UM OLHAR PARA TRÁS III

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Publicado por Editor | Colocado em Cultura | Data: 02 mar 2013

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Escrito por Alberto David

 

Alberto DavidConflitos

Talvez minha mãe não percebesse  os berros e gritos daquela criança devido aos estardalhaços dos fogos de artifícios que se misturavam  aos brilhos das estrelas  do céu. Eram as celebrações Juninas.

– Um menino!  Bradou  a parteira. Na época, não existia ultrassonografia . O entusiasmo foi grande  ainda mais para meu pai,  pois até então só nasciam meninas.

Minha mãe veio das lindas terras da pequena cidade de Jacaracy. Prima de sangue  do líder e lendário Mozart David, bastante afamado naquela região e com ótimo prestígio dos grandes políticos baianos, exaltado pela sua inteligência  e vocação política , prefeito por várias vezes da cidade de Jacaracy. Minha mãe deixou suas  raízes , descendência,  enfim sua árvore genealógica  ali, onde  passa de geração em geração e alcançou a fama da moça mais bela  de lá.

Meu pai chegou  em Jacaracy ainda rapazinho, fugindo de Barra da Estiva , sua terra natal , onde estava tendo um  surto da febre amarela  que  atingiu a  população, matando o seu pai , ainda moço. Em Jacaracy conheceram-se, e minha mãe fez sua escolha entre os admiradores ,  digo os seus pretendentes na cidade, ficando  com o forasteiro, com quem se casou,  meu pai . Logo após vieram   para Vitória da Conquista e se estabeleceram definitivamente  aqui. Daí minha origem ,  minha certidão de nascimento – um conquistense  da  gema, nascido na Rua Francisco Santos .

Meu pai era um homem simples,  humilde , não gostava de dever a ninguém , respeitado e de espírito conservador, ao contrário de sua esposa ,muito atirada e avançada para a época,  conhecida pela sua maior  qualidade, caridosa . Tenho boas lembranças de meu pai, dos  vários momentos maravilhosos  em  nossas viagens à fazenda , na região da cidade de Caatiba. Acordávamos pelas quatro horas da manhã,  para melhor preparar a viagem. Recordo-me do travesseiro que colocava sobre a cadeira do motorista, para me posicionar melhor  e, a partir dali , dava partida no jipe e íamos para a roça.  Nos trechos mais perigosos,  ele tomava ás rédeas,  digo o volante. Era, assim,  apenas para ilustrar  uma idéia da nossa amizade. Uma amizade que vinha deste aquela noite estrelada …

Fui o primeiro filho homem! Não desgrudava de meu pai e ele comigo era um paparico só. Chamava  a atenção de todos  o apego,  o exemplo de pai e filho. Mas, adiante, na verdade, tudo ia se desmoronar.  Viria um longo caminho a percorrer que avizinhava  de  dor, desespero, atrito  e rejeição.

Ao iniciar os caminhos da arte, até que meu pai aprovou,  dada à importância dos elogios dos amigos e colegas dele e da importância de um grande festival  Intercolegial de Artes,  no qual  obtive o primeiro lugar  e fiquei conhecido como  o poeta da cidade,  pela  repercussão  do poema  O Desespero do Mendigo. E disso ele se orgulhava. Foi um início repentino. Mas essa admiração e apoio do meu pai processou-se num  curto período:   “Isso não dá dinheiro .  Não dá futuro.  Não vou dar mais um tostão para estas coisas” – dizia ele. Enfim, não via mais com bons olhos  os caminhos da arte. Retirado o seu apoio, fiquei só. Mas insisti  no meu sonho, agora era correr atrás do prejuízo , como no dizer do povo.  E parti  para os patrocinadores,  as vaquinhas  e outros amigos para seguir adiante. Tudo ficou muito difícil,  até  porque  estava desempregado e acabara de  me casar .Ai  eu sofri dobrado para dar conta  de tudo  e soerguer sozinho.  Precisava complementar  aquela ajuda.  E com os pincéis e caneta na mão me atirei compulsivamente  na produção dos quadros, modéstia à parte e por sorte minha , saía bons trabalhos e vinha novos  lançamentos, um reinício, na base das vaquinhas, até ser patrocinado com exclusividade pelos prefeitos amigos .  E vendia . Vendia através dos lançamentos ou de mão em mão.  Precisava fazer dinheiro. Quanto aos quadros, fazia as mostras,  as exposições,  mas a maior parte das vendas era em domicílio, tudo feito às turras ou, como no dizer  popular,  “comia o pão que o diabo amassou”. Até os “pensamentos “ eram vendidos,  obviamente  em formas de livro.  Estava sozinho . Apenas minha mulher demonstrava  carinho  e  me dava coragem .

Tive de me afastar de meu pai, mas  com os filhos chegando, crescendo,   eram  muitas  as queixas,  às vezes tinha que recorrer  mesmo,  na pressão, infelizmente.

Meu pai nem chegou a conhecer a parte maior da minha obra,  não ligava mesmo, às vezes dispensava uma atenção bastante modesta  com aquilo que eu produzia.

Tinha os retratos que fazia e eram bem receptivos,  um gênero para poucos artistas , ou seja,  difícil para alguns, mas eu tinha facilidade para isso  e era comercialmente bom , somava a renda .  No entanto,  apesar de tantos esforços , humilhações  e constrangimentos neste percurso, era  insustentável viver daquela maneira   para a sobreviver por mais esforço que fazia – a rejeição pesava , como se estivesse  fora do casulo.

Precisava de apoio financeiro, o afeto já não me interessava mais, carecia, sim, de dignidade, para o sustento da família. Pesava, e como pesava,  a falta de um patrocínio.

