascendino  Melo – 23 , pelo menos a casa tinha frente e, das janelas,  podíamos  ver o céu,  o sol e o movimento da rua.

Minha batalha era grande,  ainda por cima , tinha as tarefas de pai com direito a todas as preocupações e mais por ser um artista .

A nova casa  tinha apenas  oitenta metros quadrados,  num formato de um polígono . Vivíamos ali : eu , minha mulher  e, agora, quatro filhos , dentre eles  Sarah, uma linda criança, no meio daquele turbilhão, ou melhor dizendo, dentro de uma lata de sardinha. Numa vida bastante miserável.

Lá moramos   uns  quinze anos. Hoje a  casa nem existe mais, foi  demolida .Ainda bem.

Em l986 sou convidado fazer  parte da equipe de funcionários do Centro de Cultura.

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