Mas Deus abriu uma porta  e consegui um  emprego no Estado. A data  era junho de l986, comecei a trabalhar  para a Fundação Cultural da Bahia , aqui  mesmo em Vitória da Conquista,  no Centro de Cultura  Camillo de Jesus Lima. As coisas começaram  a melhorar . Iniciei como  um simples assistente administrativo  e logo assumi o cargo de diretor por duas vezes, uma espécie de condecoração para quem veio de baixo.

Empregado,  sucesso nas artes plásticas,  livros editados ,eventos importantes na capital do Estado,  submergia das profundezas abissais . Tenho o orgulho de  dizer, sem falsa modéstia,  levantei  sozinho,  óbvio  com o apoio de Deus e  a coragem de minha mulher.  A partir dali, tudo iria mudar na minha vida pessoal.

Mágoas e ressentimentos não  tenho, mas, mesmo assim,  é difícil sair da memória, pois não depende de mim,  elas vão e vêm,  intempestivamente.  Estas linhas não passam de relatos e nada mais, são apenas linhas.

Meu coração é limpo, guardo na carteira de documento o retratinho dele, meu pai, retratinho colado no seu título de eleitor com carinho e não para lembrá-lo com ressentimentos e mágoas, mas de suas qualidades, de um homem de valor e que fez história nesta terra

Mas não posso passar estes relatos  sem sua interação,  porque são assuntos que interligam a minha memória artística.  São relatos que, indelevelmente, deixam marcas e que, aos poucos, apagam-se da memória.  Como  foi um dos seus equívocos deixar-me por trinta anos sem pegar no  carro, contrariando  os pedidos de minha mãe ou de dizer aos próprios amigos que me elogiavam que eu não era mais seu filho.

Em parte o que houve, na  realidade , foi a falta do entendimento , do conhecimento da arte , da cultura,  pois sem a intenção de querer sermos melhores, pessoas comuns  são pessoas comuns e  artista é artista.

Sei que vou ser julgado por algumas coisas  ditas,  mas  assim fiz para tirar estas coisas do meu peito,  è assim que consigo esquecer  –  pelo desabafo .

Sei que melhor seria se eu escrevesse um poema lindo. Mas meu coração pediu. Quando o coração pede,  a gente não nega. Não posso um dia partir sem minha versão. A balança tem dois  pesos: não matei,  não roubei , não desonrei , não traí, não droguei. Sim. Atrapalhei-me, assim como um barco que se adentra ao mar e que procura o seu rumo, mesmo com a perda dos lemes.

Eu  me rebelei pela falta do entendimento. Descontrolei-me  pela falta de afeto  nos momentos mais difíceis que passei . Vários contra um.  Fui jogado fora.  Eu era polêmico  e era constante o julgamento crítico ao meu procedimento  artístico arredio; mas oriundos dos próprios conflitos familiares  que minavam lá fora.

Se quedarmos  a história da literatura e das artes,  teremos chances de encontrar grandes autores e artistas com problemas,  vamos encontrar um François Chopin , um Camões , arbitrário e boêmio inveterado , um Euclides da Cunha , revoltado  com problemas sociais da época , um Eça de Queiroz contra o próprio país , um Noel Rosa  alcoólatra inveterado ou um Vicente com gestos tresloucados , mas quem sou eu para apontar defeitos ainda mais de gênios.

Foi um tempo  de atritos ,  período de ditadura militar, da censura  , da mudança do comportamento  do jovens , das prisões  arbitrárias e de perseguições  etc , etc. E eu ali como um boi de piranha, um alvo fácil.. Nestas  épocas o preconceito ao artista era grande .O artista não valia l,99. Se passasse com um violão ,fumava maconha; se fazia teatro,  era bicha; se era um escritor , uma pessoa diferente , poeta , fazedor de livros,  era um  louco. Eu  mesmo senti na pele os  “ bullyings”, nome dado a maldade, à inveja  que sofri . Os bullyings que já se prenunciavam  para os tempos de hoje. E eu não tinha como me defender,  recordo-me do bullying quando me pegaram pelos cabelos, na tentativa de cortá-los com uma faca de mesa, entre outras situações pelas quais passei. Outra vez  tentaram   me esganar quase até a morte.  Mas nada pude fazer . Era sozinho. Precisava dos recursos advocatícios para correr os processos, o meu escudo era apenas minha mulher , mas acabei deixando para lá. Na verdade, artista naquela época era coisa suja, lixo, um miserável. Não tínhamos respeito nem consideração pelos talentos.

Realmente   só vim ser prestigiado e respeitado na minha terra, com o meu sucesso lá fora, com as exposições e lançamentos dos livros,  especialmente em Salvador.

Aprendi entre outras coisas que revoltas não  compensam  e nem devemos jogar fora nossos sentimentos.  É necessário  viver sem mágoas , sem ressentimentos, para prosseguirmos adiante com muita luz e determinação.

Fico pensando como sobrevivi  a tantas mazelas,  a tantos naufrágios   em nome  da dignidade como artista,  para manter uma família , com  lucidez e  progresso material. Talvez estivesse marcado desde àquela noite de um céu estrelado ,  assim como  expressa  a tela  “ UM CÈU ESTRELADO “ de VicenteVan Gohg , ( se não me engano logo após de terminar a tela…seguiu até a sombra de uma árvore e suicidou , com um tiro no ouvido. Diga-se  de passagem perdíamos ali  um dos maiores gênio da humanidade , que se perdeu , ante a incompreensão  do mundo e à sua sensibilidade  fecho parênteses.Enfim, são coisas da vida , de um passado distante …muito longe.

Na varanda de sua residência ali, na Lauro de Freitas , os dois ali sentados permanecem . E todos que hoje por ali passam olham e acham bonita a relação de pai e filho. Para a frente  é a lei do verdadeiro bem.

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